O Espírito Santo permanece como derradeira grande democracia açoriana


Nas nossas ilhas, o calendário mede-se pelo toque dos sinos, pela chegada das romarias, pelo cheiro da lenha acesa sob as panelas das sopas do Espírito Santo e pela massa sovada. E, no entanto, há dias em que a solenidade oficial parece esquecer essa pulsação profunda da açorianidade. O Dia dos Açores, concebido para celebrar a autonomia, a identidade e o destino atlântico de um povo disperso por nove ilhas e unido pela memória do mar, foi-se tornando, ano após ano, numa liturgia política de acesso reservado.
A cerimónia oficial decorre entre salamaleques institucionais, protocolos rigorosos e uma litânica de discursos que parecem não ter fim nem princípio. As cadeiras da plateia enchem-se de titulares de cargos, assessores, dirigentes partidários, convidados credenciados e notabilidades de circunstância. O povo permanece do lado de fora, não por desinteresse, mas porque raramente encontra lugar numa celebração que lhe deveria pertencer por direito natural e histórico. A autonomia, outrora conquista coletiva arrancada à distância e ao abandono, surge agora embrulhada em formalismos quase palacianos.
As insígnias autonómicas distribuem-se abundantemente, como se a profusão substituísse o critério e a solenidade compensasse a erosão do significado. Condecoram-se trajetórias meritórias, sem dúvida, mas também conveniências políticas, equilíbrios partidários e fidelidades institucionais. Há sempre aplausos medidos, fotografias oficiais e uma certa encenação que dificilmente resiste ao olhar atento das ruas. Porque a verdadeira vida das ilhas não cabe nos salões revestidos de veludo nem nos púlpitos adornados de retórica autonómica.
Cá fora, longe dos microfones e dos hinos protocolares, o arquipélago continua a celebrar-se a si mesmo com uma autenticidade que nenhum decreto consegue fabricar. O povo acorre aos impérios, acompanha os cortejos, partilha as sopas e os suspiros, conversa demoradamente junto às mesas improvisadas e encontra, nesses gestos simples, uma comunhão infinitamente mais profunda do que qualquer sessão solene. Nos bodos e nas despensas há abundância, mas também igualdade, porque ninguém pergunta pela filiação partidária antes de servir uma tigela fumegante ou um pedaço de massa sovada.
O Espírito Santo permaneces como derradeira grande democracia açoriana. O rico e o pobre sentam-se lado a lado, o emigrante regressado mistura-se com o lavrador, o pescador e o funcionário público, o mordomo vale menos pelo estatuto social do que pela enorme generosidade do serviço prestado à comunidade. É uma tradição secular que resiste porque nasce de baixo, da fé popular e da necessidade ancestral de partilha num território tantas vezes marcado pela escassez e pelo isolamento.
Talvez resida aí a ironia maior destas celebrações. Enquanto os representantes oficiais discursam interminavelmente sobre identidade açoriana, é o povo anónimo quem continua a praticá-la sem necessidade de proclamações. A autonomia vive menos nos auditórios engalanados do que nas freguesias, onde ainda se preserva o sentido comunitário na devoção espontânea que atravessa gerações.
O Dia dos Açores deveria ser uma ponte entre instituições e povo, entre memória histórica e futuro coletivo. Porém, demasiadas vezes transforma-se num espelho da própria classe política, fechado sobre si mesmo, satisfeito com os seus rituais internos. E talvez por isso muitos açorianos olhem para as cerimónias oficiais com uma mistura de indiferença e resignação, sabendo que a verdadeira festa acontece noutro lugar.
Acontece onde há filarmónicas, algumas um pouco desafinadas mas sinceras, crianças a correr entre bandeiras do Divino Espírito Santo, panelas imensas a fumegar desde madrugada e mordomos cansados mas felizes por cumprirem a promessa. Acontece onde a comunidade ainda se reconhece como comunidade e onde a palavra partilha conserva um significado concreto.
No fim de contas, as insígnias enferrujam, os discursos esquecem-se e os cargos passam. Mas o Espírito Santo regressa todos os anos, teimosamente vivo no coração das ilhas. E enquanto houver um bodo e uma despensa preparados com devoção e uma mesa posta para todos, persistirá uma verdade antiga que nenhuma liturgia política conseguirá eclipsar.
Viva o Espírito Santo!
Viva o Mordomo!