Nasci em Montreal, mas fui feito em Portugal. A minha história, as minhas raízes e grande parte da minha vida estão profundamente ligadas à Missão Santa Cruz. Foi nesta igreja que fui batizado, fiz a Primeira Comunhão e a Confirmação. Frequentei a Escola Santa Cruz até ao nono ano e foi também aqui que me casei. Mais tarde, os meus filhos foram batizados nesta mesma igreja e espero que as próximas gerações da minha família continuem a manter esta ligação tão especial.
Admiro profundamente a Santa Cruz, tal como os meus pais a admiraram, contribuindo com donativos para a sua construção. Ao longo dos anos, também procurei ajudar esta instituição da melhor forma que pude, sempre de coração aberto e sem nunca pedir um cêntimo em troca.
Fui professor de informática na Santa Cruz, criei a primeira rede informática da instituição, desenvolvi o seu primeiro site e colaborei na melhoria do boletim, procurando torná-lo mais atrativo e digno da nossa comunidade. Tudo isto porque acredito nesta igreja, na sua história e no papel fundamental que desempenha na vida dos portugueses de Montreal.
Não quero ver a Santa Cruz enfraquecida, dividida ou perder aquilo que representa para tantas gerações. Acredito que as diferenças de opinião podem existir e até contribuir para melhorar uma instituição, desde que haja respeito, diálogo e vontade de encontrar soluções. Não vejo necessidade de transformar divergências internas numa situação que possa levar a intervenções externas, se houver capacidade para resolver os problemas através do entendimento.
Esta semana, acompanhei com preocupação o que tem sido publicado no boletim e nas redes sociais sobre a situação atual. Não concordo com tudo o que tenho visto e considero importante que a comunidade conheça os diferentes pontos de vista antes de tirar conclusões. É precisamente esse o objetivo deste artigo: apresentar os factos e as preocupações em discussão, para que cada leitor possa formar a sua própria opinião.
Há um velho princípio que continua a fazer sentido: a roupa suja lava-se em casa. Os problemas devem ser enfrentados com seriedade, responsabilidade e transparência, mas também com discrição, respeito e espírito de união. Quando os conflitos ultrapassam as portas da instituição, as consequências podem afetar muito mais do que as pessoas diretamente envolvidas. A Santa Cruz pertence à história e à memória de uma comunidade inteira. Por isso, acima de qualquer divergência pessoal, deve estar sempre o bem da instituição. É tempo de baixar as vozes, abrir o diálogo e procurar soluções com bom senso, para que esta igreja continue a ser um lugar de fé, encontro e união para as gerações futuras.
Para a história: o comunicado do Conselho de Administração da Missão Santa Cruz”
Perante alguns comentários injustos e a divulgação de informações falsas nas redes sociais acerca da Missão Santa Cruz, consideramos importante esclarecer brevemente a situação. Com a implementação das novas ciclovias e a crescente escassez de lugares de estacionamento na nossa área, o parque de estacionamento da Missão tornou-se essencial para assegurar a continuidade das nossas atividades religiosas e pastorais. A nossa missão primordial é servir a Igreja e proporcionar um lugar de culto à nossa comunidade. É neste contexto que procuramos também apoiar iniciativas culturais e recreativas que contribuam para o bem-estar da comunidade portuguesa, desde que estas não comprometam as nossas responsabilidades religiosas e pastorais.
Após consulta com a Arquidiocese de Montreal, a Administração da Missão Santa Cruz, decidiu que deixará de encerrar o seu parque de estacionamento aos fins de semana para a realização de atividades não religiosas. Temos a responsabilidade de garantir aos paroquianos da Missão Santa Cruz e aos membros da comunidade portuguesa acesso livre e desimpedido à igreja e aos seus serviços religiosos.
