Democracia ou não?


A decadência que a Humanidade abraçou e teima em cultivar invadiu todos setores da vida humana ao mesmo tempo com um mesmo objetivo geral: a desordem. No meio há os oportunistas que anseiam por aproveitar os espólios da desordem, travestindo-se de boas intenções e de valores aparentemente elevados que levariam qualquer cidadão bem-intencionado a acreditar neles.
Vamos aos factos. Há problemas na habitação? Há. Há problemas na imigração? Há. Há problemas de pressão económica nas famílias, derivado do desnível de riqueza? Há. Vamos agora às manifestações: estas são organizadas e participadas pelas pessoas efetivamente carenciadas? A maior parte não! Perdi algum tempo a observar atentamente muitas imagens, vídeos e fotos, e verifico aqui e ali alguns elementos caros para pessoas que se dizem carenciadas.
Ora são telemóveis e relógios eletrónicos de última geração caríssimos, ora são roupas de marca, mochilas ou sapatos de desporto de marcas reconhecidas.
Há algum problema que tenham adquirido estes produtos?
Absolutamente não.
Há sim um problema de hipocrisia com o seu comportamento. Se têm efetivamente dificuldades em pagar habitação, provavelmente deveriam dar prioridade à habitação em vez dos pequenos luxos que acumulam que devem pesar no orçamento pessoal e familiar. Já participei em manifestações e protestos e posso dizer que à exceção de um ou outro muito específicos, a maior parte dos participantes do protesto estavam lá pela adrenalina de participarem na multidão.
As manifestações têm este condão: dão um poder imaginário aos participantes que eles individualmente não sentem nas suas vidas. É aliciante e acima de tudo viciante. Para aqueles espíritos que se sentem esmagados pela vida, cujo interior retém um orgulho desmesurado que não encontra circunstâncias para manifestar o seu poder, as manifestações e protestos de rua são um escape real.
O efeito Dunning-Kruger descreve o desvio de perceção de pessoas em função do seu nível de conhecimento.
No estudo que foi feito, os indivíduos que menos dominavam uma matéria tinham uma perceção inflacionada das suas capacidades, ou seja, pensavam que ou dominavam ou podiam dominar facilmente um determinado assunto.
À medida que o seu conhecimento e competência dessa matéria se aprofundava, sofriam uma inversão dessa perceção verificando que afinal a profundidade ou vastidão do assunto em causa era muito maior do que imaginavam quando eram ignorantes.
Assistimos a esse efeito em direto em muitos problemas da sociedade e em muitos líderes atuais.
De tal forma que qualquer responsável competente tente intervir na discussão, é automaticamente rotulado e virtualmente assassinado em praça pública, quando não é mesmo perseguido.
O problema da habitação é um exemplo simples. Os movimentos migratórios, associados por vezes a demografias com desequilíbrios significativos, a falta de construção de habitação, regulamentações desadequadas da construção e a incompetência de poderes locais no ordenamento de territórios originaram a tempestade perfeita.
Oscilamos agora entre extremos ignorantes: de um lado as soluções rápidas de tirar a uns para dar a outros; do outro o protecionismo de monopólios através de legislação desadequada que afasta a possibilidade de construção acessível. No meio todos aqueles que são conhecedores do assunto e que alertam para a necessidade de anos para resolver o problema perdem-se na gritaria dos ignorantes e oportunistas em palco. É sofrível ver o rodopio de comentadores que discursam sobre a habitação ao sabor das ondas da popularidade, atirando falsidades ou baseando os seus comentários sobre ilusões. A discussão é muita, a ação é pouca. Para cúmulo ainda temos menus de soluções que decorrem de ideologias desconectadas da realidade, de opiniões pessoais ou de propaganda mal disfarçada.
Infelizmente há outra situação que, só pela corrupção moral e/ou material se pode justificar: deixar agentes estrangeiros visivelmente movimentarem e organizarem movimentos de desordem.
As diversas entrevistas a alguns elementos, onde eles expõem ao que vêm, com ajuda de locais, é preocupante não só pela sua existência mas pela impunidade que o fazem, à luz do dia e em frente a câmaras.
Os acampamentos recentes em Lisboa e Porto, com indivíduos a dizerem que pretende reverter o regime, expropriar a bel-prazer, perseguir empresas e indivíduos, atacar políticos legitimamente eleitos, expulsar juízes, tudo isto em obscuras “assembleias populares”, demonstra claramente o teor anti-democrático das suas ideias e intenções.
Cavalgando o descontentamento geral resultante da incompetência de governos nacionais e locais, estas células cancerosas manifestam-se claramente para surpresa de alguns que parecem ainda guardar alguma consciência, perante a passividade de muitos.
A pergunta que nos devemos fazer é: será que menosprezamos tanto a democracia a ponto de a deixar ser subvertida à frente dos nossos olhos?