Vozes do ano que está a findar


O ano de 2025 está a findar e apresentou-se como um tempo em que a política, a cultura e a criação artística pareceram convergir num mesmo movimento. Não foi um ano de gestos ruidosos, mas de afirmações, em que se tornaram visíveis escolhas, percursos e compromissos lentamente preparados. Olhando-o agora a uma distância curta, uma retrospetiva impõe, percebendo-se que foi um ano em certos domínios, de revelação.
No plano político, as eleições nacionais e autárquicas constituíram o eixo mais evidente dessa clarificação. O Partido Social Democrata emergiu como vencedor, tanto no Continente como na nossa Região, desenhando um mapa político marcado pela confiança num projeto de governação assente na estabilidade, na responsabilidade e numa leitura pragmática dos desafios contemporâneos. Nos Açores, em particular, a vitória do PSD adquiriu um valor simbólico acrescido: afirmou uma visão de autonomia exigente, consciente da sua singularidade, e naturalmente integrada numa ideia de País que se quer desenvolvido e em busca dos patamares de desenvolvimento europeus.
Paralelamente, 2025 revelou-se extraordinariamente fértil no plano cultural e intelectual. O lançamento do meu livro O Senhor na Coluna constituiu para mim um momento central do meu percurso. Mais do que uma obra literária, o livro afirmou-se como dispositivo de reflexão sobre a memória, o rito e a palavra, servindo de base à candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Esse processo representou um reconhecimento do valor da criação enquanto gesto de preservação ativa, capaz de dialogar com a tradição, a avaliar pelo prefácio de Manuel Lemos e posfácio de Duarte Chaves.
A vitalidade cultural do ano manifestou-se igualmente no campo da música. A participação do grupo de cantares Vozes do Mar do Norte no Festival Tremor foi um dos momentos mais intensos e celebrados de 2025, traduzindo-se num sucesso incontestável. A força performativa, aliada à densidade simbólica e identitária do projeto, confirmou a capacidade para produzirmos propostas artísticas contemporâneas de alcance universal, sem abdicar das nossas raízes.
Importa igualmente sublinhar o papel do Festival Música do Colégio, que se afirmou como um momento marcante na dinamização cultural de Ponta Delgada. A sua programação diversificada e exigente devolveu centralidade ao espaço urbano como lugar de escuta, encontro e fruição artística, contribuindo de forma decisiva para o reforço de uma cidade culturalmente ativa e intelectualmente desperta.
No domínio da música sacra, assinalou-se ainda a participação inédita da Escola Diocesana de Música Sacra nas Festas do Senhor Santo Cristo. Este momento marcou não apenas uma estreia institucional, mas também o reencontro entre formação, liturgia e comunidade, devolvendo à celebração uma dimensão estética e espiritual de rara elevação.
O ano foi igualmente marcado por relevantes acontecimentos editoriais e expositivos. A editora Araucária, dirigida por Blanca Martín-Calero, lançou Vulcões, um livro que cruza fotografia artística e diálogos científicos, estabelecendo uma ponte rigorosa e sensível entre ciência e arte. Já no Museu Carlos Machado, Andreia Santolaya inaugurou a exposição-instalação A ilha de Sam Nunca, um périplo visual construído a partir de imagens captadas entre 2017 e 2024. Trata-se de uma narrativa fotográfica de grande densidade dramática e psicológica, onde a fragmentação do território, a força dos elementos naturais, os rituais, as crenças e o sagrado emergem como matéria viva de reflexão sobre as ilhas açorianas.
Assim, 2025 impõe-se como um ano em que a política encontrou rumo, a cultura ganhou espessura e a criação artística soube interpelar o presente sem romper com a memória. Contudo, este exercício de balanço não pode ignorar o pano de fundo inquietante que marcou o mundo ao longo de 2025. A guerra continuou a entrar pelas nossas portas dentro com as televisões a noticiarem o que se foi passando na martirizada Ucrânia e Facha de Gaza, atravessando o quotidiano global como uma sombra persistente. São conflitos prolongados, incapazes de encontrar solução diplomática duradoura, que mantiveram populações inteiras reféns da destruição, do deslocamento forçado e da precariedade absoluta.
Num tempo em que as novas tecnologias prometem ajudar a acelerar consensos, a permanência da violência armada revelou, com crueza, os limites éticos e políticos dos que se dizem donos do Mundo. Este contraste entre a estabilidade procurada e a instabilidade no cenário global reforçou a consciência de que nenhuma paz se atinge sem que os homens deem as mãos e haja vontade de construírem um Mundo melhor.

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