Todos devem poder participar nas Missas, funerais, celebrações e demais sacramentos sem qualquer impedimento. Somos privilegiados por viver numa cidade que dispõe de numerosos parques e espaços públicos adequados à realização de eventos culturais, frequentemente com o apoio da cidade de Montreal. Estas alternativas poderão permitir a continuidade de iniciativas importantes para a promoção da cultura portuguesa. Caso exista interesse em continuar a realizar o Festival nas instalações da Missão Santa Cruz, reiteramos a nossa disponibilidade para disponibilizar o Salão Grande da Missão, que poderá acolher adequadamente o evento, independentemente das condições meteorológicas, sem comprometer o acesso dos fiéis à igreja e ao parque de estacionamento. Gostaríamos também de expressar o nosso orgulho de ter apoiado o Festival ao longo dos anos. Reconhecemos e valorizamos o trabalho realizado, e à promoção e divulgação da cultura portuguesa na nossa comunidade.
Agradecemos a compreensão de todos e esperamos que seja possível manter uma relação assente no respeito mútuo, no diálogo construtivo e na colaboração, sempre em benefício da comunidade portuguesa que nos une.
A Administração da Missão Santa Cruz
A Resposta de Arthur Sousa: “A Administração da Missão Santa Cruz publicou um comunicado, mas bloqueou membros da comunidade de fazer comentários. Mesmo assim, a comunidade reconhece e aprecia o trabalho da Administração, incluindo o Padre Adam e os membros da direção. São voluntários, e a dedicação que demonstram na manutenção da Missão e no serviço à nossa comunidade merece respeito. Ao mesmo tempo, reconhecimento também significa colaboração. Precisamos de trabalhar juntos, porque o futuro da nossa comunidade depende da união, não da divisão. Como a Missão Santa Cruz decidiu publicar um comunicado público, a comunidade também merece compreender todo o contexto de forma clara e honesta. Esta situação não começou por causa da religião, do estacionamento ou do acesso às Missas. Começou porque o Festival Portugal Montréal e a Missão Santa Cruz tiveram um desacordo sobre o preço do aluguer. O valor passou de 2.000 dólares, depois 4.000 dólares, e este ano a Missão Santa Cruz pediu 6.000 dólares. Esta é a verdadeira origem do problema.
O comunicado afirma que a Missão Santa Cruz não pode encerrar o estacionamento para atividades não religiosas, mas ao mesmo tempo oferece o aluguer do Salão Grande. Isto é uma contradição. Alugar o salão implica automaticamente acesso ao estacionamento. Não se pode alugar o salão e negar estacionamento. Esta explicação não corresponde à realidade prática.
E sejamos muito claros. Mesmo quando há Missa durante o dia, isso nunca interferiu com o Festival Portugal Montréal. Durante 13 anos, todas as atividades religiosas decorreram normalmente. Os funerais não acontecem à noite, que é quando o Festival realiza as suas atividades principais. Portanto, usar o “acesso religioso” como justificativa não corresponde ao que sempre aconteceu na prática.
Outro ponto importante deve ser esclarecido. O Padre Adam, por quem tenho muito respeito, não precisava de escalar esta situação para a Arquidiocese. Uma simples reunião entre a Missão, o Festival e os seus patrocinadores teria resolvido tudo de forma calma e respeitosa. O próprio comunicado reconhece que os mesmos patrocinadores que apoiam as atividades religiosas da Missão Santa Cruz também apoiam o Festival. Quando as mesmas pessoas apoiam ambos os lados, a escalada nunca deve ser o primeiro passo. O diálogo deve ser.
