No Arquipélago dos Açores registam-se mais de 500 jornais publicados no século XIX. Ainda hoje se mantém o mais antigo periódico português, o Açoriano Oriental, fundado em 1835, a par de outros três jornais diários: Diário dos Açores (1870), Correio dos Açores (1920) e Diário Insular (1946).
No outro lado do Atlântico, considerando as comunidades portuguesas (maioritariamente açorianas) dos Estados Unidos da América e do Canadá, é também antiga e importante a presença e a missão da imprensa lusófona, para manter e afirmar a marca distintiva da nossa identidade.
Remonta ao século XIX o histórico legado da imprensa luso-americana, com “A Voz Portuguesa” fundada na Califórnia em 1870 ou o “Jornal de Notícias” editado na Pensilvânia em 1877.
De entre os títulos ainda em publicação destacam-se: o “Luso-Americano”, fundado em 1928 em Newark, New Jersey; o “Portuguese Times”, fundado em 1971 em New Bedford, e “O Jornal”, fundado em 1975 em Fall River, ambos em Massachussets; ou ainda o “Tribuna Portuguesa”, fundado em 1979 em Modesto, Califórnia.
No Canadá, há dois jornais mais antigos na província do Quebeque e dois jornais mais recentes na província do Ontário.

Em Montreal, “A Voz de Portugal” foi fundado em 1961, com o título inicial de “Voz de Portugal” – é o jornal mais antigo do Canadá em língua portuguesa – e o “LusoPresse” data de 1996.
Em Toronto, entre outros, o jornal “O Milénio Stadium” foi fundado em 2004 e, em Brampton, o jornal “Correio da Manhã Canadá” publica-se desde 2012.
Nas comunidades açorianas da América do Norte, como nas ilhas açorianas do Atlântico Norte, a nossa imprensa regista a nossa história e acompanha a nossa vivência.
A comunicação social assume importância estruturante na construção, na preservação e na promoção do sentimento de pertença a uma comunidade distinta.
Com a televisão, a rádio ou os jornais, ganhamos consciência da vivência coletiva e, através da insubstituível imprensa, arquivamos para memória futura os momentos determinantes da nossa identidade e da nossa geografia.
Antes de mais e acima de tudo, os órgãos comunitários de comunicação social na América do Norte prestam um contributo decisivo para a desejada resiliência da língua portuguesa, falada e escrita.
Mas, por muito importantes que sejam os meios audiovisuais e as novas formas de comunicação digital, nada substitui o jornal – e, em especial, o jornal impresso, que podemos folhear e guardar, para sentir a pulsação da comunidade local ou para aconchegar a saudade da terra natal.
Merece, por isso, a devida congratulação e o adequado louvor constatar a longevidade de um jornal convencionalmente impresso em papel, num tempo e num espaço de crescente pressão digital.
Aqui ficam dois exemplos, entre outros possíveis, na Província do Quebeque e no Estado de Massachusetts.
A Voz de Portugal e o Portuguese Times
Primeiro, A Voz de Portugal, que se publica há mais de 60 anos no Canadá.
Um jornal intitulado A Voz de Portugal não podia ter uma data mais adequada para celebrar o seu aniversário do que o dia 25 de abril.
Foi a 25 de abril de 1974 que Portugal ergueu a sua Voz para implantar a Democracia e afirmar a Liberdade. A liberdade de expressão, a liberdade de imprensa.
Sucede, contudo, que, por curiosa coincidência, a fundação do jornal é anterior à revolução. A Voz de Portugal nasceu treze anos mais cedo, a 25 de abril de 1961.
Acaba de completar 65 anos de publicação ininterrupta. Passadas mais de 3.300 semanas, é o jornal de língua portuguesa mais antigo do Canadá.
Honra a comunidade lusitana, maioritariamente açoriana, da cidade de Montreal e da província do Quebeque.
Merece, por isso, a devida homenagem, com sensação de reconhecimento e com expressão de louvor, a quantos levaram e levam mais longe, no espaço e no tempo, A Voz de Portugal.
Desde logo, os seus fundadores, Elísio de Oliveira e José Simões Silvestre, e os seus sucessivos diretores. De entre todos se destaca Armando Barqueiro, que dirigiu o jornal durante 40 anos, de 1965 a 2005, até falecer.
Neste tributo cabem também, pelo tempo presente, o editor Sylvio Martins, os diretores Jorge Matos e Francisca Reis e, em geral, os seus redatores, os seus colaboradores, os seus anunciantes, os seus leitores.
São muitas as vozes portuguesas, de ontem e de hoje, que fazem A Voz de Portugal. Uma delas foi o jornalista açoriano Norberto Aguiar, antigo e marcante chefe de redação de A Voz de Portugal, que fundou e dirige o jornal LusoPresse, em Montreal, desde 1996.
Já no Ontário, entre outros, destaca-se aqui, por exemplo, o jornal Correio da Manhã Canadá, semanalmente editado na cidade de Brampton, desde 2012, sob a direção de Eduardo Vieira e Jorge Passarinho.
Outro título marcante da imprensa identitária das comunidades açorianas da América do Norte é o jornal Portuguese Times, que se publica há mais de meio século nos Estados Unidos.
Com os 55 anos que agora comemora, desde a sua fundação em 1971, o Portuguese Times destaca-se como um caso raro de orgulhosa resistência, que muito honra a nossa comunidade. Não apenas na cidade de New Bedford, mas no Estado de Massachusetts e em toda a Nova Inglaterra.
