Mais do que uma festa: A Festa das Mulheres uma lição de coragem feminina


Quero agradecer à Francisca Reis pela festa que nos proporcionou no passado sábado, dia 7 de março de 2026, no Clube Oriental de Montréal.
Todos — ou pelo menos a maioria dos que gostam de escrever — precisam de um gatilho para que a inspiração comande o que escrevem. Comigo não é diferente: um momento especial, um sorriso, uma palavra ou uma atitude despertam em mim essa vontade de escrever, e não consigo calar-me.
Foi exatamente isso que me aconteceu no sábado e que quero, desde já, partilhar convosco.
“A festa do Dia da Mulher existe para libertar, para permitir que cada mulher se sinta solta das suas amarras — dos seus gestos, das suas decisões e, sobretudo, do julgamento alheio.” Foi este o tema que me despertou a vontade de partilhar com as mulheres presentes e também de alcançar, através deste artigo, aquelas que estiveram ausentes, com um poema de Florbela Espanca que data de 1920, numa época em que se exigia da mulher um comportamento irrepreensível, pois sobre ela recaía o peso do exemplo.


Tenho o santo horror da frieza calculada da boa educação, do prudente juízo duma mulher. Aos homens pertence tudo isso, e a mulher deve ser muito feminina, muito espontânea, muito cheia de pequeninos nadas que encantem e que embalem. Meu amigo, se esperas ter uma mulher sem areia nenhuma, morres de aborrecimento e de frio ao pé dela, e não será com certeza ao pé de mim… Comigo hás de ter sempre que pensar e que fazer. Hás de rir das minhas tolices… hás de ralhar quando elas passarem a disparates e hás de gostar mais de mim assim…”, Florbela Espanca, Correspondência, 1920.
Na festa organizada por Francisca Reis, tornou-se evidente a importância de a mulher se sentir livre — desta vez, não das amarras sociais, mas das limitações físicas. Num espaço onde a liberdade feminina e as suas escolhas são valorizadas, vi pelo menos três senhoras que esqueceram as suas limitações físicas para dançar ao som de danças modernas em linha, tendo como parceiras as suas bengalas ou andarilhos.
Que maravilha!


Que lição nos deram a todas nós, certamente mais novas, que permanecemos agarradas às cadeiras com receio de não acertar os passos ou a coreografia.
Para aquelas mulheres, o poema que lhes li — cuja autoria desconheço, mas que traduzi para português, por ter gostado profundamente da mensagem — chegou-me através da voz da cantora cubana Juana Isabel Zamora. E diz assim:


Que falem de mim, que inventem mil razões; não estavam comigo quando o mundo me deixava sem soluções.
Que falem de mim, pois não vou esconder: se hoje celebro a vida, não pensem que me vão deter.
Vivi no silêncio, aprendi a sobreviver, e agora que caminho erguida, há quem não me queira ver.
Trago comigo as marcas do caminho, os defeitos que a vida traz, mas cada passo que dei sozinha me fez mais forte do que alguma vez pensei ser capaz.

Voltando às três mulheres que dançaram apoiadas nos seus auxiliares de mobilidade, não posso deixar de expressar o meu encantamento pela força e pela coragem delas. Embora a presença desses apoios alterasse a estética da pista de dança, a lição que nos deram foi extraordinária: souberam ignorar eventuais comentários e fizeram simplesmente aquilo de que gostam. Esse foi, sem dúvida, o ponto alto da nossa festa.
Afinal, as mulheres já conseguiram romper o casulo onde se encontravam nos anos 1920 — quando tinham de “parecer” — para ocupar, em 2026, o espaço que lhes pertence: o de fazerem o que gostam, sem precisarem da bênção ou da aprovação de ninguém.
Parabéns a estas senhoras e a todas as que se libertaram da ideia do “parecer mal”, para fazerem aquilo que realmente lhes dá prazer — neste caso, dançar como podem, no meio de uma pista cheia de jovens empenhadas em acertar a coreografia. Parabéns por permitirem a inclusão das que se querem divertir à sua maneira.


Não poderia terminar este artigo sem destacar o excelente jantar preparado pelo nosso chefe Henrique Laranjo, assim como a seleção musical do DJ Machado e do duo Marley e Sérgio. Sem esquecer Fátima Miguel e Mike Amaral que foram as surpresas da noite e que cantaram muitíssimo bem.
Quero também felicitar as senhoras reconhecidas este ano foi para Maria de Lurdes Costa e Jordelina Benfeito. Mas no final da noite o chefe Henrique Laranjo e Gloria Sousa fizeram a Francisca Reis uma linda homenagem por tudo o que ela fez e dedicou-se para a nossa comunidade durante muitos anos.
E, por fim, parabéns à Francisca pela magnífica festa que organizou.

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