Raul Brandão


Estimados leitores,
Este espaço do vosso jornal tem por missão celebrar e divulgar autores de língua portuguesa, quer sejam naturais de Portugal, quer integrem a vasta e vibrante diáspora lusófona. Procuramos apresentar cada autor com o respeito que a sua obra merece, partilhando breves notas biográficas e excertos significativos dos seus escritos, que nos chegam, na sua maioria, através da Biblioteca José d’Almansor, em Montréal.
Contamos igualmente com a valiosa parceria da Biblioteca de Palmela, que tem partilhado connosco autores da região e que já reservou um espaço dedicado à leitura das obras dos nossos luso-canadianos — um gesto que muito nos honra e que resulta do empenho contínuo da nossa rubrica Entre Nós.
A rubrica é apresentada na Rádio Centre-Ville, todas as últimas quartas-feiras do mês, na emissão Notas de lá e de cá. Contudo, sabendo que nem sempre é possível acompanhar a rádio, apesar das várias opções disponíveis, decidi trazer este mesmo trabalho para as páginas de A Voz de Portugal, oferecendo-vos assim a oportunidade de conhecer, com maior tranquilidade, a produção literária de alguns dos nossos autores portugueses.


Hoje falamos de uma das obras maiores de Raul Brandão, Os Pescadores, livro incontornável da nossa literatura, publicado oito vezes por diferentes editoras entre 1923 e 2010, e que continua a iluminar a vida das comunidades marítimas com uma força rara.
E porque o mundo atravessa um momento que pede silêncio, cuidado e esperança, terminaremos com um poema-oração de que gostamos particularmente — uma pequena âncora espiritual que nos lembra a importância de permanecer juntos, atentos e humanos.
Raul Brandão nasceu em 1867 e, contrariamente aos escritores da sua geração — tais como Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Castro, Fernando Pessoa, Eça de Queirós e outros — que eram descendentes da alta burguesia ou até mesmo da aristocracia portuguesa, Raul Brandão era descendente de pescadores da Foz do Douro. Ele pertencia à geração que viveu entre o simbolismo e o modernismo. Tinha alma de poeta, mas apreciava as cores e dizia até: “Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr do sol à beira-mar”.
A sua paixão era, pois, o mar; as suas cores, segundo o tempo e a luz que o banhava, fosse a da lua ou a do sol. Não é, pois, de admirar que ele se debruce sobre o tema dos pescadores.
Neste livro, o autor retrata a faina do mar ao longo da costa portuguesa, de Caminha a Sagres, bem como a vida das comunidades que viviam junto à orla marítima entre 1900 e 1922, sem nunca descurar a participação das mulheres, sempre enaltecendo-as. Trata-se de um conjunto de crónicas, totalizando 365 páginas.
Os Pescadores funciona como um diário das saídas para a pesca entre a Foz do Douro e Caminha, alargando depois o olhar a toda a costa até Faro. O autor descreve ao mínimo detalhe toda e qualquer ida ao mar para a pesca.
A descrição é de um realismo intenso, capaz de provocar calafrios e enjoo, revelando a experiência directa de quem conheceu de perto essas viagens, sobretudo as nocturnas. O narrador escreve: “Não vejo o mar, mas envolve-me e penetra-me o hálito salgado e ouço-lhe ao longe o clamor.”
O autor domina a arte de nos transportar para essa travessia nocturna pelo mar, onde apenas existem vagas e sombras até que se avistam os cardumes que enchem as redes, que podem ser redes de pescar, de volantes, de galricho, segundo o tipo de peixe da zona ou o comportamento de certas espécies quando se encontram presas nas redes.
E assim, desde a Foz do Douro, onde nasceu, passando por Caminha, Ílhavo, Murtosa, Ria de Aveiro, Nazaré, Sesimbra e continuando até Sagres para finalmente chegar a Faro, ele descreve a ida ao mar, os hábitos de pesca e até os tipos de peixe que habitam essas zonas piscatórias, entre 1900 e 1923.
