O impulso e as suas consequências

  1. A guerra entre Israel, EUA e Irão, com este último a tentar alastrar o conflito a outros países na região. O regime do Irão é sem dúvida anacrónico aos olhos dos países do chamado Ocidente.
    Não nos iludamos: o Irão vive segundo regras que os países europeus também viveram em tempos, mas que foram ultrapassadas por força da sua própria população que teve outra visão e sacrificou-se para a implementar. A sociedade iraniana, assim como muitas outras no Médio Oriente, não viveram essa experiência. E provavelmente não querem viver, o que coloca em causa qualquer ideia de mudança de regime sem a força militar.
    O problema é que a força militar pode propiciar uma vitória temporária, mas será que propicia uma paz duradoura?
    As anteriores experiências de mudança de regime empreendidas pelos EUA pela força militar falharam redondamente. E continuarão a falhar. Muitos se perguntarão como falham agora e não falharam muitas vezes na antiguidade. É muito simples: pela força de massacres selváticos. As populações que eram dominadas eram-no por serem vencidas após massacres de tal forma violentos e sanguinários que ferem hoje o sentimento moral mesmo dos mais ultrajantes dos seres humanos.
    O presidente americano, homem impulsivo e instintivo por natureza, empreendeu algo sem o mínimo de método, plano ou estratégia. Não nos iludamos: os seus objetivos são moldados à medida do que se vai desenrolando. Como analogia, é como se entrássemos em qualquer jogo de futebol no qual não há regra definida à partida para determinar o vencedor, sendo esta regra estabelecida à vontade da equipa que assim tiver mais peso mediático. Se a equipa a determinada altura definir que ganha quem deu mais toques na bola, assim acaba o jogo. Isto é conveniente e permite declarar sempre vitória. Mas acaba mesmo? À euforia da extração de Nicolas Maduro, sucedeu-se esta aventura no Irão. E fala-se já em Cuba. Se nos excluirmos dos clubismos políticos, termos em conta a gigantesca dívida americana e os custos astronómicos destas operações, há um alerta interno que nos deveria preocupar, e muito, para além do drama humano de vidas destruídas e da convulsão que se provoca sem medir as consequências que infelizmente cada vez valem menos face a uma Humanidade que se desnorteia a cada dia que passa.
  2. A gritaria do aumento dos combustíveis recomeça. Naturalmente estes têm impacto por toda a economia, principalmente na distribuição de alimentos e aquecimento que afeta os mais desfavorecidos. As reportagens entrevistando automobilistas indignados nas bombas sucedem-se.
    No entanto, circulando por Montreal em pleno fim de semana, a qualquer hora, é curioso verificarmos os engarrafamentos nas principais vias de circulação, mesmo nas autoestradas que cruzam a ilha de Montreal. Todos os acessos cheios, com circulação muito lenta. Naturalmente havia vias bloqueadas para limpeza de neve, mas ainda assim, o trânsito é deveras intenso.
    Quase que nos leva a saudades dos confinamentos da COVID onde se viu claramente que a maior parte do tráfego é desnecessário. Fazendo eu também parte do grupo que preencheu as nossas estradas, por obrigação e necessidade, olhei em redor para as outras viaturas, pensando quantos poderiam ter evitado este inconveniente.
    A estes o aumento dos combustíveis não leva a mudança de comportamentos, mas a reclamação permanece. A intenção impulsiva, que não passa de um hábito adquirido, não leva em conta custos acrescidos. Daí partimos para as ajudas, que nada mais são do que intervenções do lado da procura facilitando-a, ou seja, iludindo os consumidores que podemos manter o nosso comportamento sem consequências.
    Os mercados, que são em certa medida uma interessante forma de agregação de intenções e vontades, ainda que nem sempre do lado da razão, não deixam de ser um barómetro para a “meteorologia económica”. Da mesma forma que verificamos o estado de tempo antes de sairmos de casa, precavendo-nos com o vestuário e calçado apropriados, deveríamos também usar os mercados como barómetro do que vai na alma da sociedade do ponto de vista económico. As consequências são por vezes inevitáveis, mas muitas vezes temos a oportunidade de nos prepararmos e adaptarmos os nossos comportamentos o que poucas vezes acontece.

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