Está entre os mais antigos jornais portugueses ainda em publicação nos Estados Unidos da América, partilhando este feito notável com outros títulos emblemáticos como o Luso-Americano (Newark, New Jersey), desde 1928; O Jornal (Fall River, Massachusetts), desde 1975; ou o Tribuna Portuguesa (Modesto, Califórnia), desde 1979.
Pela longevidade do Portuguese Times, estão de parabéns os seus novos proprietários e administradores Henrique Arruda e Paulina Arruda, o seu diretor e editor Francisco Resendes e os seus poucos e bons redatores na pessoa do histórico repórter e fotógrafo Augusto Pessoa. Todos contribuindo para a sua antiguidade e, mais ainda, para a sua afirmação, não obstante a dificuldade acrescida dos tempos que correm.
Este jornal desenha-se no passado, consolida-se no presente e projeta-se no futuro, como causa e consequência da própria identidade da comunidade açoriana da Nova Inglaterra.
A ADMA – Azores Diaspora Media Alliance
Tal como A Voz de Portugal e o Portuguese Times, em Montreal e em New Bedford, ou como o Açoriano Oriental e o Diário Insular, em Ponta Delgada e em Angra do Heroísmo, muitos outros jornais e rádios e televisões dos Açores e da América do Norte contribuem para vencer a distância que nos separa e afirmar a identidade que nos une.
Por isso o Governo da Região Autónoma dos Açores, através da Direção Regional das Comunidades, tem vindo a promover oportunidades de encontro, para reflexão e debate, entre a comunicação social dos dois lados do Atlântico.
Nos últimos anos, realizaram-se quatro encontros de diretores de comunicação social dos Açores e da Améria do Norte.
O primeiro foi em maio de 2022, nos Açores, em Ponta Delgada e Angra do Heroísmo;
O segundo foi em outubro de 2022, na costa leste dos Estados Unidos, em Fall River e New Bedford;
O terceiro foi em junho de 2025, no Canadá, em Toronto e Montreal.
Um quarto encontro está previsto para o final deste ano, no Estado da Califórnia.
Destes encontros já resultou a criação de uma plataforma de cooperação entre jornais, rádios e televisões dos Açores e da América do Norte.
Chama-se ADMA – Azores Diaspora Media Alliance, reúne cerca de meia centena de órgãos de comunicação social das ilhas dos Açores e das comunidades açorianas dos Estados Unidos e do Canadá e tem como coordenador executivo o professor Diniz Borges, diretor do Portuguese Beyond Borders Institute da Universidade do Estado da Califórnia.
Esta Aliança dos Media Açores-Diáspora foi formalmente constituída em outubro de 2022, com sete objetivos programáticos:
Primeiro: Criar espaços que permitam aos seus membros trabalhar em rede e discutir questões profissionais e societais em ambos os lados do Atlântico;
Segundo: Promover uma cobertura ampla da diáspora açoriana, em todas as suas multiplicidades, e trazer à Diáspora, particularmente às segundas, terceiras e sucessivas gerações, um melhor conhecimento dos Açores de hoje;
Terceiro: Facultar contactos e fontes de informação entre jornalistas e órgãos da
comunicação social sediados nos Açores e na Diáspora;
Quarto: Incentivar a juventude em ambos os lados do Atlântico a prosseguir carreiras no jornalismo, incluindo a possibilidade de se criarem espaços para estagiários dos Açores nos Estados Unidos e Canadá e vice-versa;
Quinto: Defender uma cooperação recíproca que se baseie na experiência e nos pontos comuns que unem os meios de comunicação social nos Açores e na Diáspora:
Sexto: Estabelecer contactos entre o mundo académico americano e canadiano e a comunicação-social da Diáspora e dos Açores, possibilitando a participação dos profissionais da comunicação social em novos fóruns de debate e formação;
Sétimo: Gerar, através das várias plataformas de comunicação, novos conteúdos direcionados aos açordescendentes que não comunicam em português.
Estes são os objetivos fundacionais desta plataforma de cooperação transatlântica que ganha agora um novo impulso no âmbito da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, designadamente, com uma estrutura própria de apoio permanente a partir da cidade de Ponta Delgada.
Os novos tempos trazem novos desafios e os novos desafios exigem novas respostas.
Estamos a comemorar 600 anos da descoberta do arquipélago dos Açores em 1427, 200 anos do aparecimento da imprensa açoriana em 1830 e 50 anos da criação constitucional da Região Autónoma dos Açores em 1976.
Comemoramos esse legado identitário com um respeito pelo passado que é do tamanho da nossa confiança no futuro.
Por isso celebramos a História vencendo a Geografia.
Todos juntos, desde as ilhas do Atlântico até à costa do Pacífico, conjugamos esforços numa única comunidade mediática que pretende preservar e desenvolver a nossa identidade comum.
Desde a fundação do Açoriano Oriental até à criação da ADMA, honramos o presente por conta do passado e por causa do futuro.
Texto baseado na comunicação apresentada à “International LSA (Lusophone Studies Association) Conference 2026: Voices and Visions – Lusophone Communities in the Global Landscape”, promovida pela University of British Columbia, Okanagan Campus, Kelowna, British Columbia, Canada, de 14 a 16 de maio de 2026
