Nesta terceira parte da reportagem da A Voz de Portugal sobre a crise na Caixa Portuguesa Desjardins, apresentamos uma entrevista exclusiva com Paula Bernardino, antiga presidente do Conselho de Administração.
Afastada da liderança da instituição, Paula Bernardino fala pela primeira vez sobre a sua saída e os acontecimentos que marcaram este período de crise.
Durante os anos em que ocupou a presidência, Paula Bernardino apoiou várias iniciativas da comunidade, tanto portuguesa como brasileira. Entre elas estiveram o Santo Cristo, o Festival, a Casa dos Açores, a Associação Portuguesa do Canadá, o Centro de Ajuda à Família, o Livro do Galo, as Journées Brésiliennes dans le parc La Fontaine, o Festival da Capoeira, entre outras, contribuindo para fortalecer a ligação da Caixa às comunidades que serve.
Agora, nesta entrevista, apresenta a sua versão dos factos e responde às questões que continuam sem resposta.
A Voz de Portugal: Depois de tantos anos ligada à Caixa Portuguesa, sentes que a tua destituição foi uma decisão inesperada ou acreditas que já existia uma estratégia para afastar-te?
Paula Bernardino: Muitas pessoas contactaram-me para me perguntar por que razão o meu nome já não aparecia no site da Caisse Desjardins Portuguesa. A razão é muito simples: fui destituída do meu cargo de administradora da Caixa por «faltas graves». Ainda sugeriram a demitir-me do meu cargo de administradora da Caixa, o que recusei: não tenho nada de que me culpar (j’ai rien à me reprocher).
Quero começar por dizer que corro o risco de sofrer represálias com esta entrevista, mas é importante que as pessoas leiam a minha versão, porque já ouvi mentiras por aí!
Certamente estarão a perguntar-se quais foram essas faltas graves que cometi para merecer tal sanção brutal?
Eis a cronologia do processo da minha destituição:
(1) Em junho, o Comité de ética e governação da Caixa, composto de 3 administradores, reuniu-se para debater as minhas faltas e recomendar a minha destituição ao conselho de administração da Caixa – dos três administradores, o Nelson fazia parte desse comité, juntamente com mais 2 administradores. “As minhas falhas eram muito graves” dizia a maioria.
(2) O Conselho de administração da Caixa reuniu-se então a 22 de junho e decidiu avançar com o pedido para a minha destituição ao Conselho de administração da Federação da Desjardins – dos três administradores portugueses, apenas o Arlindo esteve presente nessa reunião. Aqui neste momento também havia aqui a opção de fazerem uma assembleia extraordinária e pedir aos membros da Caixa Desjardins Portuguesa para me destituir, porque afinal são os membros que me elegeram para o Conselho de administração, mas escolheram a opção de ir ao CA da Federação das Caixas Desjardins.
* todo membro da Caixa Desjardins Portuguesa tem o direito de pedir e consultar as atas destas reuniões do Conselho de administração.
(3) Fui informada a 8 de julho pelo presidente do conselho de administração da Caixa de que o Conselho de administração da Caixa tinha decidido enviar um pedido para a minha destituição ao Conselho de administração da Federação das Caixas Desjardins. Nesse momento tiraram-me acesso à plataforma interna Dilitrust onde estão todos os documentos dos administradores.
(4) A 9 de julho tive uma conversa com a Secretária Geral do Movimento Desjardins que me confirmou que o Conselho de administração da Federação das Caixas Desjardins recebeu um pedido para a minha destituição da parte do Conselho de administração da Caisse Desjardins Portugaise. Nesta conversa, informou-me que quando chega a este ponto, um administrador dá a sua demissão, o que recusei.
(5) A 15 de julho, recebi a notificação de três páginas do Conselho de administração da Federação das Caixas Desjardins com a lista de irregularidades e faltas de que era acusada e na qual me davam três dias para responder – o presidente do CA da Caixa estava em cópia nesse e-mail com o documento de notificação.
