A mudança… ou não?


Na minha visão empírica da realidade e de alguma experiência pessoal, e portanto sujeita a toda a crítica do amigo leitor, qualquer mudança que se queira instituir num grupo de pessoas, seja este grupo uma simples associação de amigos ou uma sociedade inteira, só se faz com sucesso se a mentalidade adequada a essa mudança estiver instalada ou for trabalhada para tal.
Para isso deve haver uma predisposição a priori que permita o desabrochar dessa mentalidade para que a construção subsequente seja efetivamente uma melhoria face ao estado anterior à mudança.
Se não houver este processo de preparar o terreno, como o bom agricultor faz para uma colheita proveitosa, o risco de perdermos a sementeira da mudança é bastante elevado.
Não raro as grandes revoluções profundamente ideológicas e consequentemente afastadas da realidade, acabaram por aproveitar as instituições do regime precedente para instaurar uma nova forma de regime que mantém a repressão e outros condicionamentos na sociedade.
É lógico, pois estando o mecanismo instalado, é fácil apenas substituir a orientação sobre a fachada de uma nova promessa moralmente superior e que trará benefícios a todos.
Um dos exemplos mais fáceis é o da revolução francesa, que com a pretensão de acabar com o jugo esmagador de uma elite afastada do cidadão comum, acabou por ela mesma ser outro jugo esmagador sanguinário, seguido de outra contra-revolução de um líder imperialista – Napoleão – que acabou com a sua ambição desmedida e expansiva causar imensos estragos pela Europa.
Outro exemplo é Hitler, brotando na situação economicamente difícil que Alemanha pós primeira grande guerra vivia, esmagada economicamente e no seu orgulho, viveu a revolução nacional-socialista como a salvação para os seus males, mal percebendo o fruto nefasto desta semente.
Em ambos os casos verificamos que as emoções e o entusiasmo inicial mascararam os sinais já na altura preocupantes do que se seguiria.
Em suma, a vontade de mudança estava lá, mas não estava a mentalidade propícia à nova fase que se deveria seguir, dentro da harmonia e respeito que todos os seres humanos se devem.
Nesta situação, muda-se o rei mas não se muda o reinado. Como ver então esta intervenção dos EUA na Venezuela?
Certamente que ninguém – exceto aqueles iludidos pela ideologia ou avessos aos americanos – discordará que Nicolas Maduro é um usurpador e que deve enfrentar a justiça pela sua criminosa liderança.
Nunca esqueço uma recém-chegada imigrante da Venezuela aqui ao Quebec em conversa num grupo manifestar o seu desalento, a sua tristeza e incompreensão com as notícias que recebia do sítio onde tinha morado, com pessoas que se envolviam em cenas de violência por roubos de galinhas pela falta de alimentação que já se sentia, há mais de doze anos atrás, num país que ela reconhecia que ainda poucos anos antes vivia-se bem! Portanto, a condenação ao regime de Chavez e Maduro não é difícil de aceitar.
A questão está é no porvir. As declarações do presidente americano tiveram alguns aspetos preocupantes.
Será que vamos passar de um regime socioeconomicamente opressor para um regime economicamente opressor?
São as riquezas naturais da Venezuela o verdadeiro móbil desta ação?
Esta ação aparentemente viola legalmente as leis dos EUA, segundo alguns comentários, e violará também a lei internacional.
Mas o anúncio do presidente americano após a intervenção levanta bastantes dúvidas, ao referir que “dirigirão” o país, ou que o regime instalado, que se mantém pois a única pessoa removida foi o seu líder máximo antagónico aos interesses americanos, deverá aceitar as indicações americanas. Será o preço a pagar a Venezuela tornar-se um estado fantoche?
Se sim, fica a ação moral e eticamente sem qualquer fundamento e estaremos entregues a um novo mundo, onde os interesses financeiros e económicos comprarão as opções nacionais e internacionais, sem qualquer respeito pelas liberdades individuais.
É certo que até agora havia essa pressão, mas havia consciência também que não se deveria passar determinados limites.
Pois bem, esses limites estão a ser sistematicamente removidos, e pouco resta deles. Voltando ao início, há que haver a mentalidade de mudança e trabalho a ser aplicado nesse sentido. Ao manter dignatários do regime de Chavez-Maduro, sem qualquer indicação de uma mudança de direção do mesmo, a única coisa que resta é a chantagem sobre os recursos naturais.
Mau prenúncio. Ainda que possamos celebrar a remoção de um ditador, a substituição não augura nada de bom.

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