Tempo dos Mercurianos


Há um tempo para tudo. A experiência Humana vai desdobrando por si mesma novos desafios que permitem épocas para tudo. A própria Bíblia refere isso no livro de Eclesiastes, referindo que tudo tem o seu tempo, para nascer e para morrer, para plantar e para colher, de derrubar e edificar… até foi tema musical nos idos anos sessenta do grupo americano The Byrds pela canção “Turn, Turn, Turn”. Para estas épocas há determinados tipos de personalidades que se sobressaem, que parecem pulular de todos os cantos do globo carregando características comuns que caracterizam esses tempos.
Mercúrio era uma deidade interessante na antiguidade, com múltiplas correspondências por diversas civilizações. Por excelência deus das trocas, era associado à comunicação, às transações comerciais, a tudo que significasse uma relação de informação ou material entre duas ou mais partes. De tal forma que em certos campos, como a astrologia, era considerado neutro, pois o seu teor era puramente comunicativo, sem qualquer intervenção na substância do que se comunica ou relaciona. Assim, no seu aspeto negativo, era também associado aos intriguistas, conspiradores, oportunistas e ladrões, que deturpavam ou não se importavam com os fundamentos, tão presos que estão ao ganho circunstancial. São os tacticistas do ganho imediato, mas sem estratégia de médio ou longo prazo. Se por um lado poderiam trazer duas partes à linha de comunicação, por outro poderiam também ser o ponto divisório, separatista, dada a sua natureza dual. Tanto serve para a construção como para destruição, ainda que esta seja normalmente de modo corrosivo.
Olhando em redor vemos a proliferação desta característica e de personalidades associados a esta. Se a mentira teve épocas de maior ou menos incidência, nunca nas últimas décadas se manifestou de forma tão extensa, tão evidente e tão descarada. A miséria moral é constrangedora. Mas que importa: a população sanciona através do voto estas personalidades, e consequentemente este comportamento! Os sistemas, que foram construídos em torno de imunidades para proteger os cidadãos que se lançavam na política dos ataques constantes e inúteis que lhes tolheriam os movimentos, são agora usados como proteção da mentira. Estes sistemas, que partiam do princípio de que personalidades de elevada moral e ética conquistariam os lugares de liderança política e social, foram apanhados de surpresa pela facilidade, cada vez mais crescente, de qualquer personalidade desequilibrada ser capaz de enriquecer a níveis inauditos e consequentemente capturar grupos importantes da sociedade.
O seu desequilíbrio é assim multiplicado e passível de ser espalhado, com a ajuda de inúmeros indivíduos que participam da riqueza de dizer disparates com patrocínio de empresas que pagam os clicks nas páginas que geram riquezas incalculáveis, mas sem qualquer substância.
A sociedade em geral, oprimida pela falta de perspetivas e excesso de restrições entra no desvario do enriquecimento fácil, pelo exemplo difundido, alimentando a vã e infantil esperança que colocando-se ao lado de desequilibrados com muito valor monetário, possam ser também atingidos por esse “vírus”.
Vã esperança, pois tornam-se alimento de uma máquina manipuladora. O ridículo chega ao ponto em que cristãos já repudiam a empatia, enquanto enchem a boca de Jesus. Grupos de homossexuais, transexuais e afins defendem sociedades que jamais os acolheriam no seu seio, sob pena de serem trucidados de forma sádica. Movimentos políticos defendem partes de um conflito, em completa traição dos valores fundamentais humanos, ou mesmo dos seus países de origem, untados que estão com dinheiros fáceis, expondo-se de forma mentirosa da forma mais abjeta. Outros defendem retrocessos, à maneira do condutor de um veículo que conduz para a frente olhando para a retaguarda pelo retrovisor. O populismo de tudo dar a todos tornou-se moeda de troca para eleitores que se vendem a troco de aumentos perniciosos de pensões, subsídios ou outros benefícios específicos. O futuro fica em jogo perante tamanha ignorância e ruína moral. Os divisionismos, onde se inclui alguns separatismos de “vamos sozinhos”, é da mais profunda ignorância do passado construtivo, da realidade atual e do objetivo e necessidades futuras.
Mas os slogans resultam pois o voto sanciona.
E aqui entram os mercurianos. A confusão e a controvérsia são as suas armas; a desavença é o campo fértil de onde retiram dividendos à custa de toda a sociedade.