(6) Estava em Portugal na semana do 15 de Julho e o meu advogado negociou que me fosse concedido um prazo até 10 de agosto para responder – respondi a 6 de agosto com um documento de 12 páginas (que duvido foi consultado).
(7) A 25 de agosto, o presidente e a vice-presidente do Conselho de administração da Federação das Caixas Desjardins, através de uma reunião no Teams, informaram-me que iriam avançar com a minha destituição – as faltas que me estavam a acusar eram ‘muito graves’ – recebi então poucos minutos depois da reunião Teams o email com a carta confirmando a minha destituição, onde o presidente do CA da Caixa estava em cópia.
AVP: Os três administradores portugueses que se demitiram dizem que a tua destituição foi o “ponto de rutura”. O que aconteceu realmente dentro do conselho para chegar a esse ponto?
P.B.: No 8 de julho o presidente do conselho de administração da Caixa mencionava duas “faltas graves” que leveram o tal Comité de ética e governação a recomendar a minha destituição ao Conselho de administração da Caixa que depois foi para Conselho de administração da Federação das Caixas Desjardins:
- a primeira relativa que pedi provas de ascendência portuguesa a alguns candidatos às eleições para o conselho de administração (falso, eu pedi que explicassem, não pedi provas – será que isto foi um erro de tradução?
- a segunda relativa à minha entrevista e intervenções públicas na emissão Montréal Magazine, a 28 de maio de 2026 (preocupante… a entrevista e intervenções foram feitas em português! será que a versão traduzida à Federação estava bem feita?
Quando recebi o aviso prévio da Federação a 15 de julho, qual não foi o meu espanto a ver uma lista de queixinhas além destas duas – um “ramassis de reproches” como diz o meu advogado.
Coisas subjetivas como: - Vous n’avez rien fait, lors de l’assemblée générale annuelle 2025, pour rassurer les membres et les médias qui questionnaient l’éligibilité de candidats à l’élection au conseil d’administration de la caisse, de membres de plein droit de la caisse, laissant plutôt planer le doute quant au respect des règles en vigueur et obligeant ainsi le nouveau directeur général intérimaire à répondre à ces critiques ; Quem pode julgar que ‘vous n’avez rien fait’?
-Lors de la réunion du conseil d’administration du 26 mai 2026, au moment de l’élection des officiers, vous avez manifesté un manque de respect à l’égard des candidats élus ainsi qu’envers le processus électoral et le choix démocratique des membres du conseil. Au surplus, vous avez refusé de participer à la transition, ne donnant pas suite aux responsabilités de continuité envers le nouveau président ; Quem pode julgar o que é um ‘manque de respect’? Estarei a ser julgada por São Pedro?
Também me acusaram de divulgar informações confidenciais e de fazer comentários considerados desrespeitosos para membros da caixa e do conselho de administração, em particular com aqueles que, segundo eu, não seriam de ascendência portuguesa, o que entra em contradição com os valores de união, cooperação e inclusão do Movimento Desjardins. Perguntei quando, onde e como divulguei essas informações e quando, onde e como fiz esses comentários, mas nunca obtive resposta.
O que me chocou mais foi ler nesse documento de aviso da Federação que “Les différents propos que vous avez tenus ont entraîné la réaction d’employés de la caisse qui ont exprimé au nouveau président du conseil leurs préoccupations et leur désaccord relativement à certaines publications et à certains de vos comportements jugés incompatibles avec les attentes en matière de respect et de saine gouvernance.” Também pedi justificação e exemplos de ‘propos’ e de ‘comportements’, mas nunca obtive resposta.
Foi assim que “o caráter repetitivo dos seus comportamentos levou o conselho de administração da Caisse Desjardins Portugaise a dirigir-se à Federação para que procedêssemos à sua destituição enquanto administradora da Caisse Desjardins Portugaise”.
