A Celebração da Fé e União da Comunidade: Festas do Senhor Santo Cristo


A história de uma comunidade nunca deve ser esquecida. Ela vive nas tradições, na fé, nos sacrifícios dos nossos antepassados e na dedicação daqueles que continuam a manter viva a nossa cultura geração após geração. Celebrar as nossas raízes é honrar todos os homens e mulheres que construíram, com trabalho e devoção, um legado que hoje une famílias e fortalece a identidade da nossa comunidade portuguesa em Montreal. No fim de semana transato, a Missão Santa Cruz e a Comissão das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres celebraram esta grande tradição com chave de ouro. Foram 3 dias marcados pela fé, união, emoção e convívio, onde a comunidade se reuniu uma vez mais para testemunhar a força das suas crenças e o orgulho das suas origens. Entre momentos religiosos profundamente emocionantes, música, reencontros e espírito de fraternidade, viveu-se um fim de semana memorável e inesquecível. Uma celebração que ficará gravada no coração de todos aqueles que tiveram o privilégio de participar e que demonstra, mais uma vez, que as tradições do Senhor Santo Cristo dos Milagres continuam bem vivas e mais fortes do que nunca.
Sexta-feira, dia 15 de maio, tivemos o privilégio de assistir à missa de aniversário presidida pelo Padre Esteves e cantada pelo Grupo Coral de Nossa Senhora de Fátima de Laval. As festividades tiveram início na sexta-feira com a missa de aniversário presidida pelo Padre Esteves e cantada pelo Grupo Coral de Nossa Senhora de Fátima de Laval. Logo depois, tivemos a mudança da imagem da sua capela até ao seu andor, que estava divinamente florido com muitas rosas encarnadas. Assim como toda a igreja, que estava excelentemente enfeitada, como nunca tínhamos visto. Ficámos encantados ao ver uma igreja tão bela. É importante notar que, nos últimos anos, tivemos novas capas para o Senhor Santo Cristo dos Milagres. Todos os anos há histórias milagrosas e emocionantes das pessoas que oferecem uma nova capa. Este ano, a capa conta a história de Arthur Sousa e da sua família: “O meu nome é Arthur Sousa, e hoje estou aqui diante de vocês com orgulho, gratidão e uma profunda emoção. Este ano marca um momento histórico — o 60.º Aniversário do Senhor Santo Cristo em Montreal. Durante seis décadas, esta devoção viajou connosco — atravessou oceanos, atravessou gerações e encontrou um lar no coração desta comunidade. Este ano, tenho a honra de oferecer a capa. E esta capa conta uma história — a história da minha família e, de certa forma, a história de todas as famílias açorianas que construíram aqui a sua vida. O desenho da capa começa com as raízes da vida. Essas raízes representam de onde eu venho — os Açores, a terra que me formou, a fé que me guiou e os sacrifícios dos meus pais e avós. São raízes fortes, profundas e inquebráveis. Dessas raízes nasce uma árvore genealógica dourada. E nos seus ramos estão os nomes das pessoas que dão sentido à minha vida: • A minha esposa, Fátima, o coração da nossa casa • Os meus filhos: Kevie, Vanessa, Brendan e Carolina • As minhas netas: Alessandra e Valentina, os ramos mais novos da nossa árvore e o futuro da nossa família • E os meus genros e nora, Anthony e Amanda — não ligados por sangue, mas essenciais no crescimento da nossa árvore familiar Cada nome bordado nesta capa é uma bênção. Cada nome é uma oração. Cada nome é um lembrete do caminho que percorremos — e de quanto fomos protegidos e guiados pelo Senhor Santo Cristo. A oração dentro da capa expressa tudo aquilo que um pai deseja para a sua família: paz, saúde, sabedoria, compaixão e o pão de cada dia. É uma oração de agradecimento pelo que temos e uma oração de protecção para as gerações que ainda virão. Hoje, neste 60.º aniversário, esta capa torna-se mais do que uma oferta familiar. Torna-se um símbolo de continuidade — uma ponte entre o passado e o futuro. Honra a devoção daqueles que chegaram a Montreal há décadas e leva essa devoção adiante, para os nossos filhos e netos. Aos meus filhos e netos — os vossos nomes estão aqui porque vocês são os meus ramos. Vocês são a continuação de tudo o que os nossos antepassados plantaram. Vocês são a razão pela qual esta árvore continua a crescer. E à nossa comunidade — que esta capa nos lembre que partilhamos as mesmas raízes, a mesma fé e a mesma devoção que sustentou o nosso povo através de oceanos e gerações. Que o Senhor Santo Cristo abençoe todas as famílias aqui presentes. Que Ele abençoe os nossos filhos, os nossos netos e todos aqueles que virão depois de nós. E que este 60.º aniversário seja uma celebração não só do nosso passado, mas também do nosso futuro. Muito obrigado.” Tivemos, em primeiro lugar, o privilégio de assistir ao concerto da Filarmónica do Divino Espírito Santo de Laval.
