A novela Cristiano – Jorge Jesus – Federação Portuguesa de Futebol é reveladora de egos inflamados.
A cobertura mediática, desde reportagens, entrevistas e mesas redondas de comentadores variados até às conferências de imprensa de Jorge Jesus, revela um país insano.
Sim, insano é uma palavra meiga face à desproporção do psicodrama que envolveu o país nesta novela. Já imaginando o que iria acontecer, fiz questão de acompanhar alguns noticiários, desde telejornais à hora de jantar até àqueles à hora de almoço.
Conclusão: de 20 a mais de 30 minutos de drama em cada emissão. Nada mais se passava ou passa no mundo do que o psicodrama do futebol.
O absurdo terá envolvido telefonemas do primeiro ministro aos envolvidos; o presidente da república remeteu-se ao silêncio, tal sacerdote em preces pelo bem da nação; um abnegado cidadão desembolsou uma pequena fortuna – face aos salários portugueses – para colocar enormes cartazes em painéis exteriores em honra de Cristiano pela rua fora.
A preocupação nacional não é a instabilidade geopolítica; não é as décadas de péssima governação que mantém Portugal na cauda da Europa, ultrapassados por membros da União Europeia recém admitidos; não é o terrorismo; não é o problema demográfico de envelhecimento populacional; não é a emigração de talento formado dentro de casa para admissão de uma imigração desqualificada sem qualquer verificação de antecedentes criminais e outros; não é as múltiplas reformas, da saúde à educação, passando pelas relações de trabalho, que a sociedade portuguesa teima em adiar; não é o constante magro crescimento económico; não é a dependência patética de fundos europeus, mal gastos depois domesticamente; não é uma paisagem política ideológica anacrónica; e a lista continua… nada disto parece perturbar o povinho e as supostas elites nas suas lidas diárias, tão acomodados que estão à mediocridade.
Esta revelação acontece a miúde.
Os múltiplos exemplos de distração a que a sociedade portuguesa se entrega de forma refastelada são o espelho de uma falta de espírito verdadeiramente progressista – e não me refiro ao falso progressismo de esquerda, que nada mais é do que extravagâncias de indivíduos com traumas pessoais transpostos em ideologia – mas refiro-me ao verdadeiro progresso, material e individual, em que o cidadão se mostra capaz e à altura dos desafios que se tem que enfrentar enquanto sociedade.
Não me refiro ao coletivismo de esquerda, muito menos ao falso patriotismo de direita derivado de um egoísmo individual transposto para o coletivo; refiro-me ao patriotismo na construção de uma sociedade baseada em valores intemporais que adquirimos no decorrer de séculos e séculos de acertos e erros.
A desconstrução da História que assistimos deveria ser um sinal de alarme, mas passa despercebido.
A Educação, que se deveria centrar na verdadeira substância de formação de indivíduos – ou cidadãos – passa a ferramenta ideológica de arremesso entre fações, em que a qualidade das cadeiras ou um quadro de projeção tem mais valor do que a qualidade do ensino em si, desvalorizando-se os magros resultados em provas internacionais aferidoras da qualidade do ensino.
Nenhum líder atual se pergunta como que em tempos idos, com menos condições materiais, formámos profissionais competentes. Atualmente já não os formamos: temos reivindicadores baratos, fáceis, em que as culpas são de tudo e de todos menos deles mesmos.
Formamos mentes em que desvalorizamos o esforço individual e valorizamos a facilidade de acesso a tudo, valoriza-se a pedinchice como se nascêssemos com um pressuposto direito a ter tudo e mais qualquer coisa incondicionalmente.
O resultado está à vista.
Uma sociedade deficiente por deficientes serem os seus membros. Um país à deriva, constantemente mendigando, julgando que direitos são todos adquiridos por natureza.
Continuem na distração, consumam mais horas e horas em psicodramas…!
Crónicas de um país de faz de conta
