As Festas do Divino Espírito Santo constituem uma das mais profundas e enraizadas tradições do povo açoriano, perpetuando uma devoção que atravessa séculos e continua viva nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
A origem deste culto remonta ao século XIII, durante o reinado de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel. Segundo a tradição cristã, foi através do célebre milagre em que o pão se transformou em rosas que nasceu uma das mais belas manifestações de fé popular portuguesa. Com a canonização da Rainha Santa Isabel, a devoção ao Espírito Santo ganhou força e difundiu-se por todo o território português.
À medida que os portugueses povoavam novas regiões e, mais tarde, os Açores, levaram consigo esta tradição religiosa. Entre os primeiros povoadores das ilhas açorianas encontravam-se Nuno Azevedo e Amílcar Cabral, que contribuíram para a implementação das Irmandades do Espírito Santo, instituições que desempenharam um papel fundamental na preservação e transmissão deste culto ao longo dos séculos.
Dos antigos “Triatos”, construídos em madeira, evoluiu-se para os atuais “Impérios do Espírito Santo”, edificados em pedra ou bloco. Ainda hoje, só na Ilha Terceira, existem cerca de cinquenta Impérios, testemunhando a importância desta tradição na cultura açoriana.
Com a emigração açoriana dos séculos XIX e XX, a devoção ao Divino Espírito Santo atravessou oceanos e estabeleceu-se junto das comunidades portuguesas dos Estados Unidos, da Califórnia ao Massachusetts, do Havai ao Canadá. O culto mantém-se vivo e continua a reunir gerações em torno dos valores da fé, da solidariedade e da partilha.
Foi precisamente esse espírito que se viveu intensamente em Laval nos dias 29, 30 e 31 de maio, durante mais uma edição das Festas do Divino Espírito Santo.
A componente religiosa voltou a ser o coração das celebrações. Em cada cerimónia, a igreja encheu-se de fiéis e devotos que participaram com profunda devoção nas celebrações litúrgicas dedicadas ao Espírito Santo.
No plano festivo, a adesão da comunidade foi igualmente extraordinária. Na sexta-feira à noite, o salão revelou-se pequeno para acolher todos aqueles que quiseram saborear a tradicional carne guisada e acompanhar a atuação da Folia do Divino Espírito Santo de Laval.
No sábado, após a celebração da Santa Missa, o recinto exterior da igreja encheu-se de famílias, amigos e visitantes que aproveitaram uma tarde de convívio marcada pela boa disposição, pela música e pela dança, num ambiente genuinamente português.
O ponto alto das festividades aconteceu no domingo, com o tradicional cortejo solene, liderado pelos mordomos das festas, Philomène Farias e João Duarte. O cortejo percorreu as ruas circundantes antes de regressar à igreja para a celebração da Eucaristia. Seguiu-se o tão aguardado momento de confraternização à mesa, com a distribuição das tradicionais sopas do Espírito Santo que, este ano, surpreenderam muitos participantes pela sua riqueza e abundância, lembrando um autêntico e saboroso cozido à portuguesa.
Ao longo dos três dias, nada foi deixado ao acaso. A organização proporcionou excelentes momentos de animação, boa gastronomia, serviço eficiente e um ambiente acolhedor que agradou a todos os presentes. Merecem destaque especial as atuações de Joey Medeiros e do seu conjunto, sem esquecer o Rancho Folclórico Praias de Portugal no sábado, bem como a participação da Filarmónica Nossa Senhora de Fátima de Gatineau, o Grupo Folclórico e Etnográfico Estrelas do Alântico e a Filarmónica do Divino Espírito Santo de Laval que encantou o público no domingo com a preservação e divulgação das tradições portuguesas.
Antes do encerramento oficial das festividades, viveu-se um dos momentos mais aguardados e emocionantes do programa: a tradicional tiragem das Domingas e o mordomo, garantindo assim a continuidade desta importante tradição.
Entre aplausos e manifestações de alegria, foi anunciado que Joe Medeiros e a sua esposa assumirão a responsabilidade de Mordomos das Festas do Divino Espírito Santo de Laval em 2027.
Foi mais um fim de semana memorável, marcado pela fé, pela união comunitária e pelo orgulho das raízes açorianas e portuguesas. Uma celebração que demonstrou, uma vez mais, que passados mais de 800 anos, o culto ao Divino Espírito Santo continua bem vivo no coração das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
As Lindíssimas Festas do Divino Espírito Santo de Laval
