Eça de Queirós e as palavras de outros tempos


Estimados leitores,
Este espaço tem por missão celebrar e divulgar autores de língua portuguesa, sejam eles naturais de Portugal ou integrantes da nossa vibrante diáspora. Procuramos apresentar cada autor com o respeito que a sua obra merece, partilhando notas biográficas e excertos significativos que nos chegam, na sua maioria, através da Biblioteca José d’Almansor, em Montréal, pelas mãos dos próprios autores ou fruto das pesquisas que realizamos. O objetivo é sempre o mesmo: despertar o interesse pela leitura e promover o conhecimento dos nossos escritores portugueses, dando visibilidade à riqueza literária que nos une.
A rubrica Entre-Nós é apresentada na Rádio Centre-Ville na última quarta-feira de cada mês, na emissão Notas de Lá e de Cá, entre as 18 e as 20h. Contudo, sabendo que nem sempre é possível acompanhar a rádio, decidi trazer este trabalho para as páginas de A Voz de Portugal, um jornal tão acarinhado pela nossa comunidade. Aqui, convido-vos a conhecer, com a tranquilidade da leitura, a produção literária e as escolhas musicais que acompanham as nossas apresentações
Na rubrica do 30 de Setembro de 2026, mergulhámos na obra de um clássico da nossa literatura portuguesa, Eça de Queiroz, A Capital, publicado em 1926 a título póstumo.


A Banda Sonora da Rubrica Entre-Nós
Para acompanhar esta viagem literária, selecionámos as seguintes melodias :
Luiz Goes – Toada Beirã
Rui Veloso – A Veia do Poeta,
Marya Santos – Tu que partes,
Flamenco x Cha-Cha-Cha – Accordion

Biografia: José Maria de Eça de Queiroz nasceu em 25 de novembro de 1845, numa casa da Praça do Almada na Póvoa de Varzim, no então Largo de São Sebastião (hoje Largo Eça de Queiroz), no centro da cidade.
Os pais de Eça não eram casados o que era considerado indecente nos meados do século XIX, sobretudo porque o pai tinha um posto de certo relevo local, chefe da alfândega local. Assim, preferiu que o batismo do filho fosse realizado na Igreja Matriz de Vila do Conde, em vez da matriz local, muito próxima à casa, e que fosse ocultado o nome da mãe, portanto mae incognita.


Ora José Maria de Eça de Queiroz era filho de José Maria Teixeira de Queiroz, nascido no Rio de Janeiro em 1820 e delegado do procurador régio em Viana do Castelo, e de Carolina Augusta Pereira d’Eça, nascida em Monção em 1827.
O pai de Eça de Queiroz, era magistrado e par do reino, convivia regularmente com Camilo Castelo Branco, quando este vinha à Póvoa para se divertir no Largo do Café Chinês. Uma das teses para tentar justificar o facto de os pais do escritor não se terem casado antes do seu nascimento sustenta que Carolina Augusta Pereira de Eça não teria obtido o necessário consentimento da parte de sua mãe, já viúva do coronel José Pereira de Eça. De facto, seis dias após a morte da viúva, que sempre se opôs ao casamento dos pais de Eça de Queiroz, casaram-se quando o menino tinha quase quatro anos.


Em criança, Eça foi entregue a uma ama, aos cuidados de quem ficou até passar para a casa de Verdemilho em Aradas, Aveiro, na casa da sua avó paterna. Mais tarde foi internado no Colégio da Lapa, no Porto, de onde saiu em 1861, com dezasseis anos, para a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito. Teve seis irmãos.
Em Coimbra, Eça foi amigo de Antero de Quental. Os seus primeiros trabalhos, publicados na revista “Gazeta de Portugal”, foram depois coligidos em livro, publicado póstumamente com o título Prosas Bárbaras.


