Tremor – levar os Açores ao centro do Mundo


Num tempo em que as ilhas tantas vezes se veem relegadas à margem dos grandes fluxos culturais e turísticos, ergue-se o Festival Tremor, como uma interessante de criação artística no coração de São Miguel. É, pois, com apreço que deixo palavras de sincero reconhecimento aos seus organizadores, e muito particularmente ao António Pedro Lopes, cuja visão e perseverança têm sabido transformar um território periférico num epicentro vibrante de experiências artísticas.
O Tremor não é apenas um festival, é uma afirmação de identidade, uma cartografia sensível onde o som, a paisagem e a memória se entrelaçam numa coreografia de pura beleza. Em plena época baixa do calendário turístico, quando o arquipélago se recolhe numa quietude quase contemplativa, eis que este evento aparece como um sopro vital, convocando visitantes, artistas e curiosos para uma vivência que transcende o mero entretenimento. Há, neste gesto, uma inteligência estratégica digna de nota, pois ao contrariar a sazonalidade, o festival não só dinamiza a economia local, como inscreve os Açores no mapa das rotas culturais contemporâneas.
Importa sublinhar que este influxo de visitantes não se esgota na efemeridade dos dias do evento.
Pelo contrário, gera um efeito multiplicador, irradiando benefícios por diversos sectores, como da hotelaria à restauração, dos transportes ao comércio local, num ciclo virtuoso que reforça a sustentabilidade económica da Região. Assim, o Tremor afirma-se não apenas como acontecimento cultural, mas como agente de desenvolvimento, capaz de conjugar estética e pragmatismo com rara harmonia.
A consagração nos Iberian Festival Awards, onde foi distinguido como melhor festival de pequena dimensão, vem apenas confirmar aquilo que já era intuído por muitos: estamos perante um projeto de excelência. A esta distinção soma-se ainda o prémio de melhor promoção turística, reconhecimento que atesta a capacidade do festival em comunicar, com autenticidade e engenho, a singularidade açoriana a públicos diversos e exigentes.
Tais galardões, anunciados pela Aporfest (Associação Portuguesa de Festivais de Música), colocam o Tremor lado a lado com outros nomes maiores do panorama nacional, como o Rock in Rio Lisboa, o Bons Sons ou o Festival Músicas do Mundo de Sines.
Contudo, longe de se diluir nesse conjunto, o festival açoriano destaca-se precisamente pela sua escala humana e pela sua relação íntima com o território. Aqui, não há lugar para fórmulas estandardizadas; cada edição é pensada como um organismo vivo, atento às ressonâncias do lugar e às pulsações do presente. Destaque especial vai para as “Receitas do Baú – Na Nossa Mesa” em Rabo de Peixe, em que os festivaleiros são convidados a visitar casas de moradores locais para um encontro autêntico, diálogo e partilha de refeições cozinhadas pelos próprios anfitriões.
A programação eclética, que cruza géneros, geografias e linguagens, revela uma curadoria exigente e sensível, capaz de surpreender sem alienar, de inovar sem perder o enraizamento. É de salientar a indispensável presença dos Ondamarela, com Ricardo Batista e a Associação de surdos-mudos de S. Miguel.
Acresce a isto uma clara valorização da cultura local, não como ornamento folclórico, mas como matéria viva, digna de diálogo e reinvenção. É nesta tensão fecunda entre o global e o insular que o Tremor encontra a sua voz mais autêntica.
Num arquipélago onde o isolamento geográfico tantas vezes se impõe como desafio, iniciativas desta natureza assumem um papel quase civilizacional. São pontes e convites lançados à descoberta dos Açores, afirmações de pertença num mundo cada vez mais interligado, mas nem sempre atento às margens.
Que este reconhecimento sirva, pois, de estímulo renovado. E que o Tremor continue a fazer vibrar São Miguel com a mesma coragem, sensibilidade e visão que o têm distinguido. Aos seus organizadores, o mais justo dos aplausos, pelo trabalho realizado, pela persistência demonstrada e pela prova inequívoca de que, mesmo nas geografias mais remotas, é possível criar centros de irradiação cultural de alcance universal.

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