Do Sonho à Vitória


Do sonho à vitória, após inúmeras tentativas, o Torreense finalmente chegou à Taça de Portugal no passado dia de 24 de maio. Foi um percurso fantástico que não deixou ninguém indiferente. Mas afinal, quem é o SCUT? Ouvi essa pergunta várias vezes nos últimos dois meses, pelas festas e associações portuguesas que frequentei. Para quem não sabe, o Torreense é uma equipa centenária sediada em Torres Vedras, com uma história repleta de aventuras, sendo uma das equipas mais tradicionais do futebol português.


O Sport União Torreense (SUT), como se chamava inicialmente, nasceu a 1 de maio de 1917, fundado por um grupo de jovens apaixonados pelo futebol, modalidade que chegou a Torres Vedras através de trabalhadores ingleses ligados à indústria petrolífera. Embora o concelho pertença ao distrito de Lisboa, o clube começou por competir na Associação de Futebol de Leiria, onde conquistou 10 títulos distritais, antes de se filiar na Associação de Futebol de Lisboa. A subida à 1.ª Divisão Nacional aconteceu em 1955, após a conquista do título da II Divisão. No ano seguinte, o Torreense disputou pela primeira vez a final da Taça de Portugal, no Estádio Nacional do Jamor, frente ao FC Porto. Apesar da derrota, o clube soma seis participações no principal escalão do futebol português. Ao longo da sua história, o Torreense revelou inúmeros talentos, destacando-se João Bernardes, o primeiro jogador formado no clube a representar a Seleção Nacional, em 1960, Filipe Ramos, campeão do mundo de Sub-20 em 1989 e posteriormente jogador do Sporting CP, e Nélson Pereira, natural de Torres Vedras, de quem me orgulho profundamente por fazer parte da minha família, sendo um dos grandes nomes que honraram as cores do clube.

De Torres Vedras para o Mundo
A ligação de Nélson Pereira ao Torreense começou em 1985, quando entrou para a formação com apenas 10 anos. Sonhava marcar golos, mas a ausência de um colega num treino levou-o, por acaso, para a baliza. Foi aí que descobriu o talento que mudaria a sua vida. Depois de completar toda a formação no clube, estreou-se pela equipa principal em 1995. Na época de 1996/97 afirmou-se como titular indiscutível, realizando 41 jogos e sendo uma das peças fundamentais na subida do Torreense de divisão. As suas exibições rapidamente despertaram o interesse dos maiores clubes portugueses. Em 1997 assinou pelo Sporting, onde permaneceu durante nove temporadas. Conquistou dois Campeonatos Nacionais, uma Taça de Portugal e duas Supertaças, partilhando balneário com grandes figuras do futebol, como Peter Schmeichel, e chegando mesmo a envergar a braçadeira de capitão.
Em 2002, atingiu o ponto mais alto da carreira ao ser convocado por António Oliveira para representar Portugal no Mundial da Coreia do Sul e do Japão. A história de Nélson Pereira é a prova de que o destino no futebol não está escrito logo à partida. Curiosamente, quando era miúdo, muitos chegaram a pensar que ele seria demasiado pequeno para fazer carreira no futebol — até porque, na nossa família em geral, as pessoas são mais baixas. O tempo, no entanto, acabou por contrariar todas as expectativas e a genética da família: Nélson cresceu, atingiu uns impressionantes 1,87 m de altura e transformou-se num gigante da baliza portuguesa, deixando orgulhosa a nossa terra natal.

Torres Vedras Terra de Rainhas
Torres Vedras e o Sport Clube União Torreense têm uma ligação muito forte, onde a história da cidade e o amor pelo futebol se juntam. O concelho fica no Oeste de Portugal e tem uma história riquíssima. No século XII, as terras foram conquistadas pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques. Foi também em Torres Vedras que o rei D. João I reuniu o seu conselho para planear a expansão de Portugal pelo mar. Diz-se também que Torres Vedras é a “Terra de Rainhas”, porque a vila fez parte, durante séculos, dos bens pessoais das Rainhas de Portugal. Mas o momento histórico mais famoso aconteceu há cerca de duzentos anos. Para defender o país dos exércitos franceses de Napoleão, a população ajudou a construir as chamadas Linhas de Torres Vedras. Estas fortalezas conseguiram travar os invasores e salvaram o país. É dessa mesma terra cheia de força que nasce o Carnaval mais famoso e tradicional de Portugal, mas é no futebol que o orgulho da cidade se mostra com mais paixão. O Torreense é o grande clube da minha terra.

No seu estádio, o Manuel Marques, os adeptos vestem-se de azul e grená para apoiar a equipa, que ficou conhecida por conseguir vencer os clubes maiores e mais ricos. E foi essa união que valeu ao SCUT a conquista da Taça de Portugal este ano. A festa nas ruas mostrou que os torreenses continuam a ter o mesmo espírito corajoso do passado, agora a brilhar nos campos de futebol. Ao ponto de contrariar muitos prognósticos e conhecedores do futebol, no fundo do meu coração torreense, espero que no próximo sábado, dia 1 de agosto, as cores do Torreense voltem a brilhar intensamente e que a equipa vença o jogo contra o FC Porto.
Referências

  • gloriasdopassado.blogspot.com/2010/02/sport-clube-uniao-torreense.html
  • Sport Clube União Torreense – Wikipédia, a enciclopédia livre
  • O Torreense no Campeonato do distrito de Leiria – Curiosidades sobre o Torreense
  • Museu Torreense no Facebook.
  • Gala do Centenário do Torreense | Associação de Futebol de Leiria.