Em 1866, Eça de Queiroz terminou a Licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra e passou a viver em Lisboa, exercendo a advocacia e o jornalismo. Foi director do periódico O Distrito de Évora e colaborou em publicações periódicas como a Renascença, A imprensa, Ribaltas e gambiarras. Porém, continuaria a colaborar esporadicamente em jornais e revistas ocasionalmente durante toda a vida. Mais tarde fundaria a Revista de Portugal.
Obra do autor
A obra de Eça, foi traduzida em vinte linguas. e para os que gostam de literatura, passo a numerá-las:

  1. Mistério da estrada de Sintra (fr e ing)
  2. A reliquia (romance realista) (fr e ing)
  3. O crime do Padre amaro (novela) (fr e ing)
  4. O conde abranhos (fr e Ing.)
  5. A Capital (realismo) (ing)
  6. A Ilustre Casa de Ramires (fr e ing)
  7. A Cidade e as serras. (fr e ing)
  8. Os maias. (fr e ing)
  9. Mandarim (fr e ing)
  10. O primo basilio (ing)
  11. Carta de inglaterra (ing)
  12. Egyptos (ing)
  13. Frapas, Eça de Queiroz e mais tarde, completada por Ramalho Ortigao (É uma admirável caricatura da sociedade da época).(fr)
  14. Alves e Cia (fr e ing)
  15. As cartas de Paris (fr
  16. A Tragédia da rua das flores (fr e ing)
  17. Correspondência de Fradique Mendes (fr
  18. O defunto (ing)

Muitas destas obras foram também adaptadas ao cinema, quer em português, quer em francês ou em inglês. Entre elas destacam se Correspondência de Fradique Mendes e A Capital, ambas concluídas pelo filho do autor e publicadas a título póstumo, em 1926.
Apesar de ter havido uma reforma do português escrito em 1911, é natural e compreensivel que o filho do autor tivesse querido respeitar a escrita do romance na sua ortografia de origem, quero dizer antes de 1900, ano em que Eça de Queiroz faleceu.
Para melhor compreender o contexto desta edição, é com muito prazer que vos apresento uma breve amostra da evolução da língua portuguesa entre 1911 e os nossos dias, através de um excerto do livro — preservando integralmente o português da época.

Prólogo da edição de 1926 de A Capital
«Eu sei que o grande publico nao vai lér a minha nota e qué os proprios enthusiastas de meu Pae, saltarao por cima destas linhas com um gesto de tedio, quasi irritado, para correr ao primeiro capitulo e comecar com um ah! de Satisfacao: «A estacao d’Ovar, no caminho de ferro do Norte…
Julgo, porém, que desde que assumi a responsabilidade de publicar este volume e os seis que se Ihe devem seguir, era do meu dever vir dizer ao publico por que o fiz e como o fiz. Assim, esta nota ficara apenas como a explicacao do facto inesperado, como a authenticacao dos manuscriptos apparecidos, como um documento para o estudo da obra posthuma de meu Pae, e, finalmente, como um aviso aos leitores e à critica da Indole muito especial desde ha cerca de um anno, procurando um autografo inedito que alguem me tinha pedido, abri o pequeno cofre ou mala de ferro, onde, ha vinte e cinco annos, ainda em Paris, tinham sido guardados todos os papeis que se encontravam no escritorio de meu Pae. D’aquella mala ja tinham saido publicacoes preciosas: A Cidade e as Serras, os tres Santos, varios artigos. Alli, havia ainda os originais de diversas obras já conhecidas. E publicadas, e grande quantidade de papelada, em desordem, espalhada no fundo da mala pelos restos de numerosas viagens, papelada da qual diziamos muitas vezes: — « qualquer dia temos que ler aquillo tudo… e ver ao certo o que é». Foi o que agora se fez : «leu-se aquillo tudo, e viu-se o que era»


