A despedida de Marcelo


Há despedidas que são meros rituais institucionais e há despedidas que marcam o fim de um estilo, de uma presença, quase de uma época. Com a saída de Marcelo Rebelo de Sousa da Presidência da República termina um capítulo singular da democracia portuguesa, o de um Presidente que transformou a proximidade com os cidadãos numa marca política e humana dificilmente repetível.
Desde o primeiro dia, Marcelo não foi um chefe de Estado distante, foi, antes de tudo, o “Presidente dos afetos”. Um título que, longe de ser mero slogan mediático, se tornou numa prática diária. Em praias, feiras, escolas, hospitais ou ruas de pequenas ou grandes freguesias, vilas ou cidades, multiplicaram-se os abraços, as selfies e as conversas espontâneas. Para muitos portugueses, o Presidente deixou de ser uma figura abstrata para passar a ser alguém quase familiar.
Essa empatia tinha raízes profundas, pois Marcelo Rebelo de Sousa é, antes de tudo, um humanista. Católico assumido, sempre procurou conciliar o pensamento com a ação. Antes de chegar a Belém, já tinha sido professor catedrático, jurista respeitado e comentador político. Durante décadas explicou o país a si próprio, com aquela mistura peculiar de erudição e simplicidade que o tornava simultaneamente académico e popular.
Na Presidência, manteve esse estilo. Falava com chefes de Estado e com pescadores com a mesma naturalidade. Usava linguagem acessível sem cair na banalidade. Não havia sobranceria no modo como abordava as pessoas, fossem elas líderes internacionais ou cidadãos anónimos.
Internacionalmente, ganhou um respeito raro para um país de média dimensão. A sua capacidade de comunicação, o domínio de línguas e o conhecimento profundo da política europeia tornaram-no uma figura escutada e valorizada. Nas cimeiras e encontros diplomáticos, Marcelo surgia sempre com aquela energia quase inesgotável, capaz de transformar formalidade em diálogo.
Mas nenhuma presidência está imune a contradições ou momentos difíceis. O seu mandato conheceu um revés significativo com o caso das gémeas brasileiras, um episódio que levantou dúvidas, alimentou polémicas e colocou o Presidente sob escrutínio público particularmente intenso. A política, mesmo quando exercida com boas intenções, raramente escapa às tempestades.
Ainda assim, a história tende a pesar mais os traços estruturais do que os episódios isolados. E, nesse balanço mais amplo, a presidência de Marcelo ficará associada a uma forma muito particular de exercer o cargo, ou seja, conciliou a política com a proximidade popular.
Foi um Presidente que gostava de estar na rua, que se deixava fotografar, que respondia a perguntas improvisadas e que parecia sentir-se mais confortável no meio de multidões do que nos corredores do poder. Muitos viram nisso uma estratégia de comunicação. Outros reconheceram simplesmente uma expressão autêntica da sua personalidade.
Talvez ambas as coisas sejam verdadeiras. Marcelo sempre foi um político profundamente consciente do tempo mediático, da importância da imagem e do ritmo da comunicação contemporânea. Mas também sempre foi, indiscutivelmente, alguém que gosta de pessoas, de conversar, de ouvir, de tocar, de rir.
Essa combinação produziu um fenómeno político deveras singular. Num tempo em que tantas democracias enfrentam distanciamento entre governantes e governados, Portugal teve durante anos um Presidente que parecia reduzir essa distância quase a zero.
Naturalmente, haverá debates sobre se essa proximidade excessiva diluiu a solenidade do cargo ou, pelo contrário, revitalizou a própria ideia da institucionalização da figura presidencial. A história responderá com maior serenidade do que o comentário imediato.
O que parece certo é que o estilo de Marcelo Rebelo de Sousa será difícil de replicar. Não apenas por causa da sua energia pessoal quase inesgotável, mas também pela combinação rara de académico brilhante, comunicador nato e político profundamente intuitivo.
Entre aplausos e críticas, como acontece com todas as figuras públicas relevantes, ficará a imagem de um Presidente que marcou a sua época. Um Presidente que tentou aproximar a República dos cidadãos.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *