Os cabouqueiros da beleza: O Festival Música no Colégio e a silenciosa


construção de uma capital cultural no meio do Atlântico
Durante três noites consecutivas, o Largo do Colégio deixou de ser apenas um dos mais emblemáticos espaços históricos de Ponta Delgada para se transformar numa verdadeira Ágora da cultura. A XIV edição do Festival Música no Colégio, promovida pelo Coral de São José, confirmou aquilo que o público já pressentia: a música não conhece periferias. Quando existem visão, competência, entrega e amor pela arte, uma ilha na imensidão do Atlântico pode rivalizar, sem qualquer complexo, com os festivais culturais pelo nosso país fora, porque a verdadeira centralidade nunca pertence ao mapa, pertence ao espírito.
Quem tomou lugar numa das centenas de cadeiras instaladas diante do antigo Colégio dos Jesuítas encontrou muito mais do que uma sucessão de concertos. Encontrou uma experiência estética plena, como se as antigas paredes do Núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado despertassem da sua memória secular para acolher, uma vez mais, a celebração da beleza. A música subia ao céu como incenso, enquanto as fachadas centenárias pareciam escutar cada nota com a serenidade de quem guarda séculos de história.
Mas o verdadeiro espetáculo começou muito antes de soar a primeira nota.
Enquanto o público contemplava apenas o esplendor do palco iluminado, os bastidores ainda fervilhavam num labor silencioso, persistente e quase invisível. Dezenas de coralistas, dirigentes voluntariosos entregavam-se à preparação do festival com a mesma dedicação de quem constrói uma catedral sabendo que talvez nunca veja concluída toda a obra. Afinavam pormenores, organizavam partituras, aprumavam a indumentária, acolhiam artistas e coordenavam uma infinidade de pequenos gestos.
São estes homens e mulheres os verdadeiros cabouqueiros da cultura açoriana.
A expressão não constitui mero recurso literário. Tal como os antigos cabouqueiros arrancavam à rocha basáltica as pedras destinadas a erguer igrejas, conventos e fortes, também estes coralistas escavam diariamente o tempo, a disponibilidade e o cansaço para construir um património invisível, feito não de pedra, mas de vozes; não de cal, mas de dedicação; não de argamassa, mas de um profundo sentido de missão.
Cada ensaio representa dezenas de horas de estudo das pautas. Cada concerto resulta de meses de disciplina paciente. Cada edição do festival começa muito antes da montagem do palco e prolonga-se muito depois de o último aplauso se extinguir na noite. Quando finalmente chega o momento de subir a palco, vestem o traje com a serenidade de quem oferece ao público apenas a beleza, escondendo cuidadosamente o desgaste, as noites mal dormidas e o esforço acumulado. A cultura deixa então de ser mero entretenimento para assumir a dignidade de um serviço público, exercido por cidadãos que acreditam que o património imaterial também precisa de ser cultivado, protegido e transmitido às gerações futuras, como se transmite uma chama que nunca deve extinguir-se. Por isso, as entidades oficiais têm o dever de acarinhar estes voluntariosos da cultura.
Foi essa entrega que voltou a fazer do Festival Música no Colégio uma das maiores referências da programação cultural açoriana.
A primeira noite, intitulada Raízes em Harmonia: Um Encontro entre o Tradicional e o Erudito, constituiu uma inteligente celebração da identidade musical açoriana. Sob a coordenação da incontornável referência da música açoriana, Ana Paula Andrade, os músicos convidados ofereceram novas roupagens às melodias tradicionais das ilhas, fazendo-as atravessar a linguagem da música de concerto sem lhes retirar a alma. Era como se as cantigas herdadas das fajãs, das eiras do milho ou do trigo, dos portos e dos verdes campos encontrassem novos horizontes sem esquecer o perfume da terra onde nasceram.
A voz inconfundível de Raquel Dutra, a sensibilidade interpretativa de Carina Andrade, a autenticidade do Grupo Folclórico do Porto Formoso ou o delicado dedilhar das cordas de Rafael Carvalho entrelaçaram-se numa viagem sonora onde tradição e modernidade caminharam lado a lado. Cada interpretação acrescentava uma nova cor ao vasto mosaico da identidade açoriana, plenamente alinhada com o espírito da Capital Portuguesa da Cultura que Ponta Delgada celebra.
Não consegui estar presente na segunda noite, que, segundo me relataram, assumiu um elevado significado artístico e cívico, integrada nas comemorações dos cinquenta anos da Autonomia dos Açores. A Noite Filarmonia, subordinada ao tema Canções da Liberdade: 50 Anos da Autonomia dos Açores, enobreceu, seguramente, o prestígio da Filarmónica de Nossa Senhora das Neves, sob a segura direção de Hélio Soares, celebrando não apenas a música, mas também a memória coletiva de um povo que aprendeu a escrever o seu próprio destino.
