“Prata da casa” para celebrar as bodas de diamante do Teatro Micaelense


Naquela noite, o tempo deixou-se ficar à porta do Teatro Micaelense, como quem hesita antes de entrar numa casa antiga, onde cada parede guarda um segredo. Era tempo de celebrar setenta e cinco anos de vida.
Os jornais açorianos escreveram, dias antes, com uma reverência quase cerimonial, que não se tratava apenas de uma efeméride, mas de um reencontro coletivo com aquilo que nos fez comunidade. E tinham razão dado que houve qualquer coisa de íntimo e de inaugural naquele serão.
Mesmo antes do pano subir, como quem abre um álbum de fotografias antigas, a palavra de Frederico Amaral, ator açoriano de voz firme e presença serena, assumiu o papel de guardião das memórias. Não era apenas um narrador, era um mediador entre tempos, um condutor de histórias, alguém que nos levava pela mão através de décadas de aplausos, silêncios, estreias e despedidas. A sua voz, ora quente ora contida, parecia ecoar nas cadeiras, nos camarotes e no palco que tantas vezes ouviram passos de outros, de tantos outros.
Dizia-se nos jornais que o espetáculo seria um encontro de memórias, e assim foi, pois a plateia, repleta de curiosos, de habitués, de rostos que regressavam e de outros que ali vão uma vez por outra, partilhava um mesmo ritmo invisível. Havia uma expectativa suspensa no ar, como se todos soubessem que não estavam apenas a assistir, mas a participar num momento raro, daqueles que se inscrevem na história de uma casa e de uma cidade.
A música chegou como chegam as marés, com naturalidade e inevitabilidade. Ao piano, o talentoso jovem ribeiragrandense, Luís Martins, desenhava paisagens sonoras com uma delicadeza que fazia esquecer o esforço. As teclas tornavam-se extensões das suas mãos, e havia instantes em que a música parecia suspensa no ar, como se o tempo tivesse finalmente decidido entrar, mas em silêncio, para não perturbar. A Sinfonietta de Ponta Delgada, dirigida por Amâncio Cabral, ocupava o fosso com uma elegância que parecia ensaiada desde sempre. Cada instrumento encontrava o seu lugar como se fosse uma peça de um puzzle antigo, e a harmonia que dali nascia não era apenas sonora, era emocional. O Espetáculo desenrolava-se com rigor, sensibilidade, maturidade artística, sem nenhum exagero. Havia uma cumplicidade visível entre maestro, músicos e artistas que desfilavam no palco, numa confiança que se traduzia em gestos precisos e olhares que dispensavam palavras.
E depois, como se o espetáculo quisesse respirar em camadas, surgiram as vozes. O Coral de São José e alguns do Conservatório Regional de Ponta Delgada trouxeram consigo uma dimensão quase sagrada. As suas interpretações elevavam o espaço, preenchiam-no com uma luz invisível, como se cada nota fosse um fio a tecer uma tapeçaria coletiva. Cantavam não apenas para os ouvidos, mas para a memória e talvez por isso muitos na plateia se deixassem ficar imóveis, como quem teme que um gesto possa quebrar o encanto.
A acompanhar o nosso majestoso coral, o barítono Tiago Matos e a Soprano Carina Andrade deram corpo a emoções mais íntimas, pois havia nos seus timbres uma proximidade que contrastava com a grandiosidade do sublime conjunto orfeónico.
Cada palavra cantada parecia dirigida a cada espectador em particular. De destacar a entrega, a autenticidade, a forma como conseguiram criar pontes entre o coletivo e o individual.
E porque o corpo também fala, também dança, também conta histórias, entraram em cena bailarinas do 37.25 NAP, do Estúdio 13, dando movimento à memória, que fez com que as recordações deixassem de ser apenas evocadas para serem vividas de novo. Havia uma energia vibrante nos corpos, uma urgência que contrastava com a solenidade de alguns momentos anteriores.
O final, entregue ao grupo de hip-hop e aos coralistas, foi um rasgo de luz. A atuação, que descrevo como arrebatadora, teve algo de catarse. A plateia, que até então se mantivera num registo de contemplação, deixou-se levar por uma energia contagiante. Houve aplausos e sorrisos que se cruzaram entre desconhecidos, uma sensação de pertença que dificilmente se explica. Era o presente a afirmar-se com força, a dizer que a história continua e que há novas linguagens, novos ritmos, novas formas de ocupar o palco.
Frederico Amaral, como quem fecha um livro e deixa uma página em branco disse as suas palavras finais que não foram um ponto final, mas uma vírgula prolongada. Falou de continuidade, de responsabilidade, de amor ao teatro. E também falou de público porque ele faz parte integrantes das memórias do Teatro Micaelense.
A assistência reteve como num filme o registo das emoções daquela noite, como quem tenta fixar o efémero. Falaram de emoção, de qualidade, de simbolismo. Alguns com quem troquei impressões sublinharam a importância de investir na cultura, de preservar espaços como o Teatro que não é só de Ponta Delgada, mas de toda a ilha, de garantir que as próximas gerações possam também ter as suas noites inesquecíveis. Outros preferiram destacar momentos concretos, atuações específicas, detalhes que não apareceram e os que ficaram na retina e no ouvido. Todos, sem exceção, reconheceram que houve ali algo que ultrapassou a soma das partes. Porque o Teatro Micaelense, naquele seu 75.º aniversário, não celebrou apenas o que foi, mas celebramos o que pode vir a ser. E fê-lo com um espetáculo que foi, simultaneamente, homenagem e afirmação, memória e criação, passado e futuro entrelaçados numa mesma respiração.
Quando o pano desceu pela última vez e o público começou a sair, havia ainda um eco no ar. Um eco de vozes, de música, de passos, de palavras, misturados com um copo de champanhe. Um eco que não se dissipa facilmente, porque pertence a todos os que ali estiveram na plateia e no palco.
Talvez seja isso que define um verdadeiro espetáculo, não o que acontece à boca de cena e no fosso, mas o que permanece depois. E naquela noite, no coração de Ponta Delgada, ficou a certeza de que o Teatro Micaelense continua vivo. Não apenas de portas abertas, mas de alma acesa, assim o disseram os representantes institucionais. Por isso, palmas para a Carolina Bettencourt, para a Maria João Gouveia e para a Isabel Albergaria Sousa, bem como para o Teatro Micaelense na pessoa da Maria José Lemos Duarte, numa clara mostra da vitalidade cultural de S. Miguel.

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