Participei numa ceia de Natal com jovens integrados numa valência de estabilização comportamental, muitos deles oriundos de contextos socioeconómicos difíceis e marcados por histórias familiares complexas. Aquilo que poderia ter sido apenas mais uma atividade institucional transformou-se, na verdade, num momento profundamente humano e memorável.
À chegada, era visível algum receio por parte dos rapazes e raparigas. A comunicação com os responsáveis da valência fazia-se de forma contida, quase na defensiva, como se o simples ato de falar implicasse exposição ou julgamento. Esse comportamento não surpreende, pois são jovens habituados a ambientes instáveis, onde a confiança é construída lentamente e muitas vezes desfeita com facilidade. Ainda assim, bastaram alguns gestos simples, palavras de acolhimento e um ambiente descontraído para que o gelo começasse a quebrar.
À medida que a ceia avançava, o espaço foi-se enchendo de conversas espontâneas, risos e uma alegria que se tornava cada vez mais contagiante. A partilha da mesa teve aqui um significado especial. Comer juntos é um gesto ancestral, carregado de simbolismo, que cria laços e aproxima pessoas. Para muitos daqueles jovens, aquela ceia representava mais do que uma refeição, dado que era um raro momento de normalidade, de pertença e de aceitação.
Depois da refeição, os jogos tiveram um papel fundamental. Os jovens acabaram por participar de forma ativa e entusiasta.
Houve gargalhadas, provocações saudáveis e uma cumplicidade inesperada entre todos, jovens e adultos. Durante aquelas dinâmicas, deixaram de existir rótulos, processos ou diagnósticos. Havia apenas pessoas a divertirem-se juntas, num clima de respeito e igualdade. Foi talvez naquele instante que se revelou a verdadeira força do convívio, ou seja, a capacidade de criar um espaço seguro onde cada um pode ser quem é, sem medo.
Houve ainda espaço para conversas mais sérias, nomeadamente sobre os sonhos e aspirações para o futuro. Apesar das dificuldades que enfrentam, estes jovens demonstraram uma notável capacidade de sonhar. Muitos falaram do desejo de seguir caminhos diferentes daqueles que os pais e avós percorreram, em particular a vida dura e arriscada do mar, que conhecem bem através das suas famílias. Não rejeitam as suas origens, mas aspiram a uma vida com mais segurança, oportunidades e escolhas. Querem estudar, aprender uma profissão, construir um futuro onde o risco não seja uma constante diária.
No final da noite, vários jovens partilharam que aquele tinha sido um convívio de Natal memorável. Alguns afirmaram, com uma sinceridade desarmante, que gostariam muito que momentos semelhantes pudessem acontecer nos seus próprios contextos familiares. Essa constatação, embora simples, carrega um peso emocional significativo.
Revela carências afetivas profundas, mas também um desejo claro de harmonia, estabilidade e afeto, valores que associamos naturalmente à quadra natalícia, mas que nem sempre estão presentes na vida de todos.
Esta ceia de Natal foi, assim, muito mais do que um evento pontual. Foi uma prova de que, quando existem condições de acolhimento, respeito e escuta, é possível promover convivência saudável mesmo em contextos marcados pela vulnerabilidade.
Mostrou também que estes jovens não são definidos pelos seus problemas, mas pelas suas potencialidades, pelos seus sonhos e pela sua capacidade de se relacionarem de forma positiva.
O Natal é sempre uma boa ocasião de convívio, mas é sobretudo uma oportunidade para reforçar a nossa responsabilidade coletiva.
Cabe-nos, enquanto sociedade, criar mais momentos como este, onde a esperança não seja apenas uma palavra bonita, mas uma experiência vivida. Porque, para aqueles jovens, aquela noite foi uma lembrança feliz e, quem sabe, um pequeno passo rumo a um futuro diferente.
DÉCOUVREZ LE PORTUGAL ET LA COMMUNAUTÉ AVEC NOTRE JOURNAL
