O presidente da república, assim como o primeiro ministro português, apelaram ao regresso dos emigrantes a Portugal.
No âmbito das comemorações do dia de Portugal na próxima quarta-feira 10 de junho, em visita ao Luxemburgo, país onde existe uma enorme proporção de portugueses e lusodescendentes que prosperam como nunca o conseguiriam em Portugal, António Seguro e Luís Montenegro fazem este apelo que se não fosse atrativo à alma lusitana apegada ao saudosismo, seria ridículo.
E porquê?
Porque mostra uma incompreensão, ou pelo menos omissão, das causas que levaram tantos portugueses a emigrar.
Paradoxalmente os portugueses emigraram, e bem, para países em que a economia era mais liberal e por conseguinte mais propícia à criação e desenvolvimento de oportunidades.
Quantos portugueses, aqui no Canadá e em outros países, começaram em empregos bastante humildes nas comunidades de acolhimento estrangeiras e hoje em dia têm o seu pequeno, médio ou grande negócio?
Quantos desenvolveram a sua vida de tal forma que é um contraste com as suas origens, muitas vezes de pobreza extrema?
Em inúmeras conversas com compatriotas emigrados, ouço sempre as mesmas razões, que os meus avós viveram já lá vão bastantes décadas quando foram para África: “trabalhávamos, trabalhávamos, mas não conseguíamos progredir.
Vivíamos dia a dia, ou melhor, sobrevivíamos!”
E isto eram os afortunados, pois havia muitos outros que nem trabalho remunerado regular conseguiam!
Os meus avós partilharam-me as mesmas razões. E eu pessoalmente vivi algo idêntico em 2010 com a crise financeira e económica que levaria Portugal a um resgate.
Portugal foi criado pela visão e inteligência que a transmutou em resultados práticos. Aparte outros episódios pontuais pela sua história de nove séculos, entre os quais destaco os Descobrimentos (mesmo este sobre constante ataque!), desde o grande terramoto de 1755 que vivemos um marasmo mental e emocional que nos estacionou enquanto o mundo progrediu.
No contacto com familiares e amigos que ficaram em Portugal, todos me dizem para não regressar, mesmo a contragosto emocional. Irónico, não é?
Recentemente tive o prazer de partilhar uma refeição com uma pessoa com a qual já não estava há quase vinte anos.
Essa pessoa, em visita a Montreal por razões de trabalho, acabou por descrever atualmente as mesmas condições que me levaram a sair a mim de Portugal; as mesmas condições que levaram os meus avós a saírem de Portugal à sessenta anos atrás, a mesma mentalidade!
Caro António Seguro e Luís Montenegro: regressar para quê?
Para engrossarmos o número de contribuintes para que o bolo a “distribuir” seja maior e mais conveniente ao clientelismo?
Para engrossarmos a segurança social para a continuação do regabofe de aumentos extraordinários de pensões e outras prestações sociais administradas de forma incompetente para satisfação de eleitorado específico?
Para sermos peões a engrossarmos o peso de grupos de interesse junto do centro de poder, grupos esses com a mesma mentalidade retrógrada que aflige
Portugal desde há muito?
Querem que sacrifiquemos o que conseguimos para nos atirarmos às condições das quais fugimos há mais ou menos tempo atrás?
Obrigado, mas não!
Querem que regressemos?
A sério que querem?
Então permita-me que vos dê umas sugestões rápidas.
Caro presidente António Seguro, pare de bloquear ou dificultar reformas necessárias ao país, como fez com a amostra de reforma laboral pretendida pelo governo.
Ao entregar a reforma a um lobby – a UGT – entregou uma reforma às mãos de uma minoria que está completamente cega às necessidades modernas que estão em curso e que se aproximarão num futuro próximo.
Efetivamente ganhou uma medalha de socialista honrado; mas perdeu o país, pois atirou mais um obstáculo que vai atrasar o progresso do país.
Em vez de querer provar que é socialista a cada passo, atenda às causas do atraso português; posicione-se no pragmatismo das necessidades reais para que o país evolua e se torne num oásis de desenvolvimento a todos os níveis.
Não ceda à demagogia partidária ou ideológica. Enfrente o obscurantismo ideológico e tenha a ousadia de reunir e motivar os portugueses para algo positivo.
Pode ficar odiado pelos seus camaradas, mas receberá a medalha da coragem e terá uma obra feita que jamais poderá ser demolida nas consciências dos portugueses.
Caro primeiro ministro Luís Montenegro, pare de andar às voltas do clientelismo e dos grupos de interesse instalados.
Faça as reformas.
Proponha-as.
Lute por elas.
Comunique-as de forma simples e clara.
Não tenha medos.
Quando o rodearem de protestos, rodeie-os de reformas. Aposte na coordenação da comunicação política, que me parece que tem falhado.
E se os bloqueios forem de tal ordem que nada mais pode fazer, não receie atirar a escolha aos portugueses. Eles são crescidinhos e serão responsabilizados por tal. Sofrerão as consequências da inépcia e da inércia; ou terão que arregaçar as mangas para alinhar o comboio na via do progresso.
Aí sim, caro presidente e primeiro ministro. Verão que não terão que lançar apelos.
Verão que a diáspora, por si mesma, será um adicional ao motor de desenvolvimento dos quais vocês seriam atores principais individualmente com as vossas equipas.
Veriam que a diáspora, estabelecida em diversos pontos do globo, seria ela também ferramenta útil ao progresso de Portugal com benefícios incalculáveis para os cidadãos e para a nação lusitana!
Apelo ao Regresso… para quê?
