Novo presidente da república tomou posse esta segunda-feira. António José Seguro dá assim uma chapada de luva branca naqueles que o torpedearam faz uma dezena de anos, e que continuaram a fazê-lo com sádico prazer nos anos seguintes. Até a sua candidatura foi acanhadamente recebida no seu PS, demonstrando os atritos latentes. Isso dará alguma luz ao espírito de Seguro para fazer algo que o país precise dentro das limitações do cargo de presidente? Pelas suas posições e declarações, não acredito. António José Seguro aparenta insistir nas posições socialistas que deveriam ser repensadas por serem um erro manifesto. A sua intenção é agora mostrar que afinal de contas era mesmo socialista, mais socialista do que os seus companheiros de ideal pensavam, na senda de uma segunda chapada de luva branca no vai e vem do braço. Mas é isto que o país precisa? Claramente não. Isto leva-nos a outro fantasma…
Passos Coelho embalou com os comentários, comentários estes que têm feito as delícias dos pobres órgãos de comunicação social, sequiosos por uma telenovela de vai e vem de recados entre políticos à falta da incompetência que têm. Desencantado com o atual PSD (e não é o único), Passos Coelho insiste e bem na necessidade de reformas, salientando a falta de espírito reformista do atual governo com o seu antigo líder de bancada, Luís Montenegro. Montenegro, mais levado pelo ego do que pela racionalidade, põe-se a jeito para alimentar a polémica e fragilizar a sua própria posição. A esquerda portuguesa, continuando de cabeça enterrada em dogmas plenamente obsoletos, perdida entre as brumas de paragonas ideológicas inventadas em grupos de estudo que vivem afastados da realidade do cidadão regular, patrocinados por bolsas e fundos estaduais – leia-se pago pelo contribuinte – exalta-se e assusta-se num amorfanhado de emoções irracionais, tresloucadas pela perda de lucidez com a realidade face à urbanidade da sua vivência e à subsidiodependência da sua atividade. A direita por seu lado, não compreende o que foi, não sabe o que é e nem é capaz de visionar o que deverá ser. A direita é como que um organismo coletivo demente, onde a falta de memória impede a compreensão do passado, a incapacidade de raciocínio bloqueia a compreensão do presente e o futuro simplesmente não existe. Entre aqueles que se incomodam pela acomodação ao poder e seus recursos, e a gritaria de outros que pretendem ser o que não são, a essência da mensagem de Passos Coelho perde-se. Já repararam que não se discute o tema das reformas, mas insiste-se na telenovela de rivalidade dentro do PSD, verdadeiro fait divers? Aplausos aos órgãos de comunicação social, pela absoluta incompetência e mediocridade com que se orientam. Temos assim dois fantasmas do passado, mas que remexem problemas do presente, que já o eram no passado. A sociedade portuguesa, em vez de se espantar com os vislumbres de fantasmas, talvez fosse de bom aviso atender às questões que a simples presença desses fantasmas manifesta. Talvez, talvez assim ganhasse consciência e finalmente a força de espírito para se concentrar no que é devido.