O inventor de Portugal foi um “Luís Neves”

“É muito difícil dar a
entender o que é Portugal
O inventor de Portugal foi um português…”,
O Inventor, Heróis do Mar, 1987
Quando penso no caso Luís Neves, da piscina que não o é porque é tanque mas transformou-se, do atrelado que desaparece mas afinal não porque um amigo coisa e tal, mais uns produtos cuja guarda ou destruição é uma fortuna mas um amigo coisa e tal, uns pagamentos que paguei mas afinal foi a minha esposa ou não ou foi em dinheiro e recibos ou faturas nada, imediatamente me vem à mente esta parte inicial da música dos saudosos Heróis do Mar. Acentuou-se a presença deste trecho musical com a exposição do ministro Luís Neves sobe os factos, pretendendo esclarecer que quase nada esclareceu.
Não me vou debater sobre os factos, as questões legais, judiciais ou até pessoais sobre esta novela. Irei mais fundo.
Apelarei à generosidade do amigo leitor para me seguir neste pensamento e que obviamente elabore os seus face a esta exposição. Ir mais fundo significa pegar em algo que o ministro Luís Neves deixou entendido ao longo da sua exposição:

  1. A esperteza vale tudo. De tudo o que se faz não interessa o como, com quem ou em que circunstâncias. Se o que se faz serve para um fim agradável à perceção cultural de atuação na função ou cargo, através de poupança de dinheiros, “desvios” na fronteira da legalidade, independentemente da ética, compadrios e facilitismos trocados por “jeitos”, nada disso interessa.
  2. Se não é ilegal, logo é permitido. A base moral de atuação de um individuo limita-se unicamente quando existe regra explícita ou o fiscal está por perto. Caso contrário, tudo é permitido.
    Da mesma forma que só entrego a minha declaração de rendimentos se me for pedido, ainda que esteja obrigado a isso (e sei disso!), nada farei até efetivamente me pedirem pois sei que eles demorarão por falta de recursos, e talvez escape.
    Poderemos assim extrapolar por exemplo para o trânsito, onde só respeitarei as regras de circulação rodoviária se a autoridade me pedir para as respeitar por carta registada…
  3. Orgulho, orgulho, orgulho. A inesgotável fonte de orgulho em ser menos míope em terra de míopes.
    Não se procura elevados padrões de comportamento, de resultados, ou de visão. Tudo gira em torno do “passar a perna”, usando a esperteza referida em 1, provincianismo no seu melhor, em que se sobressai no burgo mas nada se é em termos de substância.
    Estes pontos juntos implicam algo extremamente preocupante: refletem a sociedade portuguesa! Todos os “Luíses Neves” sabem isto e glorificam este modo de ser, de estar e de viver. Todos o exercem e todos se orgulham disto.
    E o único arrependimento que têm é de não fazerem igual ou algo mais forte.
    Esta é a tragédia cultural do país que se reflete por tudo que emana deste regime que berra por uma reforma profunda, mas que não encontra bases culturais na sua própria sociedade para o transformação necessária.