A Igreja Católica enfrenta hoje um dos maiores desafios da sua história: ou se torna verdadeiramente um espaço de encontro, humanidade e presença, ou corre o risco de se transformar num lugar vazio de significado para muitas pessoas. Não porque lhe falte riqueza espiritual ou tradição, mas porque o Evangelho exige sempre renovação, proximidade e autenticidade. Há, por isso, três dimensões fundamentais que a Igreja precisa de assumir com coragem.
1- Antes de tudo, a Igreja tem de ser um espaço de verdadeiro ACOLHIMENTO. Se a Igreja não acolher, deixará de cumprir a sua missão mais essencial. Cristo nunca começou pela exclusão, pela suspeita ou pelo julgamento; começou sempre pelo encontro. Aproximava-Se dos marginalizados, sentava-Se à mesa com os pecadores, escutava quem ninguém queria ouvir e fazia sentir a cada pessoa que tinha um lugar no coração de Deus. A Igreja, sendo sacramento vivo dessa presença de Cristo no mundo, não pode transformar-se num espaço frio, seletivo ou excessivamente burocrático, onde as pessoas sintam que precisam primeiro de “merecer” entrar para depois serem amadas.
Acolher não significa relativizar valores nem diluir a identidade cristã; significa criar um ambiente onde cada pessoa possa sentir-se vista, ouvida e respeitada no seu percurso de vida. Muitas vezes, as pessoas afastam-se não por falta de fé, mas porque não encontraram rostos capazes de espelhar a misericórdia de Deus. Uma Igreja que não acolhe corre o risco de se tornar apenas um edifício frequentado por alguns, mas incapaz de tocar o coração dos homens e mulheres do nosso tempo. O futuro da Igreja dependerá, em grande medida, da sua capacidade de fazer cada pessoa sentir: “Aqui há lugar para mim”.
2- Em segundo lugar, a Igreja precisa de SAIR PARA FORA DE SI MESMO e permitir que as pessoas sejam verdadeiramente sujeitos da vida eclesial. Durante demasiado tempo, talvez se tenha entendido a participação como mera execução de tarefas previamente definidas, sem espaço para a criatividade, para a expressão pessoal e para os dons concretos de cada um. Porém, uma Igreja viva é aquela que reconhece que o Espírito Santo continua a falar através das pessoas, dos seus talentos, da sua sensibilidade e da forma única como sabem expressar a fé.
Cada pessoa tem algo para oferecer. Uns sabem cantar, outros acolher, outros organizar, outros comunicar, outros simplesmente estar presentes com humanidade e escuta. A comunidade cristã não pode uniformizar tudo nem exigir um único modo de viver ou manifestar a fé. Pelo contrário, deve valorizar aquilo que existe de mais genuíno em cada pessoa: a capacidade de se expressar de forma autêntica e verdadeira. Também a liturgia católica, guardando sempre a sua dignidade, beleza e identidade, não pode ser vivida como uma imposição rígida de estilos ou sensibilidades. A liturgia é o encontro entre Deus e o Seu povo, e por isso deve permitir que as comunidades rezem de forma encarnada, respeitando culturas, linguagens e expressões que ajudem as pessoas a entrar verdadeiramente no mistério celebrado. Quando a Igreja escuta e integra a autenticidade das pessoas, torna-se mais próxima, mais humana e mais fiel ao próprio Evangelho.
3- Por fim, a Igreja tem de assumir, de uma vez por todas, uma verdadeira PASTORAL DA PRESENÇA. Não basta esperar que as pessoas venham; é preciso ir ao encontro delas. Não basta organizar atividades dentro das paredes da paróquia; é necessário habitar os lugares onde as pessoas vivem as suas alegrias, sofrimentos, dúvidas e fragilidades. Uma Igreja ausente dificilmente poderá anunciar um Deus próximo.
O Papa Francisco insistiu muitas vezes nesta imagem profundamente evangélica: os pastores devem “cheirar a ovelhas”.
Quando ouvi esta expressão pela primeira vez, talvez não tivesse ainda o coração aberto para compreender tudo o que ela significava. Hoje, porém, percebo que nela se encerra talvez o maior programa pastoral que uma paróquia, uma diocese ou mesmo a Igreja universal pode assumir. “Cheirar a ovelhas” significa estar verdadeiramente com as pessoas: conhecer os seus nomes, visitar as suas casas, acompanhar as suas dores, escutar sem pressa, caminhar ao lado sem superioridade. Significa uma Igreja menos preocupada com estruturas e mais comprometida com relações humanas transformadas pela ternura do Evangelho.
Uma pastoral de presença não se mede pelo número de reuniões, documentos ou eventos, mas pela capacidade de fazer sentir a alguém que não está sozinho. PRECISAMOS DE MENOS REUNIÕES E MAIS ENCONTRO!
Se a Igreja quiser continuar a ser sinal credível do Evangelho no mundo contemporâneo, terá de reencontrar estas três urgências: acolher sem medo, permitir uma participação autêntica e cultivar uma pastoral de presença. Talvez seja precisamente aí que resida a sua renovação mais profunda: menos centrada em si mesma e mais parecida com Cristo.
Três Urgências Para a Igreja de Hoje…
