Para quem nasceu nos Açores e vive do outro lado do atlântico, o Natal é tempo de saudade e nostalgia; saudade da família reunida à volta da mesa e de ser menino; saudade do cheiro da massa sovada e do bolo-rei, da ervilhaca e do trigo; saudade da Missa do Galo e beija-Menino; saudade das “ramboias”, do licor de tangerina e do saboroso vinho abafado.
Faz falta ao Natal de qualquer açoriano a tradição dos antigos, os costumes, os sabores, os cheiros, o som do sino das nossas terras e a mijinha do Menino.
O Natal é a única quadra que tem o condão de amolecer os corações endurecidos pelo tempo. A vontade de ser melhor e o desejo de voltar a ser criança tem a magia de nos visitar a todos nesta altura do ano.
A simplicidade do presépio, hoje tão esquecido, desprezado e escondido nas grandes cidades do mundo que se diz evoluído, é uma oração ou poema espiritual que frequentemente utiliza a sua candura para tocar as almas mais simples. Nas ruelas dos presépios, as figuras caminham apressadamente com destino à lapinha, expressando a impaciência e a esperança dos que, ansiosos, esperam o reinado da paz e de um mundo mais humano.
Vejo em cada rua, lar ou cidade engalanada de luz, um apelo fervoroso, mas disfarçado, à intervenção divina (já que a intervenção humana tarda) para transformar corações e caminhos… uma litania de espera e fé na presença do Menino Deus que nasceu e no Seu iminente regresso, apesar da escuridão deste tempo cheio de ódio, mas onde as faíscas de alguns gestos de bondade promovem a esperança numa realidade que pode ser diferente. Por isso rezo:
Meu doce Menino Jesus, eu sei que não Te atrasas no cumprimento das profecias, mas apressai-Vos, meu Menino, a tocar os meus olhos e a fazer com que eu seja capaz de sentir a Tua ternura nos que me rodeiam!
Meu doce Menino Jesus, eu sei que estás todos os dias nas encruzilhadas dos meus sonhos e esperanças, mas apressai-Vos, meu Menino, a dissolver as minhas dúvidas e a firmar os meus passos!
Meu doce Menino Jesus, eu sei que virás e que o teu dia nos surpreenderá de tão maravilhoso que será, mas apressai-Vos, meu Menino, a dar consolo e alegria àqueles que, feridos, estão cansados de esperar por Ti!
Meu doce Menino Jesus, eu estou certo de que habitas no mais profundo do meu ser como num santuário, mas não demores, meu Jesus, em transformar o meu coração a fim de que eu volte a ser um menino no segredo do Teu silêncio!
Meu doce Menino Jesus, eu sei e sinto que estás cá, no aqui e agora, no já do kronós e no ainda não do kairós; estou certo de que nunca me abandonas e que me amas, mas apressa-Te, meu Bom Jesus, a abrir-me, neste Natal, à Tua presença transformante e transformadora para que eu também seja capaz de amar.
Santo e Feliz Natal e um Ano Novo próspero, abençoado e cheio da luz de Belém.
O Natal cheira a infância