Depois, a comunidade açoriana de Montreal viu, pela primeira vez e com grande entusiasmo, uma das vozes mais acarinhadas da nova geração da música popular açoriana. Rui Rego, artisticamente conhecido como Rui Açoriano, esteve presente nas Grandes Festas do Senhor Santo Cristo, trazendo consigo a energia, a emoção e o orgulho das ilhas açorianas, vindo directamente dos Açores. Com apenas 33 anos, Rui Açoriano já conquistou um lugar especial no coração da diáspora portuguesa. Bombeiro de profissão e cantor por paixão, o artista transporta em cada canção a alma do povo açoriano, cantando temas marcados pela saudade, pelo amor às raízes e pela alegria das tradições populares.
Mais do que um cantor, Rui Açoriano representa hoje uma ponte entre os Açores e a diáspora. A sua música traz consigo o cheiro do mar, o som das festas populares e a emoção de um povo que continua a carregar os Açores no coração, esteja onde estiver.
Para finalisar esta linda noite tivemos o previlégio de ter Rodrigo Leal e a sua banda onde a comunidade portuguesa de Montreal viveu uma noite memorável nas grandiosas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, onde o cantor Rodrigo Leal brilhou com um espectáculo cheio de emoção, energia e saudade portuguesa.
A actuação integrou as celebrações do Jubileu de Diamante dos 60 anos desta tradicional festa açoriana realizada na Missão Santa Cruz, um dos eventos mais importantes da comunidade portuguesa em Montreal. Com uma presença calorosa em palco e uma ligação muito próxima ao público, Rodrigo Leal encantou os presentes ao interpretar temas que fizeram cantar e emocionar várias gerações.
O ambiente vivido foi de verdadeira festa popular portuguesa, marcado pela união, alegria e orgulho nas raízes culturais.
O espectáculo foi recebido com enorme entusiasmo pelo público, que encheu o recinto e acompanhou cada música com aplausos e muita animação. Entre momentos de nostalgia e celebração, a noite confirmou mais uma vez a força da cultura portuguesa além-fronteiras e o carinho especial que Montreal tem pelos artistas da nossa comunidade.
No sábado, às 14h30, foram convidados todos aqueles que ajudaram directa ou indirectamente nas festividades do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Empresas, organismos, voluntários e pessoas de bom coração reuniram-se num momento simples, mas profundamente emotivo, marcado pela gratidão e reconhecimento. Cada pessoa presente recebeu uma pequena lembrança, símbolo sincero de agradecimento por toda a dedicação, generosidade e amor demonstrados ao longo destas festividades. Porque por detrás de uma grande festa existem sempre mãos invisíveis, corações dedicados e muitas horas de trabalho feitas com fé, carinho e espírito de comunidade. Foi um momento tocante, onde se sentiu verdadeiramente a união da comunidade portuguesa de Montreal. Sem estas pessoas — que oferecem o seu tempo, apoio e amizade — seria impossível manter viva uma tradição tão importante e tão querida por todos nós. Mais do que uma simples homenagem, este gesto representou o reconhecimento de uma comunidade inteira para com aqueles que continuam, ano após ano, a manter viva a chama da fé, da cultura e das raízes açorianas longe da nossa terra.
Ao chegar ao recinto da Igreja de Santa Cruz no sábado à tarde, já havia bastante gente a ouvir o ensaio dos artistas da noite, Jorge Ferreira e a sua banda. Por curiosidade, entrei então na igreja e qual não foi a minha surpresa ao vê-la decorada com arranjos de verdura e rosas vermelhas maravilhosas. Os ornamentos adornavam tanto o altar como cada lado da porta principal, e estavam também pendurados nas paredes, onde uma fita grená decorava os dois muros laterais. Além disso, do lado direito do altar, podia-se apreciar uma exposição de antigas capas do Santo Cristo. A igreja estava tão linda como eu nunca a tinha visto. O recinto encheu-se por volta das cinco horas da tarde, à espera da mudança da imagem do Senhor Santo Cristo.