Note-se que nunca ninguém me tinham comunicado essas queixas, nem me tinham perguntado como poderia explicar tais faltas graves sempre que estas tivessem ocorrido.
Além disso, antes de dar uma resposta, recusaram-se categoricamente a fornecer-me quaisquer detalhes sobre essas acusações e a enviar-me qualquer documentação que sustentasse as queixas que me eram dirigidas.
AVP: Sentes-te traída por alguém dentro da Caixa? E há alguma pessoa ou grupo que consideras responsável pela situação que hoje se vive?
P.B.: Esta situação é o resultado de um ano de perseguição contra a minha pessoa. Sempre fiz tudo o que estava ao meu alcance para defender os membros quando estes me procuravam com situações questionáveis. Quando, depois, o membro recebia como resposta «Da próxima vez, não va falar com a Paula» ou «Que vos sirva de lição para a próxima vez, para não irem falar com a presidente».
É interessante referir que apresentei uma queixa por perseguição à Federação a 18 de junho e que não obtive qualquer acompanhamento nem resposta. E, de repente, algumas semanas depois, fui informada deste aviso prévio de destituição. Isso sim, deveria ser investigado: porquê a minha queixa de ‘perseguição’ foi ignorada?

A.V.P: O que é que aconteceu no conselho que os membros da Caixa ainda não sabem e que, na tua opinião, deveriam saber?
P.B.: Não me demiti! Gostava demais dos membros, do meu papel e das minhas responsabilidades para fazer isso!
Não tenho nada a reprovar a mim mesmo. Uma destituição é uma sanção brutal para aquilo que me acusaram! Não roubei! Não cometi fraude! Não divulguei segredos estratégicos. Isto foi o resultado de uma vingança pessoal por parte de pessoas que queriam ver-me fora dali o mais rapidamente possível.
Aqui faz sentido relembrar as responsabilidades que tive dentro da Caixa Desjardins Portuguesa e da Desjardins:
- Caixeira na Caixa de economia dos Portugueses (serviço à clientela) de 1997 a 1999
- Eleita ao Conselho de administração da Caixa Desjardins Portuguesa em Abril 2009
- Presidi o Comité de Ética, Cooperação e Governação e desempenhei as funções de secretária do Conselho de administração durante 10 anos e de vice-presidente 1 ano
- Presidente do Conselho de administração da Caixa Desjardins Portuguesa de 2022 a 2026
- Nomeada administradora no Conselho de administração da Associação dos Presidentes e Vice-presidentes das Caixas Desjardins em 2025
- Membro do júri da Fundação das Bolsas Desjardins de 2023 a 2026
Se sou assim tão malvada, como é possível ter obtido assim tantos cargos?
A.V.P: Depois de tudo o que aconteceu, a pergunta que muitos portugueses fazem é: a Caixa Portuguesa continua realmente a ser dos portugueses? Qual é a tua resposta?
P.B.: Qual é a definição de ‘português’ para a Caixa Desjardins Portuguesa?
Em conclusão: As suas declarações ajudam a compreender uma crise que continua marcada por divergências internas, falta de esclarecimentos e muitas questões por esclarecer. Ao longo deste processo, também se nota alguma reserva dentro da comunidade. Há pessoas que comentam a situação em privado, mas que não se sentem à vontade para falar publicamente. As razões dessa reserva podem ser várias e não cabe ao jornal fazer suposições. O importante é que os associados tenham acesso à informação e possam formar a sua própria opinião. A Caixa Portuguesa Desjardins foi construída ao longo de várias gerações. A sua continuidade dependerá também do interesse e da participação das novas gerações.
Com esta entrevista, A Voz de Portugal encerra esta série de reportagens sobre a situação na Caixa Portuguesa Desjardins. Se surgirem novos factos ou desenvolvimentos, o nosso jornal continuará a acompanhar o assunto e a informar os seus leitores.
Porque, quando faltam respostas, o silêncio também pode dizer muito.