O encerramento do Festival Música no Colégio elevou o certame a um patamar raramente alcançado no panorama musical açoriano. A Noite de Ópera, dedicada ao tema O Lirismo Nacional: do Barroco ao Modernismo, apresentou um percurso pela criação lírica portuguesa marcado pela coerência artística e pela excelência interpretativa. Nós que associamos a ópera à Itália, aprendemos que o nosso país sulca o mesmo mar do lirismo.
Sob a competente direção musical do maestro Luís Filipe Carreiro, o Coro Sinfónico do Coral de São José revelou uma maturidade sonora notável. Acompanhados pela sensibilidade pianística de Ricardo Martins e pelas interpretações dos solistas açorianos Sandra Medeiros, do florentino José Côrvelo e ainda de Sérgio Sousa Martins, ofereceram ao público momentos em que a música parecia suspender o próprio tempo, permitindo que o silêncio entre duas notas dissesse tanto quanto a própria melodia. Que o digam quem naquele último dia ficou enfeitiçado com a voz sublime da nossa Sandra Medeiros.
A resposta da assistência foi inequívoca.
No final de cada concerto, os aplausos prolongaram-se muito para além do protocolo. Não eram apenas manifestações de agrado. Eram gestos de gratidão. Eram a forma mais simples de reconhecer um trabalho artístico do Coral de S. José que ultrapassou largamente as expectativas. Muitos estrangeiros confessavam sair surpreendidos pela dimensão estética do espetáculo, pela qualidade dos intérpretes e pelo rigor organizativo de uma produção inteiramente sustentada por uma associação cultural.
É precisamente aí que reside uma das maiores lições deste festival.
Atualmente, quando tantas iniciativas dependem exclusivamente de estruturas profissionais, o Coral de São José demonstra que o associativismo cultural continua a ser uma das maiores forças da sociedade açoriana. O sucesso do Festival Música no Colégio nasce desse raro equilíbrio entre profissionalismo artístico e espírito voluntário. Cada coralista canta, mas também constrói; interpreta, mas também monta; emociona o público, mas antes garante que cada cadeira, cada foco de luz e cada partitura ocupem o lugar exato onde a harmonia começa.
Apesar das limitações impostas pela insularidade, este festival oferece a resposta mais eloquente possível: a geografia nunca limita o talento, nem a capacidade de criar acontecimentos culturais de dimensão internacional, porque o mar que nos rodeia não é fronteira, mas é horizonte.
Durante três noites, Ponta Delgada respirou ao ritmo cultural das grandes cidades. Não por imitação, mas por mérito próprio. A música passeou no Largo do Colégio e nas consciências como uma maré luminosa, recordando-nos que há momentos em que a cidade parece pulsar ao compasso de uma pauta invisível.
Foi simplesmente arrebatador.
O concerto despediu-se com a opereta do açoriano Henrique Vieira da Silva, figura maior da música terceirense, maestro e compositor que marcou profundamente a vida cultural da sua ilha. O autor de Água Corrente, uma das mais emblemáticas operetas açorianas, e que deixou um legado que atravessa gerações e continua a testemunhar a riqueza do património musical dos Açores, fechou com chave de ouro este festival.
E quando a última nota ecoou sob o céu do Largo do Colégio, numa noite sem estrelas mas convidativa, permaneceu suspensa uma certeza difícil de traduzir em palavras, ou seja, a verdadeira riqueza de um povo mede-se também pela sua capacidade de criar beleza, de preservar a memória e de reunir uma comunidade em torno da arte.
O Festival Música no Colégio não foi apenas um conjunto de concertos.
Foi uma celebração da inteligência coletiva, do voluntariado, da excelência artística e da convicção profunda de que a cultura continua a ser uma das formas mais nobres de construir uma sociedade. O Coral de São José não organiza apenas concertos. Constrói património. Constrói memória. Constrói futuro. Que os nossos governantes sejam os que na primeira linha acarinhem este gigantesco projeto cultural. O encore de Alfredo Keil, o “Santo Padroeiro”, encerrou a noite em apoteose, deixando o Largo do Colégio envolto numa prolongada ovação.
Enquanto houver homens e mulheres dispostos a trabalhar no silêncio dos bastidores para que a música brilhe diante de todos, os Açores continuarão a afirmar-se não apenas como um arquipélago de paisagens extraordinárias, mas como uma terra onde a beleza encontra abrigo, onde a memória ganha voz e onde a cultura continua a ter intérpretes, construtores e guardiões dignos da sua história. Porque há lugares onde a pedra guarda o passado, mas naquele Largo, durante três noites, foi a música que guardou a alma de um povo açoriano e dos turistas que lá se encontravam.