A Mudança da Imagem, sendo um dos rituais mais solenes e simbólicos das Festas do Senhor Santo Cristo, foi acompanhada pelo Grupo Coral de Santa Cruz e pela Filarmónica de Montreal. O imponente andor do Senhor Santo Cristo, que pesa centenas de quilos, saiu à rua erguido pelos ombros e pela fé de muitos homens. A estrutura apresentou-se magnificamente decorada com rosas vermelhas, cujo brilho e perfume emolduraram a imagem e emocionaram os fiéis à sua passagem.
Num silêncio de respeito, a procissão cumpriu o seu trajeto e o imponente andor regressou à igreja, seguindo-se a bênção das motas. Depois, na missa solene, o Padre Carlos Dias proferiu uma homilia especial focada nas dificuldades das famílias e na importância crucial de dar tempo aos filhos — um momento que me impressionou imenso.
A noite trouxe o brilho dos festejos, que contaram com um brilhante concerto da Filarmónica de Montreal e um momento de profundo agradecimento aos patrocinadores, cujo apoio tornou este evento possível. A grande celebração seguiu com o muito aguardado espetáculo de Jorge Ferreira, terminando em clima de grande animação e convívio com o baile animado pelo DJ Ilhas de Bruma.
Domingo, a emoção e a solenidade atingiram o seu expoente máximo com a celebração da Missa Solene do Jubileu.
A Eucaristia foi presidida por Sua Excelência Reverendíssima, o Bispo dos Açores, D. Armando Esteves Domingues, cuja presença pastoral honrou profundamente a comunidade luso-canadiana neste importante aniversário. O prelado esteve acompanhado pelo pároco responsável, o Padre Adam Laskarzewski, e pelo Grupo Coral do Santo Cristo, que com os seus cânticos e devoção elevou o espírito de todos os fiéis presentes na igreja.
A tarde ficou marcada pela imponente procissão solene, que contou com a participação ativa de diversas associações da comunidade, todas devidamente acompanhadas pelas bandas filarmónicas que ditaram o ritmo de fé e devoção ao longo do percurso. No centro de todos os olhares seguia o majestoso andor do Senhor Santo Cristo. Toda a segurança e organização do evento contaram com o crucial apoio da polícia local e com o trabalho incansável de muita gente voluntária, onde se destacaram muitos jovens, cuja energia e dedicação garantiram o sucesso e a beleza deste grande testemunho de fé na diáspora.
Logo à chegada, o Rancho Provinciais e Ilhas de Portugal, vindo de Hamilton, Ontário, proporcionou um espetáculo verdadeiramente memorável, apresentando várias danças folclóricas de Portugal continental, dos Açores e da Madeira. Foi um momento cheio de cor, alegria e emoção, que encantou profundamente todos os presentes e trouxe um verdadeiro espírito de saudade e orgulho das nossas raízes.
Logo depois, pela primeira vez, Eddy Sousa e Tony Michael apresentaram a sua nova canção “Vamos Lá Portugal”, num momento vivido com enorme entusiasmo e orgulho português. Em perfeita sintonia com o público, convidaram ainda o rancho folclórico a subir ao palco para dançar, criando um ambiente de grande festa, tradição e união. Foi um daqueles instantes únicos em que a música, a cultura e a comunidade se fundem num só coração português.
Mario Carvalho fez uma alocução e homenagem com grandes emoções e amor a estas grandiosas festividades históricas e enviou-nos isto:
“Na vida, nada acontece por acaso. Esta é uma verdade que atravessa gerações e que se confirma, sobretudo, nos momentos em que uma comunidade se vê desafiada a defender aquilo que lhe dá identidade, memória e sentido de pertença.
A comunidade portuguesa no Quebeque viveu recentemente um desses momentos.
À semelhança das flores silvestres que brotam nos campos — simples, resistentes e muitas vezes injustamente desprezadas — também a nossa devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres tem enfrentado tentativas de ser arrancada das raízes culturais que há 60 anos se fincaram em Montreal.
Nesta época do ano, os campos quebequenses enchem-se de flores amarelas que poucos apreciam. Não pedem cuidados, não exigem fertilizantes, não dão trabalho. Ainda assim, muitos tentam arrancá-las. Mas elas voltam sempre. Crescem de novo. Persistem.
Tal como a fé de um povo.
Foi isso que se viu quando, poucos dias antes das festividades em honra do Senhor Santo Cristo, as autoridades do Plateau-Mont-Royal hesitaram em conceder a licença para a tradicional procissão. Uma tradição que não é apenas religiosa: é histórica, cultural e profundamente identitária.
Mas há forças que não se explicam — apenas se sentem. E foi essa força que iluminou Emanuel Linhares, que se ergueu com determinação para defender a continuidade da procissão.
Encontrou argumentos, abriu portas, convenceu quem precisava de ser convencido. E a procissão saiu à rua. Como sempre. Como deve ser.
