Cristiano Ronaldo decidiu quebrar o silêncio sobre a saída do estágio da Seleção e explicar, na primeira pessoa, o que aconteceu entre si e Jorge Jesus. Num longo comunicado divulgado esta terça-feira, o capitão português revela os detalhes das conversas com o selecionador e acusa-o de ter quebrado por duas vezes a palavra que lhe tinha dado.
Ronaldo começa por recordar que, depois do Mundial 2026, Pedro Proença lhe pediu para continuar ao serviço da Seleção e chegou a consultá-lo sobre o novo selecionador. «Em minha opinião, seria a escolha certa», afirma o avançado sobre a escolha de Jorge Jesus, garantindo que ficou «genuinamente feliz» com a nomeação.
No primeiro encontro com Jesus, Ronaldo diz ter recebido garantias claras sobre o seu papel na equipa.
«Disse-me que contava comigo, que a minha presença era fundamental e apresentou-me o plano que tinha pensado para mim», revela. O plano passava por jogar o primeiro e o último encontro, com uma gestão física ao longo dos jogos. Jesus chegou mesmo a propor que Ronaldo não viajasse para a Noruega e Dinamarca, ficando em Portugal, mas o capitão recusou por entender que «não seria um bom exemplo».
«O selecionador tinha-me falhado com a sua palavra»
O episódio que viria a desencadear a saída aconteceu na Noruega. Ronaldo conta que Jesus lhe perguntou se estaria disponível para jogar 30 minutos e que aceitou, apesar de o pedido não estar previsto no plano inicial.
«Respondi que sim, embora isso não estivesse previsto no plano de recuperação. Fiquei disponível e comecei a aquecer desde o intervalo», relata.
«Vi os minutos a passar e não fui chamado. O selecionador tinha-me falhado com a sua palavra», escreve Ronaldo, acrescentando que reconhece ter cometido um erro no final do encontro ao não cumprimentar os adeptos portugueses.
A reunião e o que ficou combinado
Dois dias depois, Ronaldo reuniu-se com Jorge Jesus e Simão Coutinho para esclarecer o sucedido. Segundo o capitão, ficou combinado que o selecionador explicaria publicamente o que tinha acontecido.
«Ficou combinado que o selecionador diria que tinha sido ele próprio a propor aquele plano, que eu nunca lhe tinha pedido minutos e que tinha sido um erro colocar-me a aquecer e depois não me utilizar», afirma.
Ronaldo revela ainda que Jesus terá reconhecido o erro cometido. Entre os pontos que, segundo o jogador, tinham sido preparados para a conferência de imprensa estava uma afirmação particularmente forte: «Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.»
«Decidi abandonar o estágio»
O capitão português garante que aquilo que Jesus disse publicamente acabou por ser muito diferente do que tinha sido acordado na reunião.
«A postura não teve nada a ver com a nossa reunião. Ouvi expressões e uma agressividade que considero que não mereço, sobretudo depois daquilo que tínhamos conversado», acusa.
Ronaldo considera que esse momento representou uma segunda quebra de confiança por parte do selecionador. «Era a segunda vez que me estava a faltar à palavra dada. Foi nesse momento que decidi abandonar o estágio, porque percebi que não podia continuar naquele contexto», explica.
Ronaldo rejeita interferência nas decisões técnicas
O avançado desmente ainda qualquer ideia de que tenha tentado interferir nas decisões de Jorge Jesus.
«Nunca interferi numa decisão técnica ou tática de qualquer treinador. A única coisa que sempre pedi foi que me dissessem a verdade, mesmo quando essa verdade não fosse aquilo que eu queria ouvir», garante.
Ronaldo revela também que, na manhã da conferência de imprensa, perguntou diretamente a Pedro Proença e a Jorge Jesus se já não o queriam na Seleção.
«A resposta de ambos foi que o meu lugar era na equipa e que contavam comigo», escreve.
Apesar de assumir responsabilidade pela decisão de abandonar o estágio, o capitão pede desculpa aos companheiros.
«Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar da absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador, como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito», admite antes de pedir perdão aos portugueses.
«A responsabilidade é exclusivamente minha. Peço desculpa aos portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí», acrescentou.
O futuro ao serviço de Portugal
Cristiano Ronaldo reconhece que a decisão de abandonar o estágio poderá ter consequências disciplinares e deixa claro que não pretende procurar justificações para evitar uma eventual sanção. O capitão português assume a responsabilidade pelo que fez e aceita que a decisão poderá ser analisada à luz dos regulamentos.
«Sei que não há atenuantes para o que fiz. Sei que haverá consequências e estou preparado para as assumir», admite Ronaldo, que, ainda assim, considera que a quebra de confiança que descreve explica a decisão que tomou.
O avançado garante que não pretende fugir às consequências da sua atitude, mas deixa igualmente claro que isso não significa que tenha decidido afastar-se da Seleção.
«Depois de cumprir a suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção», assegura. Ronaldo reforça, desta forma, que continua a querer representar Portugal e que a sua prioridade passa por competir, deixando para mais tarde uma eventual despedida.
«Haverá tempo para um ou mais jogos de despedida, mas neste momento penso sobretudo em jogar, competir e ganhar», disse ainda.
Ronaldo termina o longo comunicado com uma última garantia dada pelo próprio.
«Esta é, acreditem, a mais pura das verdades», conclui.
