Bruno Fernandes é líder, Cristiano é capitão

Pedro Jorge da Cunha
Jornalista em Portugal | zerozero.pt


«Campo Pelado» é o espaço de opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Uma homenagem ao futebol mais puro, mais natural, onde o prazer da camaradagem é a única voz de comando. «Campo Pelado».
A entrevista de Bruno Fernandes ao Canal 11 é extraordinária. Na sensibilidade demonstrada pelos mais débeis, na paixão assumida pelo futebol em todas as suas dimensões: da Liga dos Campeões e do Mundial até aos regionais, por onde se passeia o não menos fabuloso Cândido On Tour, do meu querido Cândido Costa – um dos entrevistadores.
Mas não é só por isso. Bruno não efabula o estatuto de excelência que ostenta, desportiva e financeiramente, não perde a consciência desse seu estado de exceção. Fala com respeito sobre a fortuna acumulada e a carreira construída, percebendo – e nunca menorizando – de onde veio, sem necessidade de vasculhar a garagem onde outros guardam e publicitam Bugattis, Lamborghinis e Aston Martins.
Bruno fala de tudo, sem assombrações, descomplexado. Fala como um líder, um grande líder.
O convite do FC Porto, a tentativa do Benfica de desviá-lo de um Sporting doente, mas também a abertura sentida por parte do Manchester United em deixá-lo sair para a distopia futebolística das arábias.
O médio da Seleção Nacional teve essa possibilidade de El Dorado nas mãos mas, como bem diz, aufere já um salário faustoso em Old Trafford e pisa semanalmente os relvados mais desejados do planeta-futebol, olhos nos olhos com equipas a sério.
Bruno não cai na armadilha da hipocrisia. Assume, sim senhor, que um dia mais tarde lá poderá seguir os passos precipitados e precoces – digo eu – de Rúben Neves e João Félix, mas percebe-se que esse cenário pouco ou nada o entusiasma. Precisamente por ser o palco de um futebol artificial, insuflado pelas promessas de esmeraldas, rubis e demais tesouros, erguidos sabe-se lá a troco do quê. O precipício civilizacional.
Lúcido, certeiro nas palavras, não teme o elogio puro aos colegas de seleção – João Neves e Bernardo Silva, mas também aos mais antigos Beto, Bruno Alves e José Fonte – e mostra ser merecedor da braçadeira de capitão, assim que o eterno Cristiano entenda sair de cena.
Por falar em Cristiano, valerá a pena comparar a riqueza – sempre a riqueza – e o humanismo do discurso de Bruno, um rapaz bom da Maia, com a mania das grandezas, a disenteria verbal e a necessidade de auto-elogio do camarada madeirense.
Onde em Bruno identifico simplicidade – não confundir com banalidade -, pés na terra, genuína preocupação por ser correto, no avançado do Al Nassr vejo só umbiguismo, ignorância e uma profunda cegueira ideológica no desfasamento entre os petrodólares e o mundo real.
Bruno é líder, Cristiano é capitão. Dois homens radicalmente diferentes.
Cândido Costa, ele próprio um exemplo de bonomia, resume o primeiro de forma certeira.
«Quando o capitão do Manchester United fala do jogo que se joga longe dos holofotes, do futebol da base da pirâmide, do jogador-trabalhador que sai do emprego e vai direto para o campo, há ali qualquer coisa rara: consciência.»
Obrigado, Bruno. Obrigado, Cândido.

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