Na milenar cidade de Braga, onde as ruas antigas e sinuosas parecem guardar memórias de séculos e os sinos de tantas das suas igrejas desenham no ar a cadência do tempo, realizou-se o 15.º Congresso das Misericórdias Portuguesas, sob o inspirador mote “A atualidade de uma evolução segura”. Mais do que um encontro institucional, este congresso afirmou-se como um espaço de reflexão, partilha e renovação de compromissos, reunindo mais de sete centenas de participantes em torno de uma causa que atravessa gerações, que é a promoção da dignidade humana através da solidariedade.
A cidade de Braga, berço de história e de espiritualidade, acolheu este momento maior das Misericórdias Portuguesas com a nobreza própria de uma cidade que sabe conjugar tradição e modernidade. Nas suas ruas, onde o passado dialoga serenamente com o presente, encontraram-se homens e mulheres que diariamente dão rosto à missão das misericordiosas, conscientes dos desafios do nosso tempo, mas também das oportunidades que se abrem para o futuro do setor social.
O congresso constituiu um momento privilegiado para pensar a identidade das Misericórdias e o papel insubstituível que desempenham na sociedade portuguesa. Num contexto marcado por profundas transformações demográficas, económicas e sociais, as intervenções apontaram caminhos para uma evolução sustentada, capaz de preservar os valores fundadores destas instituições enquanto responde, com criatividade e responsabilidade, às novas necessidades das comunidades.
A presença do Presidente da República conferiu especial significado a este encontro. O seu testemunho destacou a importância das Misericórdias na construção de uma sociedade mais coesa, mais justa e mais humana. A sua participação simbolizou também o respeito que Portugal nutre por estas instituições multisseculares, cuja ação discreta, mas profundamente transformadora, continua a chegar onde muitas vezes mais ninguém chega. Mas este congresso foi igualmente marcado pela celebração de uma data de relevância, ou seja, os cinquenta anos da União das Misericórdias Portuguesas. Meio século de dedicação, representação e serviço em prol das Santas Casas, consolidando uma voz comum e fortalecendo a capacidade de resposta de um setor que constitui uma verdadeira âncora da solidariedade em Portugal.
Ao longo destas cinco décadas, a União das Misericórdias Portuguesas tem sido muito mais do que uma estrutura de coordenação, tem sido um espaço de encontro, de defesa de princípios, de promoção de boas práticas e de construção de pontes entre instituições que, espalhadas por todo o território nacional, partilham a mesma vocação de servir. Celebrar este percurso foi reconhecer o trabalho de gerações de dirigentes, colaboradores e voluntários que contribuíram para fortalecer uma das mais importantes redes sociais do país.
Entre os momentos mais marcantes do congresso destacou-se a Oração de Sapiência, proferida pelo psicólogo, professor universitário e palestrante motivacional Jorge Sequeira. Com a sua reconhecida capacidade de comunicar, surpreendeu os congressistas desde os primeiros instantes, conduzindo-os por uma viagem de histórias, experiências e reflexões sobre a superação, a liderança e a força dos sonhos.
Num registo simultaneamente inspirador e profundamente humano, Jorge Sequeira conseguiu prender a atenção de todos os presentes, transformando a palavra num instrumento de emoção e de mobilização. As suas narrativas, carregadas de significado, despertaram sorrisos, momentos de introspeção e até alguma lágrima discreta de quem se reconheceu nas mensagens transmitidas.
O ponto alto surgiu quando, rompendo as fronteiras entre orador e audiência, convidou os congressistas a partilharem um momento de comunhão inesperada. Ao som de “Encosta-te a Mim”, de Jorge Palma, a sala ergueu-se numa impressionante manifestação de unidade. Vozes de diferentes regiões do país juntaram-se num só coro, enquanto uma coreografia simples, mas carregada de simbolismo, envolvia todos os participantes.
Foi um instante raro, daqueles que permanecem para além das atas e dos relatórios. Um momento em que a emoção se tornou linguagem comum e em que a essência das Misericórdias, a proximidade, a fraternidade e o cuidado pelo outro, ganhou forma visível. Naquele canto coletivo, ecoou a certeza de que a solidariedade continua a ser uma das mais belas expressões da condição humana.
Os portugueses levaram as Misericórdias para os quatro cantos do Mundo, onde permanecem os valores das obras de Misericórdia e no congresso ouviram-se as vozes daqueles que persistem em manter os caminhos sonhados pela Rainha Dona Leonor e de Macau, do Brasil e de S. Tomé e Príncipe ecoaram os testemunhos emocionados dos que vieram partilhar as suas vivências tão semelhantes às nossas.
O cortejo processional das Irmandades pelas ruas de Braga, antecedeu o pontifical na Sé cuja cerimónia religiosa foi animada pelo coral da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa do Lanhoso que brindou os congressistas com uma celebração de elevação espiritual de grande sem paralelo nos congressos da União das Misericórdias Portuguesas.
Assim, o 15.º Congresso das Misericórdias ficará na memória como um encontro de reflexão e de esperança, de celebração e de compromisso. Em Braga, cidade de raízes fundas e horizontes amplos, reafirmou-se a convicção de que as Misericórdias, fiéis à sua história e abertas ao futuro, continuarão a ser faróis de humanidade, iluminando desde há cinco séculos os caminhos de serviço e de fraternidade para as gerações vindouras.
Na milenar cidade de Braga
