Estas presidenciais foram o palco de contradições e paradoxos que se juntaram de uma forma admirável pelas forças do destino. Vamos a elas.
1.Ganhou o candidato esperado, mas que não se esperava que ganhasse no início deste processo eleitoral.
Ganhou o candidato que não foi apoiado pela sua área politica, ou foi apoiado de forma muito tímida.
A sua vitória foi uma chapada de luva branca a uma determinada fação dentro do partido socialista, contudo, não determina a derrota eliminatória dessa fação ou a mudança de humor entre o novo presidente e quem domina o PS.
Resultado que prevejo: Seguro como presidente vai esforçar-se por mostrar que é um socialista, e dentro do PS irão colar-se a ele quando conveniente, e quando não for não hesitarão em minar a sua posição.
2.Ganhou o candidato que menos respondeu, que menos indicou o que pretende, para além dos discursos gerais de beneficência comuns a eleições.
Não se espere um espírito progressista reformador nas áreas que o país precisa. Antes pelo contrário, na sua ânsia de se redimir como socialista, penso que será mais inconveniente ao progresso do país.
Qualquer reforma que abane seja o que for, mesmo de leve, bastando qualquer sindicato ou movimento pró social se manifestar, tenho a certeza que o novo presidente lá estará a “dar uma mão” às reivindicações. Isto tudo apesar de um país que necessita de uma liderança clara, uma visão esclarecida que motive a sociedade.
3.O “grande derrotado” não foi derrotado e não se importa com isso. André Ventura pretende a governação, e apesar de isto ser ignorado pela esmagadora maioria, ele mostrou que não tem equipa que o secunde, não tem figuras para além do carisma reivindicatório de Ventura. Isso é tão evidente quanto não foi explorado. Ventura não se importa e a votação que teve não o projeta em demasia mas é o aceitável o suficiente para manter os seus objetivos de chegar a primeiro ministro, o que poderá acontecer num futuro não muito longínquo. Irá o Chega e André Ventura mudarem de estratégia para algo menos agressivo e menos efusivo? Penso que sim, pois de um lado não se pode extrapolar resultados das presidenciais para as legislativas; por outro lado penso que o estilo inflamatório pode estar a chegar aos seus limites em termos de resultados, isto se o Chega e Ventura quiserem liderar eventualmente um governo maioritário, pois em coligação, a instabilidade que provocariam poderia ser demolidora para os seus propósitos.
- O outro derrotado, sem o ser verdadeiramente, é o líder do governo Luís Montenegro. E porquê? Simplesmente pelo facto da sua aposta presidencial ter sido cilindrada logo desde início.
Mas será um total derrotado?
Não acredito, pois como em tudo na vida, mais vale ter pela frente um adversário com postura decente do que um aliado manipulador que a qualquer altura instiga perturbação desnecessária.
Evidentemente poderemos contar com a postura de redenção socialista de Seguro, mas a sua aclamada decência reduzirá a possibilidade de embaraços estranhos a Montenegro. Naturalmente, e contrariamente ao que Seguro disse, Montenegro contará com um contrapoder com o qual terá que conviver, mas será o menos dos males.
5.E o país? Fica tudo na mesma, independentemente do vencedor que tivesse saído. Deixem de lado as aclamações de anti democrático, fascista, etc.
Tudo fait divers.
Os que aclamam estes slogans não se acanharam quando se viveu em conluio – uma vez evidente, outra vez menos – com forças anti democráticas de esquerda que ainda hoje não se inibem de o demonstrar em praça pública.
No fundo, reclamam dos seus adversários o mesmo método que usaram quando lhes foi conveniente.
As catástrofes naturais que se abateram no país, este ano com água e em 2017 com os incêndios, colocaram a nu as deficiências que se cultivaram e que ainda se cultivam a todos os níveis de governos, central e local.
A sociedade, essa persiste nos clamores sentimentalista ao paizinho estadual, ajuda aqui e ali, apoio aqui e ali. Iniciativa nenhuma, e de preferência façamos tudo para a impedir, porque… enfim, porque sim.
As reformas que o país precisa e que impedem o seu progresso mantêm-se longe. De todos os candidatos à presidência, só um distinguiu-se da mentalidade estado-central-socialista; só um distinguiu o verdadeiro papel do presidente face aos desafios internos.
Todos os outros embarcaram na anacrónica e deficiente estratégia de conceder dádivas gerais, tal rei que oferece favores em troco de voto. Muda o artista, mas não muda a peça de teatro.
E agora?
Bom, agora nada.
O país, com a sociedade existente, incluindo os mais novos, é irreformável.
Neste fim de semana tive uma acalorada discussão com pessoas próximas que se queixavam que tinham novamente um socialista na presidência.
Eu perguntei qual o espanto, pois ambos os candidatos na segunda volta eram e são socialistas.
Ficaram ofendidos.
Estrebucharam.
Discutimos.
Mas não se preocupem, foi tudo apenas calor da emoção, não se perdeu o afeto, muito menos o respeito. Mas fica evidente a cegueira de quem vive a realidade portuguesa e face ao descontentamento não se apercebem de determinados sinais.
A insatisfação, quando ultrapassado determinados limites, incute em qualquer pessoa uma tendência a aceitar qualquer coisa que prometa uma mudança sem o ser verdadeiramente. Essa é a arma dos populistas.
O problema é que os moderados, apercebendo-se desse perigo, acabam por promover uma erosão das instituições, a par dos populistas, pela manutenção e insistência nos padrões de comportamento usuais que nos trazem a estas situações.
Cair lentamente na situação da ofensa barata ao adversário político é apenas alimentar as fraturas existentes na sociedade.
Para Portugal, o conceito de estabilidade, nascido do inconsciente coletivo dos conturbados anos do final do século XIX e princípio do século XX continuando com Salazar que “estabilizou” o país, é sinónimo de inércia, de pavor de reformas, de aversão a qualquer mudança ou intervenção estrutural.
Portugal vai assim de arrasto e deixa de ser senhor do seu destino. Em bom nome da estabilidade. E do consenso. Claro.
