Retratos da praça de Kiev


Quatro anos passaram desde que, a 24 de fevereiro de 2022, a Rússia lançou a sua invasão em larga escala da Ucrânia. Quatro anos que parecem uma eternidade para quem os vive sob o ribombar constante das sirenes e o eco surdo das explosões. Para muitos no chamado mundo ocidental, porém, o conflito foi-se tornando ruído de fundo — mais uma guerra distante num ciclo noticioso saturado. A indignação inicial, as bandeiras nas janelas, os concertos solidários e as declarações inflamadas foram cedendo lugar à fadiga, à habituação, à perigosa normalização do horror.
Contudo, na recente evocação do quarto aniversário da invasão, houve uma imagem impossível de ignorar. Nas praças de Kiev, a capital martirizada e resiliente, milhares de fotografias de jovens militares tombados em combate foram expostas lado a lado. Retratos de rostos ainda marcados pela juventude, sorrisos captados antes da guerra lhes interromper o futuro. Entre eles, também imagens de civis: mães, pais, crianças, avós. A disposição simples das fotografias transformou o espaço público num imenso memorial a céu aberto. Foi horripilante, no sentido mais literal da palavra, tomar consciência visual da dimensão da perda. Cada fotografia representava um universo de afetos, sonhos, projetos, agora brutalmente ceifados. Aquelas praças tornaram-se espelhos da nossa própria consciência. O impacto não residia apenas na quantidade esmagadora de rostos, mas na humanidade palpável que deles emanava. Não eram números, nem estatísticas frias mencionadas em relatórios internacionais. Eram vidas concretas. Jovens que poderiam estar a estudar, a trabalhar, a construir família. Civis que deveriam continuar a viver a normalidade simples dos seus dias. Em vez disso, tornaram-se vítimas de uma agressão que muitos julgavam impensável no século XXI, no coração da Europa.
Ao longo destes quatro anos, os ucranianos têm resistido com uma heroicidade que ficará inscrita na história. Resistiram nas trincheiras enlameadas, nas cidades cercadas, nos hospitais improvisados, nas escolas adaptadas a abrigos antiaéreos. Resistiram mantendo serviços públicos, organizando ajuda humanitária, ensinando crianças entre alarmes de bombardeamento. Resistiram, sobretudo, recusando ceder à aniquilação da sua identidade nacional. A defesa da soberania tornou-se, para milhões, uma questão existencial.
No entanto, enquanto a Ucrânia luta pela sua sobrevivência, uma parte significativa do mundo ocidental parece oscilar entre o apoio retórico e uma crescente indiferença prática. As prioridades mudam, as crises multiplicam-se, os ciclos mediáticos aceleram. A guerra deixa de ser manchete diária e passa a rodapé. E quando o sofrimento deixa de ocupar o centro da nossa atenção, corre o risco de se tornar tolerável. Essa é talvez a mais perigosa das normalizações: a do mal persistente que, por repetido, já não escandaliza.
Como é possível que, em pleno século XXI, dirigentes em Moscovo persistam numa lógica de destruição tão implacável? Como conceber que, após duas guerras mundiais, após a consolidação de instituições internacionais destinadas a preservar a paz, ainda se recorra à invasão e à anexação pela força como instrumentos de política externa? A interrogação é moral antes de ser estratégica. Interpela-nos sobre a natureza do poder quando dissociado de qualquer responsabilidade ética.
Não se trata apenas de geopolítica, de esferas de influência ou de equilíbrios militares. Trata-se do valor intrínseco da vida humana. Cada míssil disparado, cada cidade devastada, cada família desfeita representa uma falência moral. A ausência de um “pingo de sangue” — metáfora para a ausência de empatia e consciência — revela-se na frieza com que se justificam atos que produzem sofrimento incalculável. A retórica oficial pode invocar segurança, história ou defesa de interesses estratégicos; mas nenhuma narrativa apaga as imagens das praças de Kiev cobertas de retratos.
As fotografias nas praças de Kiev funcionaram como um grito silencioso dirigido ao mundo. Um apelo a que não desviemos o olhar. Um convite forçado a contar, um a um, os rostos da guerra. Talvez seja esse o poder da memória visual: devolver densidade humana àquilo que as estatísticas tornam abstrato. Ao confrontarmo-nos com aquelas imagens, torna-se impossível falar de “danos colaterais” com ligeireza. Cada retrato é a negação dessa expressão desumanizante.
Que as praças de Kiev, cobertas de rostos jovens interrompidos, permaneçam na nossa memória como advertência. Que nos recordem que a paz não é um dado adquirido, mas uma construção frágil que exige vigilância e compromisso. E que, perante a brutalidade, o silêncio nunca seja a nossa resposta.

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