E, como diz o ditado, há males que vêm por bem. A tentativa de travar a procissão acabou por unir a comunidade como nunca antes.
A imprensa, as rádios, as televisões e as redes sociais falaram de nós — e falaram bem. Milhares de fiéis compareceram às festividades, num testemunho de fé e pertença que superou todas as expectativas.
Sou parte desta história. Sou descendente daquela gente que, há seis décadas, trouxe para Montreal a devoção ao Senhor Santo Cristo. Uma devoção que, tal como as flores amarelas dos campos, criou raízes profundas nos corações dos portugueses — sejam dos Açores, do Continente, da Madeira ou de qualquer canto do mundo onde a saudade se faz casa.
Podem tentar arrancá-la. Podem tentar silenciá-la. Mas não conseguirão.
Porque o Senhor Santo Cristo é, para esta comunidade, mais do que uma imagem: é união, é força, é consolo. É o rosto do sofrimento que, no seu olhar, transmite alegria, paz e amor. É o remédio para as dores que a medicina não sabe curar. E, no final, até as roseiras contribuíram para o milagre, oferecendo as rosas encarnadas que adornaram o altar. Pequenos gestos que, juntos, constroem a grandeza de uma tradição que não se deixa apagar”.
A noite das festividades ficou marcada por momentos de grande animação, emoção e talento, reunindo diferentes gerações num ambiente de verdadeira celebração da cultura portuguesa.
As atuações de Marly e Sérgio deram início ao espetáculo com grande energia e sensibilidade, conquistando o público desde os primeiros momentos. Com interpretações cheias de sentimento e uma forte ligação à música, aqueceram o ambiente e prepararam o palco para uma noite inesquecível.
Seguiu-se um grande concerto do Conjunto Starlight e Tony Melo, que trouxeram ritmo, alegria e uma verdadeira onda de festa ao recinto. O público respondeu com entusiasmo, cantando e dançando ao som de temas que fazem parte da memória musical de muitos emigrantes. Foi um momento alto da noite, onde a tradição e a modernidade se encontraram em perfeita harmonia.
Para encerrar a programação musical, o DJ Alex Moreira assumiu os comandos da pista, mantendo a energia até ao último minuto com uma seleção musical vibrante que fez todos permanecerem em clima de festa.
Como surpresa especial da noite, o público foi brindado com a presença de Jason Coroa, finalista do concurso canadiano La Voix, que interpretou três canções de forma brilhante, deixando todos os presentes emocionados e rendidos ao seu talento. A sua atuação inesperada foi um dos pontos mais marcantes da noite, arrancando fortes aplausos e grande admiração.
Quero agradecer pessoalmente, e em nome de toda a equipa do jornal A Voz de Portugal, dando os maiores parabéns a todos aqueles que trabalharam incansavelmente durante este fim de semana inesquecível. Um agradecimento muito especial ao Roberto Carvalho, à sua esposa e a toda a extraordinária organização da Associação Saudades da Terra Quebequente, que com tanta dedicação, amor, fé e espírito de comunidade conseguiram realizar umas celebrações verdadeiramente históricas para assinalar os 60 anos do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Foram dias de enorme emoção, união e orgulho nas nossas raízes açorianas e portuguesas. Por detrás de cada momento vivido, de cada sorriso, de cada aplauso e de cada lágrima de emoção, estiveram pessoas que deram o seu tempo, a sua energia e o seu coração para que tudo fosse perfeito. Estas festividades não foram apenas um evento. Foram uma demonstração viva da força da nossa comunidade, da nossa fé e da capacidade que temos de manter as nossas tradições bem vivas, mesmo longe da nossa terra.
Ao mesmo tempo, queremos agradecer a todos os patrocinadores que contribuíram generosamente para o sucesso destas festividades, nomeadamente a Worlée, a Caixa Portuguesa Desjardins, a Ferma e muitos outros que deram um apoio fundamental para que tudo decorresse com enorme sucesso. Sem esquecer os convidados de honra tal como o Dr. Paulo Estevão, Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, e o Dr. José Andrade, Diretor Regional das Comunidades, o Bispo dos Açores D. Armando Esteves Domingues, Francisco Vale César do PS dos Açores, Ruben Filipe Sousa Melo presidente da Junta de Freguesia da Ribeira Quente e o nosso amigo Carlos Botelho que veio expressamente para as nossas festas entre outros.
Obrigado por nos proporcionarem momentos tão especiais, que ficarão para sempre gravados na memória e no coração de todos os que tiveram o privilégio de participar nestas celebrações históricas.