A freguesia estava vestida de vermelho, entre coroas de prata e bandeiras beijadas pelo vento, chegou o tempo do Espírito Santo. Havia panelas a fumegar em bundância, mesas compridas como promessas, vozes felizes a derramar-se pelas ruas, e o cheiro da massa sovada a sair quente dos fornos, como se o céu tivesse aprendido o perfume do pão.
Parecia haver pão para todos.
Ou, pelo menos, parecia.
Havia numa das ruas uma menina que nos olhos trazia condensada a tristeza quieta das crianças que aprenderam cedo demais a fazer silêncio à fome.
O pai desapareceu muito novo no mar.
A mãe partira atrás da tristeza.
Era a avó a guardiã e o pai e a mãe daquela menina. Naquele domingo de coroação, enquanto os sinos enchiam o ar e as filarmónicas vestiam de música as ruas, a menina só queria uma coisa:
uma fatia de massa.
Só isso.
Não lhe lembravam as coroas, os vestidos vestidos novos, a música própria da festa…
Apenas uma fatia de massa morna, dourada como um pedaço de sol, macia como um abraço que nunca chegara.
Ela esperou e esperou que chegasse o momento da festa de comer uma coisinha de massa.
Esperou tanto que o dia começou a cansar-se.
Até que ouviram:
- Já acabou.
A avó ainda perguntou baixinho: - Nem um bocadinho para a menina?
Mas a fartura, às vezes, tem portas fechadas.
A menina não chorou.
E foi isso que fez o mundo doer mais.
Porque há silêncios nas crianças que pesam mais do que lágrimas.
No caminho para casa, junto ao muro do adro, ela viu-a: uma fatia de massa caída no chão, pisada, esquecida, como tantas coisas pobres.
Pegou nela devagar, sacudiu-lhe o pó com o cuidado de quem salva um tesouro.
E sorriu: - Avó… ainda dá.
Nesse instante, até o céu pareceu baixar os olhos.
Um homem do Império, que tudo vira, aproximou-se em lágrimas.
Pouco depois voltou com pão, sopa, carne, rosquilhas e uma massa inteira ainda morna.
Ajoelhou-se diante dela: - Perdoa-nos… o Espírito Santo não quer que ninguém passe fome…
A menina olhou para tudo o que o senhor lhe tinha trazido e para a fatia de massa que tinha resgatado do chão…
E perguntou: - Posso guardar esta também?
Há outra menina junto à ponte…
E foi então que o Espírito Santo aconteceu.
Não nas coroas brilhantes.
Nem na abundância das mesas.
Mas no coração pequenino de uma menina com fome que, tendo tão pouco, ainda aprendera a repartir com outra menina.
