E o amanhã?


A intervenção militar americana em conjunto com Israel no Irão revela-se tão temerária tanto quanto inevitável.
Comecemos pela inevitabilidade.
O Irão, desde a implantação do seu regime islâmico, criou a imagem de inimigos constantes e definitivos. É fácil perceber que quando elegemos no nosso espírito alguém como nosso inimigo, colocamos imediatamente um condicionamento forte a qualquer interação com essa pessoa.
O mesmo se passa com coletividades.
O espírito de inimizade profunda, traduzido depois por ações reiteradas de subversão por indivíduos ou grupos contra países ocidentais e até contra países islâmicos da região, tornaram o Irão uma presença difícil e desestabilizadora. A alegação da ilegalidade desta guerra é muito provável.
Mas em contrapartida devemos perguntar: como responder a um país que não entra em guerra diretamente mas está em constante ação subversiva – incluindo com grupos terroristas – junto daqueles que elegeu como inimigos?
A resposta por alguém mais desarranjado seria inevitável, pelo que a atual guerra não é de surpreender.
Daqui partimos para a temeridade.
E porquê?
Pelo simples facto de que múltiplos especialistas militares e de geopolítica já vieram assinalar que nenhum regime mudou apenas com bombardeamentos aéreos ou por mísseis. O exemplo do Afeganistão, que mesmo com tropas no terreno, regrediu para um regime liderado pelos talibans, é o exemplo perfeito.
O simples facto que o Trump apelou aos iranianos para tomarem o poder pois a alteração do regime estaria ao seu alcance, mostra a impreparação e infantilidade desta guerra pois demonstra nenhuma coordenação com forças políticas e militares locais que possam assumir de imediato o controlo do país para fazer a transição de regime.
Olhando para a história da Humanidade, as alterações de regime com intervenção militar só se revelaram bem sucedidas de duas formas: ou havia uma boa semente já implantada na sociedade invadida, com um movimento político forte o suficiente para sustentar uma transição; ou o novo regime é implantado à força através de um massacre selvagem da população de tal forma que impossibilita qualquer reação interna, à boa maneira das invasões bárbaras do passado histórico da Humanidade com chacinas verdadeiramente dolorosas.
Esta segunda opção fere de imediato o nosso sentido moral. Resta a primeira opção, que até agora não se vê preparada.
Estará assim os EUA e Israel a cair na ratoeira em que já caíram anteriormente?
A natureza humana, assim como a natureza que nos rodeia, tem horror aos vazios. Esta guerra poderá dar uma vitória tática, mas a questão é se será uma vitória estratégica para dar uma paz futura à região.
Sabemos que os israelitas são mais estrategas, ao contrário de Trump mais virado para posições de força do momento para ganhos imediatos, revelando uma incompreensão infantil em relação aos movimentos das sociedades.
Ao vazio de poder, quem o assumirá?
Estará a sociedade iraniana preparada para tal?
Ou estaremos a criar o espaço de crescimento para outro violento fundamentalismo nascer e tomar pela violência a região?

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