Hoje, em Portugal, vivemos num cenário fraturado onde se desenham duas realidades paralelas.
De um lado da linha, encontramos o dia a dia difícil dos cidadãos, marcado pelo sufoco financeiro, pela perda do poder de compra e pela angústia de não saber se o salário será suficiente para cobrir as despesas básicas do mês. Do outro lado, deparamo-nos com o ritmo exasperadamente lento dos gabinetes da política, falhando constantemente em resolver os problemas concretos e urgentes da população.
Esta distância entre eleitos e eleitores ganha contornos dramáticos quando a insatisfação transborda para a rua.
Os tumultos que se têm registado recentemente, com centenas de jovens a saírem em protesto às ruas de Lisboa e do Porto, não nasceram do nada. Eles começaram por pedir o mais básico e essencial para a dignidade humana, uma habitação digna a preços justos que consigam efetivamente pagar. Estes protestos, que também acontecem um pouco por toda a Europa, rapidamente ganham outras cores e propósitos com aproveitamento mediático.
Os partidos da oposição aproveitam a boleia e a energia destas manifestações espontâneas para desgastar e atacar quem governa, transformando o desespero social numa arma de arremesso puramente tática.
Para o cidadão comum que está de fora, assistir ao funcionamento da política institucional parece quase sempre um jogo confuso, repleto de regras invisíveis e de uma linguagem codificada de comentadores “a dar por um pau” que serve apenas para confundir ainda mais o povo. Mas a estabilidade de uma democracia resume-se a duas regras fundamentais, a estabilidade e a ordem.
O Estado tem o dever inalienável de garantir que todos se podem manifestar livremente, uma vez que o protesto é um pilar da liberdade, desde que o façam dentro dos limites estabelecidos e cumpram rigorosamente a lei. Se houver exageros ou violência de quem protesta, as forças de segurança têm de intervir para repor a normalidade, agindo sempre com equilíbrio e proporcionalidade.
Da mesma forma, se a própria polícia falhar na sua missão e cometer excessos, isso deve ser seriamente investigado pelas entidades competentes. O grande objetivo das instituições deve ser sempre manter o país a funcionar sem sobressaltos, protegendo tanto a voz dos descontentes, assim como a segurança da restante população.
Neste cenário de crise habitacional, os problemas graves que afetam a sociedade, os políticos deviam de uma vez por todas deixar as guerras ideológicas de lado e trabalhar juntos num pacto de regime.
Quando o país enfrenta uma tempestade que ameaça o futuro das novas gerações e destrói o orçamento de tantas famílias, esperar que um único partido resolva tudo sozinho é pouco prático e politicamente ingénuo.
O consenso alargado ajuda a que as soluções estruturais sobrevivam à alternância do poder, garantindo que as políticas de habitação continuem em vigor mesmo que o governo mude de cor política nas eleições seguintes.
Por outro lado, o Governo precisa de compreender a urgência do momento e dar respostas rápidas, tendo plena consciência de que este problema não é uma questão de mais leis. Muitas vezes, os cidadãos caem no erro de pensar que para resolver uma crise basta criar uma lei nova ou aprovar um novo pacote legislativo nas comissões parlamentares.
Contudo, na prática, o excesso de papelada, as teias regulamentares e a burocracia pesada só servem para atrasar os processos e asfixiar o cidadão.
O que realmente faz falta ao país não são mais leis, mas sim medidas reais e operacionais, como acelerar a construção de habitação, reabilitar os prédios públicos abandonados e pôr as ajudas financeiras a funcionar diretamente no bolso de quem precisa.
No fundo, esta crise habitacional e social mostra o grande desafio de liderança que se coloca à nossa classe política. A verdadeira governação não se pode fazer apenas com promessas de campanha eleitoral ou com discussões fechadas nas Comissões Parlamentares.
Enquanto os grandes partidos tentam encontrar um difícil meio-termo institucional e a polícia garante a segurança nas ruas, a pergunta do cidadão comum continua por responder nas esquinas das nossas cidades e vilas, ou seja, quando é que as soluções aparecem para aliviar o sufoco das famílias, dos jovens e das empresas?
O País Real