Não obstante a descrição da faina da pesca, o autor mostra também o papel e as responsabilidades das mulheres que permanecem em terra, cuidando dos filhos e dos espaços onde viviam — que, segundo ele, não eram verdadeiras casas, mas locais onde se descansava algumas horas e onde as crianças cresciam quase sem condições.
É evidente, ao longo da obra, a importância da mulher na vida piscatória: primeiro, ajudando a lançar o barco ao mar; depois, participando na recolha das redes quando estas chegam à praia. São ainda elas que se atiram à água, vestidas, com as saias levantadas, o que era impensável naquela época, mas que o faziam sem pudor de mostrar as pernas, para recuperar o peixe, que caía ao mar, com o risco de não poder ser aproveitado.
Eram também elas que transportavam o pescado em canastras, levando-o às ruas, às praças ou de porta em porta, muitas vezes com os filhos presos ao corpo por um largo pano. Sobre os seus ombros recaía a responsabilidade de assegurar a subsistência da família. Os homens, esses, enfrentavam o mar — esse monstro indomável — e, quando regressavam dos dias difíceis, encontravam à porta de casa um refúgio imediato: a taberna.
Segundo o autor, na Nazaré, por exemplo, não era estranho que a mulher batesse no homem, porque tudo o que ele sabia fazer era pescar e, uma vez chegado a terra, metia-se nas tabernas para se encharcar de vinho. “Era lá que elas os iam buscar à paulada”.
Enquanto a mulher da orla marítima da costa oeste, até Setúbal, vendia o peixe que os homens pescavam e mal tinha condições nem tempo para se ocupar dos filhos, a mulher algarvia ficava em casa a cuidar da casa e dos filhos; usava capote preto e, quando saía, cobria a cara como as mouras; aliás, não saía de casa enquanto os maridos estavam no mar, restos da tradição mourisca. No Algarve, a mulher era considerada “a prenda da casa”.
E já agora, uma observação indiscreta: em Olhão, os pescadores daquele tempo (1922) não se contentavam com o peixe que encontravam nas águas entre o Algarve, Gibraltar, Marrocos ou até Alcácer-Quibir; faziam contrabando de tudo o que pudessem, e isso mesmo nas barbas dos polícias, mas eram profundamente religiosos e generosos; tinham um grande sentimento de igualdade.
Em contrapartida, desde Caminha, passando pela Foz do Douro até à Nazaré, o fruto do trabalho dos pescadores — e também das mulheres — era cuidadosamente dividido. A venda de todo o peixe, ou quase todo, ficava a cargo das mulheres, que percorriam as ruas e mercados, muitas vezes encharcadas de salmoura. Apesar desse papel central, recebiam apenas 50 % do valor das vendas. A outra metade era distribuída em quinhões pelos pescadores e pelos arrais, reservando-se sempre uma parte para o chamado “pote”: uma espécie de banco comunitário que amparava aqueles que tinham tido pouca sorte na pesca e garantia algum sustento nos rigorosos dias de Inverno.
Diz o autor que, desde a Caparica, passando por Sesimbra e chegando a Setúbal, já então a pesca começava a transformar-se em indústria; sobretudo em Setúbal, onde as conserveiras ganhavam força e ditavam o ritmo económico da região. Aí, o pescador recebia pouco — apenas aquilo que não interessava à indústria — ficando muitas vezes com o que sobrava do seu próprio labor.
Não poderia terminar esta exposição sobre Os Pescadores sem mencionar alguns termos usados pelos homens do mar para designar o tipo de peixe que cada mar lhes dá: o mar de cartola dá pescada; o Ferralhudo, raia; e o Gata oferece raia e cação.
Esta é uma obra que recomendo vivamente a todos os que amam o mar — sereno ou tempestuoso — e que apreciam o universo que dele nasce, incluindo o peixe. Trata‑se também de um notável exercício de descrição. Registei duas passagens particularmente expressivas, que passo a partilhar convosco: a do nevoeiro e a da onda.
O nevoeiro
Num instante, há sol e o céu é azul; no seguinte, cai a névoa. “Uma barra ao longe anuncia‑o, uma barra que corre em fumarada sobre a terra, ou que se dispersa correndo para o sul, em labaredas sobre o mar esverdeado.”