O Festival Portugal Montréal não é apenas um evento musical. É uma vitrine para artistas, escritores, pintores, músicos, Fado, Folclore e expressões culturais que representam a nossa identidade. Atrai famílias e jovens, algo de que a Missão Santa Cruz precisa urgentemente, especialmente numa altura em que menos pessoas frequentam a igreja e menos pessoas participam em eventos religiosos. Isto não é crítica; é a realidade em todo o mundo. Quero também esclarecer o meu envolvimento. Sou um dos principais patrocinadores de quase todas as atividades religiosas da Missão Santa Cruz e sempre apoiei a Missão sempre que foi necessário. Muitos dos patrocinadores do Festival são os mesmos que apoiam as atividades da igreja. O nosso objetivo sempre foi fortalecer a comunidade, não dividi‑la. É por isso que a união é essencial. Muitas pessoas estão a afastar‑se, a participação está a diminuir, os jovens estão menos envolvidos e os nossos idosos estão a desaparecer. Se esperarmos demasiado, poderá ser tarde para recuperar a próxima geração. Precisamos de mudar hoje, não amanhã, não no próximo ano. Hoje. Em vez de criar situações que prejudicam a comunidade, devemos concentrar‑nos em evoluir. Devemos discutir como criar mais atividades, como utilizar melhor a escola para gerar receita e como incentivar mais pessoas a alugar os espaços da Missão Santa Cruz em vez de os ver vazios. Devemos perguntar por que razão tantos eventos estão a ser organizados noutros locais e o que podemos fazer para trazê‑los de volta à nossa comunidade. A Missão Santa Cruz precisa de novas ideias, modernização e uma visão que inclua religião, cultura e comunidade. O futuro não pode ser apenas religioso. Tem de ser também cultural e comunitário, para unir todas as gerações. Precisamos de união, visão e liderança, não de contradições e confusão. Precisamos de trabalhar juntos por um futuro mais forte para a Missão Santa Cruz e para a comunidade portuguesa de Montreal.
No meio de tantas palavras, opiniões e divergências, há algo que não podemos esquecer: a Missão Santa Cruz é muito maior do que qualquer conflito, qualquer desacordo ou qualquer pessoa. É um lugar de fé, mas também de memórias, de sacrifícios, de lágrimas e de alegrias. É o lugar onde muitos de nós fomos batizados, onde os nossos filhos receberam os primeiros sacramentos, onde celebrámos casamentos e onde nos despedimos daqueles que partiram. Faz parte da história de milhares de famílias portuguesas que encontraram em Montreal um novo lar, sem nunca esquecer as suas raízes.
É por isso que esta situação me entristece. Custa ver uma instituição que tanto significa para a nossa comunidade envolvida em divergências que podem criar feridas difíceis de sarar. Não se trata de procurar culpados, alimentar polémicas ou escolher lados. Trata-se de perceber que, quando a união se perde, todos acabamos por perder alguma coisa. Respeito o trabalho voluntário de quem dedica o seu tempo à Missão, reconheço o esforço daqueles que promovem a cultura portuguesa e admiro todos os que, ao longo dos anos, contribuíram para manter viva esta casa que é de tantos. Mas acredito que o respeito deve caminhar lado a lado com o diálogo, a transparência e a capacidade de ouvir quem pensa de maneira diferente.
Uma comunidade não se constrói com portas fechadas, palavras duras ou posições inflexíveis. Constrói-se com mãos estendidas, corações disponíveis e a vontade sincera de encontrar um caminho comum. Ainda vamos a tempo de transformar este momento difícil numa oportunidade para refletir, corrigir o que for necessário e construir pontes onde hoje existem divisões. Que o Padre Adam, o Conselho de Administração, os representantes do Festival e todos os envolvidos encontrem a serenidade necessária para se sentarem à mesma mesa, conversarem com respeito e colocarem o bem da comunidade acima de qualquer interesse particular. Porque, no fim, o que ficará não será o valor de um aluguer, o número de comentários nas redes sociais ou quem teve a última palavra. O que ficará será a forma como cuidámos daquilo que recebemos das gerações anteriores e aquilo que deixaremos aos nossos filhos e netos.
A Santa Cruz não é apenas uma igreja: é uma herança de fé, identidade e amor à nossa comunidade. Não permitamos que as divergências de hoje apaguem tudo aquilo que tantas gerações construíram com esforço, sacrifício e esperança.
Que a razão dê lugar à compreensão, que o orgulho não seja maior do que o amor e que a vontade de vencer uma discussão nunca seja mais forte do que a vontade de salvar uma união.
Afinal, todos podemos ter opiniões diferentes, mas há algo que nos deve unir acima de tudo: o desejo de ver a Missão Santa Cruz viva, respeitada e de portas abertas para as gerações que ainda estão por vir.
Porque a verdadeira vitória não será de uma direção, de um padre, de um festival ou de qualquer pessoa. A verdadeira vitória será de toda a comunidade portuguesa de Montreal. E essa é uma vitória que vale a pena alcançar juntos.
