As recentes leis sobre a laicidade impostas pelo governo do Quebec continuam a provocar fortes debates e um crescente sentimento de injustiça entre muitos cidadãos, particularmente no seio das comunidades católicas que sentem que as suas tradições, símbolos e manifestações religiosas estão cada vez mais a ser alvo de restrições e ataques indirectos.
O caso recente da procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no Plateau-Mont-Royal, veio reacender esta preocupação. Durante 60 anos, esta celebração reuniu milhares de pessoas num ambiente pacífico, familiar e respeitador. Nunca representou um problema de segurança, de convivência ou de ordem pública. Pelo contrário, tornou-se um símbolo vivo da herança portuguesa e da diversidade cultural de Montreal.


No entanto, bastou a entrada em vigor das novas medidas ligadas à laicidade para surgir a confusão, a incerteza e os obstáculos burocráticos. Muitos perguntam-se hoje como é possível que tradições religiosas históricas, profundamente enraizadas na identidade de uma comunidade, passem agora a ser tratadas como situações problemáticas ou incómodas.
Para muitos cidadãos, o problema não está na laicidade em si, mas na forma como ela parece ser aplicada de maneira desigual. Existe um sentimento crescente de que o governo do Quebec demonstra uma rigidez muito maior perante o catolicismo e as tradições cristãs, enquanto noutras situações prefere adoptar uma postura mais prudente e silenciosa.
O Quebec foi construído sobre raízes cristãs e católicas. Igrejas, festas religiosas, tradições populares e valores transmitidos ao longo de gerações fazem parte da própria história da província. Tentar apagar ou enfraquecer essa herança em nome de uma interpretação extrema da laicidade é, para muitos, um erro grave que cria divisões em vez de união.
A comunidade portuguesa conhece bem esta realidade. Durante décadas, famílias portuguesas trabalharam arduamente para construir uma vida melhor em Montreal. Contribuíram para a economia, abriram empresas, criaram empregos e ajudaram a desenvolver bairros inteiros como o Plateau-Mont-Royal. As suas festas religiosas nunca foram apenas actos de fé, mas também momentos de união familiar, cultura e identidade comunitária.
É por isso que muitos sentem hoje uma profunda tristeza ao verem tradições históricas colocadas em causa por decisões políticas e administrativas. Os direitos adquiridos e o respeito pelas comunidades não deveriam desaparecer com o passar do tempo nem ficar dependentes de interpretações burocráticas.
A laicidade deveria servir para garantir liberdade e respeito para todos, e não para marginalizar ou silenciar uma religião que faz parte da história e da identidade do Quebec. Quando leis acabam por criar a percepção de que certas manifestações católicas são indesejadas, o resultado não é inclusão, mas sim ressentimento e divisão social.
O verdadeiro viver em conjunto constrói-se através do respeito mútuo, da compreensão e da valorização das tradições que ajudaram a formar Montreal e o Quebec. E nenhuma sociedade se fortalece apagando a sua própria memória cultural e religiosa.
Este ano foi difícil chegar à realização desta festa sem quaisquer problemas, mas, quanto aos próximos anos, ninguém sabe ao certo o que poderá acontecer.
A presidente do arrondissement do Plateau-Mont-Royal, Cathy Wong, enviou uma mensagem tranquilizadora à comunidade portuguesa:
“Até lá, gostaria de tranquilizar a comunidade portuguesa, assegurando que a procissão terá efectivamente lugar este fim-de-semana no Plateau-Mont-Royal, com o acompanhamento do SPVM para garantir a segurança dos participantes. Agradecemos ao nosso Posto de Bairro 38. Há 60 anos que a procissão reúne famílias, gerações inteiras e vizinhos do Plateau. Organizada em torno da Missão Santa Cruz, reúne anualmente cerca de 2000 pessoas num espírito de respeito e paz. A procissão não é um problema a gerir. É uma tradição que deve ser acompanhada com sensibilidade e respeito”.
2027 vamos continuar nesta pressão até que o governo aceita sem problemas a nossa herança cultural.
