- Educação deficiente. O Ocidente beneficiou da produção moral e filosófica de vários quadrantes, de várias civilizações, com todos os seus sucessos e insucessos. Soube incorporar também o conhecimento científico que desenvolveu mas que também recebeu de outras partes do mundo com que se foi relacionando. As diversas fases passaram, desde o desmoronamento de civilizações, a idade das trevas que reconduziu os seres à simplicidade da vida do campo, o domínio da religião católica sobre os indivíduos que por si mesmos se sentiram na necessidade de libertar de dogmas sem fundamento que limitavam ou violavam as suas consciências e a necessidade de progresso, conduzindo ao iluminismo e ao crescimento da ciência renovada nos seus fundamentos.
O progresso no conforto material – sim, houve bastante progresso apesar da mentira de algumas correntes políticas – instalou na mente dos seres humanos a crença absoluta na ciência material, esquecendo a ciência da mente, do sentimento e do espírito (não relacionado necessariamente com religião).
Vemos pela evolução dos séculos o desequilíbrio das disciplinas impostas aos estudantes: da maioria centrada em dogmas religiosos nos séculos anteriores, temos hoje praticamente a inexistência de uma única disciplina que desperte o interesse dos nossos jovens pelo Ser enquanto binómio corpo e espírito, mente e sentimento. A religião, que se apresta mais à sua vida material do que espiritual, poderia ter concorrido na consolidação de valores morais.
Mas faliu.
E não só no Ocidente.
A filosofia, disciplina que pretendia ligar valores morais ao pragmatismo necessário à existência material, foi se degradando num positivismo feroz e num ceticismo estéril. À dúvida do ceticismo clássico, que aceitava a existência da dúvida enquanto necessária à evolução do pensamento, cedeu-se lugar a um extremismo da dúvida de Descartes que não compreendia que nunca se chegasse a uma verdade absoluta sem colocar tudo sempre em causa.
Assim, situava-se constantemente entre a dúvida estéril e a verdade absoluta; sendo esta de difícil alcance, pois presumiria um estatuto de quase perfeição do ser humano, resta a estéril e improdutiva dúvida.
Voltando à educação, nossos jovens são ensinados a decorar conceitos, fórmulas, práticas, protocolos, métodos, ferramentas, autores, datas e muito mais, mas nunca o balizamento da sua aplicabilidade no seio da sociedade.
A evolução tecnológica e o alcance da mesma, principalmente depois da covid-19 que abalou a fragilidade de muitos indivíduos, colocou à luz do dia a deficiência de educação ao longo dos últimos séculos com todos os erros correspondentes. - Orgulho desenfreado. À enorme fragilidade dos indivíduos corresponde um enorme orgulho, expresso por arrogância, despotismo, intolerância e violência. Associado à ignorância e aos media sociais, que alimentam financeiramente pelos cliques multidões de comunicadores vazios de essência, o fogo da ignorância e do orgulho espalha-se como um incêndio em floresta seca e ventosa. As respostas estéreis sucedem-se: limitem-se os media sociais; limitem-se os teores dos comunicadores.
De proibição em proibição, alimentam apenas um incêndio incontrolável. Mas nunca se fala no problema básico.
Nunca se assume que as verdadeiras causas implicarão reformas que apenas produzirão resultados a médio ou longo prazo. Mas tudo gira na linha temporal política – curta por natureza pelos ciclos eleitorais – mas desfasada da realidade do ser humano.
Os erros que os comunicadores vazios trazem a lume nenhuma utilidade têm para além de incendiar as consciências perdidas e aflitas.
Aliás, estes comunicadores não querem outra coisa pois os cliques aumentam tanto quanto mais leviana e sensacionalista for a mensagem e o mensageiro. - Perversão de valores.
O Humanidade construiu sociedades baseadas em valores.
O conforto material fruto do progresso científico desvirtuou o Homem que perdeu a noção da sua posição na Natureza, animalizando-se na procura da riqueza material para satisfação dos seus prazeres efémeros.
Os valores são esquecidos, ou pior, desvirtuados para que sejam destruídos. Um exemplo simples é a empatia. Um autor canadiano, aqui das nossas universidades, Gad Saad, publicou o livro “Suicidal Empathy” (tradução livre: “empatia suicida”). O título, que se está a tornar em dogma em certos círculos políticos, é por si só extremamente perigoso. E porquê? Porque sendo sensacionalista, curto e simples de entender, portanto facilmente transformável em slogan ou divisa, sumariza a destruição de um conceito que vem desde o antigamente com outra definição. As originais sympatheia e misericordia , em similaridade com compaixão, não estão longe dos conceitos cristãos que a sociedade e comunidade portuguesas conhecem da sua cultura. E são preexistentes a estes. Os estoicos assinalaram que o controlo da razão ainda assim se impunha, pois perder o controlo emocional, tão apreciado pelos estoicos, pressupunha que passaríamos a fazer parte do problema e não da solução. A empatia, que deveria vir associada a compaixão, deveria ser desenvolvida e não destruída. Não se cura um doente destruindo o que ainda é bom pelo mal adjacente. Certamente não se dá “pérolas a porcos”, mas também não se oferece a frieza, vira-se as costas ao sofrimento ou pior, intensifica-se o sofrimento pela perseguição egoísta de objetivos que claramente prejudicarão aqueles que estão em dificuldades. O chamado “cherry picking” em inglês, traduzindo – escolha seletiva – de métricas, estudos e conceitos que se adaptam à nossa narrativa, muitas vezes em incoerência evidente com o que defendem, traduz a deslealdade de tantos e tantos autores, narradores, comentadores, propagandistas que são. Infelizmente encontram campo fértil nas mentes desprotegidas e impreparadas da sociedade em geral.
Face aos erros há que corrigir. E depressa, mas sem esperar resultados para ontem; e bem, com a flexibilidade e humildade necessárias para ajustar as ações em função dos resultados, das circunstâncias e dos alvos.
