Mariza em Montreal: uma Noite para Amar o Fado


Entre grandes clássicos do fado, novas canções e momentos de grande cumplicidade com o público, a fadista portuguesa apresentou um espetáculo marcado pelas várias formas de amar. Numa conversa comigo, partilhou também a história pessoal que inspirou o seu mais recente trabalho.
No domingo, 25 de outubro, às 20h, Mariza subiu ao palco da Maison symphonique, em Montreal, para apresentar L’Étoile du Fado, integrado na sua digressão internacional Amor, título do seu mais recente trabalho musical.
Perante uma sala com cerca de 2 100 lugares, a fadista proporcionou uma noite de música e emoção, acompanhada por músicos de grande talento, com guitarra portuguesa, guitarra acústica, acordeão, baixo e percussão.
O concerto começou com um tema de Carlos do Carmo, uma das grandes referências de Mariza. Seguiram-se canções que marcaram a sua carreira e temas associados ao repertório de Amália Rodrigues. O público teve ainda a oportunidade de descobrir novas composições do universo de Amor.
Mariza mostrou que gosta de estar perto de quem a ouve. A Maison symphonique tem lugares atrás do palco e a fadista fez questão de se virar várias vezes para cantar e falar com os espectadores sentados nessa zona. Com o seu sentido de humor, brincou que, se tinham pago para ver a parte de trás da sua cabeça, era porque gostavam mesmo dela. A proximidade não ficou por aí. Mariza desceu do palco e cantou junto das filas e nas laterais da sala, surpreendendo os espectadores.
No final, a plateia continuou a aplaudir de pé até ao regresso da artista. Para encerrar a noite, Mariza respondeu aos pedidos dos fãs com Primavera e Maria Joana, convidando todos a levantarem-se, cantarem e dançarem. A sala transformou-se numa verdadeira festa, partilhada entre a fadista e o público.

A história pessoal por detrás de Amor
Após o concerto, tive o privilégio de entrevistar Mariza. Para além da artista que conquista plateias em todo o mundo, encontrei uma mulher disposta a partilhar uma fase difícil da sua vida e a explicar como essa experiência influenciou a sua música.
Durante a pandemia de COVID-19, Mariza enfrentou uma depressão. Esse período levou-a a refletir sobre as relações humanas e o significado do amor.
Nascida em Moçambique e criada na Mouraria, em Lisboa — bairro intimamente ligado à história do fado —, a fadista encontrou nessas reflexões uma fonte de inspiração para o seu mais recente trabalho.
Para Mariza, o amor manifesta-se de várias formas ao longo da vida: no amor de um filho, na amizade, na paixão e no desejo. Mas há também um amor essencial que, muitas vezes, fica esquecido: o amor-próprio.
Esta visão ajuda a compreender a dimensão pessoal de Amor, um trabalho que vai além das canções românticas. Através da música, Mariza partilha sentimentos e experiências com os quais muitos de nós nos podemos identificar, lembrando-nos de que os momentos difíceis também podem mudar a forma como olhamos para nós próprios e para os outros.
Essa dimensão pessoal esteve presente ao longo do espetáculo. Entre os fados que já fazem parte da memória do público e as novas canções, a fadista levou a plateia numa viagem pela música portuguesa e pelas emoções que marcam o seu percurso. Promovido pela Traquen’Art, o concerto terminou com aplausos, música e uma plateia que não queria ficar sentada.
Naquela noite, o fado voltou a mostrar a sua capacidade de atravessar fronteiras e aproximar pessoas. Mariza trouxe a Montreal não apenas canções que fazem parte da história da música portuguesa, mas também uma mensagem pessoal: o amor tem muitas formas e começa, também, na maneira como aprendemos a gostar de nós próprios.