A onda
“Ela aproxima‑se, cresce e, antes de rebentar em espuma, o sol reveste‑a de uma armadura de aço reluzente. Há ondas de um esverdeado de alga morta, outras que se desfazem em turbilhões de branco, e outras ainda que recuam e se enovelam noutras, prontas a desabar”.
A certo momento o autor escreve o seguinte:
“Quando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos — seis linhas — um tipo — uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-Ihe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadrinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar.
Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado… Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. — Eu também nunca mais a esqueci…” Assina : Raul Brandão
Mas os Pescadores não é sómente o Mar, mas também a terra voluptuosa que lhe faz frente e que é vista como um corpo feminino esperando o toque do mar. Diz ainda o autor: Esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-o amorosamente contra si; começa em caminha até ao forte de Âncara. E Brandão fala-nos de “cabelo de ouro” e de “montes pálidos que saem da água como seios, entreabertos para nos acolher”.
Li as 365 paginas, tomei tempo porque em cada página encontro uma citação demasiado importante para ignorar; não tomar notas. Há todo um vocabulário que desconhecia e inúmeras informações sobre a história das povoações que viviam junto ao mar. Descobre‑se, por exemplo, que entre 1920 e 1922 muitos pescadores de Caminha e dos Poveiros emigraram para o Brasil, sobretudo para Manaus e Santos, em busca de melhores condições de vida. E também descobri que, nesse período, a ria de Aveiro era comparada ao Nilo do Egipto, tal era a riqueza de fertilizantes que devolvia à terra.
Espero ter conseguido despertar em vocês a curiosidade de ler Os Pescadores e que encontrem nele tanto prazer quanto eu, sobretudo no que diz respeito ao lexico marinho e piscatório. Mas se isso não lhe interessa ainda assim vale a pena por toda a informação histórica que nele encontramos sobre a vida e costumes dos povos da orla maritima portuguesa, no início do século XX.
Pode encontrar este livro na nossa biblioteca de José d’Almansor, mas também obtê-lo em formato digital, pelo Ebook. Alias quase toda a obra de Raul Brandao està digitalizada, como por exemplo: Os pobres, Húmus, Memórias, Ihas Desconhecidas (sobre os Açores) e a Farsa. Contudo, as que passo a mencionar, só existem em papel:
• Impressões e Paisagens (1890);
• História de um Palhaço (1896);
• O Padre (1901);
• A Farsa (1903);
• El-Rei Junot (1912);
• A Conspiração de 1817 (1914);
• Teatro (1923);
• A Morte do Palhaço e o Mistério das Árvores (1926);
• Jesus Cristo em Lisboa, em colaboração com Teixeira de Pascoaes, (1927);
• O Avejão (1929) (teatro);
• Portugal Pequenino, em colaboração com Maria Angelina Brandão, (1930);
• O Pobre de Pedir (1931) (Edição Póstuma);
• Vale de Josafat (Vol. III das Memórias), (1933) (Edição Póstuma).

Não poderíamos encerrar esta rubrica sem vos oferecer, mais uma vez, um poema — cada dia mais pertinente à situação que o nosso mundo atravessa. Li‑o já ha algum tempo, é verdade, mas para quem não teve ocasião de o escutar, volto a partilhá‑lo. Porque este texto, além de poema, é também uma oração. E talvez seja precisamente disso que todos nós mais precisamos neste momento. São palavras que não podemos ignorar, sobretudo nestes tempos conturbados, em que a guerra e a incompreensão, parece pairar sobre o mundo. Muitos já não sabem rezar, mas ainda há quem o faça, quem peça clemência a Deus, ao Universo.
É nesse espírito que vos deixo agora uma oração escrita por um Lusocanadiano de Montreal, José da Conceiçao, dedicada a todos os que sofrem nas guerras; Que estas palavras sejam bálsamo, esperança e memória.
“Senhor da vida, Deus de todos os povos, inclina Teu olhar misecordioso, sobre os que vivem sob o peso da guerra.
Là onde o chão treme com bombas, Onde o céu não guarda mais azul, derrama tua paz, abraça com a tua presença invisível.
As crianças que choram sem colo, As mães que enterram seus filhos, os velhos que oram no escuro, os homens que lutam sem saber se voltam.
Multiplica o pão aonde há fome, faz brotar água onde há sede, aquece com teu amor, aonde o frio do medo congela o peito.
Dá coragem aos que resistem, esperança aos que perderam tudo, e fé aos que não sabem orar; consola na perda, abriga na ruina.
Dá força no desespero, Luz nas noites sem fim. Senhor, que mesmo entre as ruinas, nasça uma flor. Que mesmo no som das bombas, se ouça um sussurro de paz, e que mesmo no abandono. Alguém sinta: Tu não estás só.
AMÉM”
José da Conceiçao

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