Sinopse: «Artur, um rapaz de familia burguesa, originária de Lisboa, mas dispersada na provincia desde a guerra civil, de 1828 a 34. Seu bisavô paterno, pertencera, em Lisboa, ao grupo de poetas parasitas que se entusiamavam nos botequins por Mirabeau e Robespierre. Artur fora estudar para Coimbra e em companhia de alguns estudantes; ouvira as vozes fanáticas descutirem das Artes, das religiões, do positivismo, da estupidez dos lentes, do Ser, da revolução de 1789, e do absolutismo; enfim um grupo que se considerava a aristocracia da inteligência.
Artur escrevera poemas e uma peça de teatro que só em Lisboa poderia encontrar o hesito que se achava ter direito»
A Capital — excerto da obra na sua versão original
«Chamavam-lhe em Oliveira d’Azemeis 0 Rabecaz. Era um homemzarrao, de cariio audaz e vermelao, fortes bigodes de mosqueteiro, muito teso no seu casaco d’alamares debruado d’astrakan; com o seu chapéu ao lado, a ponta do lengo muito de fora, o grande bengalao de canna da India, parecia a Arthur— quando o via passar na praca, revirando para as creadas que iam à fonte com os olhos avermelhados de genebra — um d’estes mestres d’armas, capities a meio soldo, azedados e turbulentos, dos romances d’Eugéne Sue. Era empregado da administraçao e ninguem sabia como se achava alli havia dez annos. Porque era de Lisboa, amaldicoava Oliveira d’Azemeis ; mal sabia redigir um officio e trevejava livremente contra os governos. Era um bilharista famoso na villa, grande homem do botequim da Corcovada, onde ficava, das quatro da tarde até à meia noite, carambolando, atirando para as fauces copinhos de genebra e fallando com auctoridade de politica e de mulheres. Foi alli que se encontraram, uma noite em que Arthur, ao passar, se refugiara d’uma pancada d’agua no bilhar quasi deserto. O Rabecaz, que batia melancolicamente carambolas solitarias, propoz a Arthur uma partida de vinte e cinco.
— Que V. Ex., como frequentou Coimbra, deve ser da confraria do taco.
— Jogo mal.
Mas acceitou, com uma curiosidade d’aquella figura que tinha em Oliveira um relevo pittoresco. HE, carambolando, conversaram.
O Rabecaz, inmediatamente, injuriou o governo — ea sympathia nasceu de se reconhecerem ambos republicanos. No emtanto divergiam : Arthur queria os Estados-Unidos da Europa, governados pelos grandes genios: Victor Hugo devia presidir a Franca, Castellar, a Hespanha ; nao haveria exercitos e os povos federadeos sentar-se-iam fraternalmente em banquetes symbolicos, cantando a Marselheza. Rabecaz exigia um Robespierre, um Cromwell, para guilhotinar os fidalgos, confiscar os bens dos capitalistas e escavacar os padres !
— Nem barées, nem sotainas!
— berrou, brandindo o taco.
—Pelo que vejo — disse Arthur — V. Ex. é da escola de Proudhon.
— Eu nao sou da escola de ninguem, meu caro senhor. Eu sou uma fera ! Quando penso no estado a que chegou este paiz, sou uma fera!
Trovejou enjoriou contra o clero : — mas nao concordavam tambem sobre questoes religiosas, Arthur entendia que se devia adorar a Natureza, nos campos, deante do céu, templo eterno, e admirava Jesus, philosopho e democrata! Rabecaz nao admittia Jesus, — « porque, uma de duas, meu caro senhor, ou era um Deus e entao tinha o poder de se nao deixar matar,. ou nao era um Deus, e entao nao podia ter resuscitado : porque deixar-se matar, para ter o prazer de se fazer resuscitar, parecia-lhe uma trica politica, impropria d’um ente divino!»
Aproveito para recordar que, depois da grande reforma republicana de 1911, a língua portuguesa passou por três momentos decisivos de transformação, todos motivados pela necessidade de unificar, simplificar e aproximar a escrita da realidade fonética, bem como de harmonizar as normas de Portugal e do Brasil.
Essas reformas, que moldaram o português moderno, foram sobretudo duas:

  • a Convenção Ortográfica Luso Brasileira de 1945, que procurou estabilizar regras de acentuação, consoantes mudas e uso do hífen;
  • e o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que consolidou o esforço de unificação entre todos os países lusófonos e estabeleceu a base da ortografia que hoje utilizamos.
    Com estas etapas, a língua portuguesa entrou definitivamente na sua fase contemporânea, mais coerente, mais internacional e mais próxima da forma como efetivamente falamos.
    Convido-os pois a revisitar Eça de Queirós porque é reencontrar uma língua em transformação. O português que o autor escreveu pertence a um período anterior às grandes reformas ortográficas do século XX. Por isso, algumas grafias podem surpreender o leitor contemporâneo.

Estimados leitores, decidi trazer vos este exemplo de mudanças porque entendo que é adequado adaptarmo nos às novidades que a vida continuamente nos apresenta. Por isso, convido vos a ler obras portuguesas escritas antes das reformas ortográficas de 1911, 1945 e 1990 e a fazer as respetivas comparações.