O país que ficou às escuras
Quando a tempestade Kristin atravessou Portugal, não deixou apenas um rasto de destruição visível. Deixou, sobretudo, um país suspenso. Em dezenas de concelhos, o tempo pareceu parar: sem eletricidade; sem água potável; sem comunicações estáveis; sem acesso imediato a bens essenciais. Para milhares de pessoas, a rotina colapsou em poucas horas.

A força do vento derrubou postes, arrancou telhados, destruiu empresas completas (o trabalho de uma vida), arrasou culturas e isolou aldeias inteiras. A chuva intensa inundou habitações, campos agrícolas e vias de acesso. Em algumas regiões, a eletricidade demorou dias a ser restabelecida. Noutras, o fornecimento de água foi interrompido ou condicionado, obrigando a população a recorrer a reservas improvisadas ou à distribuição de emergência.
Sem luz, faltou mais do que conforto. Falharam equipamentos médicos domiciliários, perderam-se alimentos, encerraram pequenos negócios que vivem do dia-a-dia. Os multibancos deixaram de funcionar, os combustíveis tornaram-se difíceis de obter, as comunicações móveis intermitentes. O acesso ao essencial passou a depender da geografia, da sorte e da ajuda de terceiros.
A tempestade não atingiu o país de forma homogénea. As zonas mais vulneráveis (interior, territórios envelhecidos, comunidades com menor densidade de serviços) sentiram com maior intensidade o impacto. Idosos a viver sozinhos, lares, hospitais, pessoas com mobilidade reduzida, famílias com baixos rendimentos foram as primeiras a ficar isoladas. Em algumas freguesias, o socorro demorou não por falta de vontade, mas por falta de meios e acessos.
Foi neste contexto que a intervenção voluntária ganhou relevo. Bombeiros voluntários, associações humanitárias, juntas de freguesia e cidadãos comuns organizaram redes de apoio para distribuir água, alimentos, medicamentos e refeições quentes. Houve quem percorresse quilómetros para verificar se os vizinhos estavam bem; quem abrisse portas a desconhecidos; quem partilhasse geradores e recursos escassos. Essa mobilização revelou um país solidário, capaz de se unir perante a adversidade. Mas também expôs uma dependência recorrente do improviso. A cada episódio extremo, repete-se o mesmo padrão: a resposta comunitária suprime, temporariamente, fragilidades estruturais que permanecem por resolver. A exceção transforma-se em hábito ou regra.

A falta de preparação e de investimento em prevenção voltou a ser tema de conversa. Infraestruturas envelhecidas, ordenamento do território deficiente, redes elétricas vulneráveis, sistemas de abastecimento frágeis. A Kristin não trouxe problemas novos, apenas tornou impossíveis de ignorar os que já existiam.
Enquanto se avaliam prejuízos e se dá continuidade a operações de limpeza, o país avança para outro momento decisivo. A 8 de Fevereiro realizam-se as eleições para a Presidência da República. Num contexto ainda marcado pela calamidade, a campanha decorre num país cansado, com a atenção dividida entre a recuperação e o futuro político.
António José Seguro e André Ventura protagonizam uma disputa que vai além de nomes próprios. Representam visões distintas do papel do Estado; da autoridade; da mediação e da resposta às crises. A campanha decorre num clima de polarização crescente, onde as palavras competem pelo impacto num eleitorado que vive, no terreno, dificuldades concretas. Para muitos cidadãos afetados pela tempestade, o debate político surge distante. A prioridade (foi e continua a ser) recuperar o básico: luz, água, segurança, estabilidade. Ainda assim, a ligação entre crise social e escolha política é inevitável. A sensação de abandono, a repetição de falhas, a desigualdade territorial alimentam o desencanto e moldam a forma como se olha para a liderança. Especialistas alertam que momentos de fragilidade coletiva tendem a amplificar discursos simplistas e promessas absolutas. Quando o quotidiano falha, cresce a procura por soluções imediatas, mesmo que incompletas. A tempestade física cruza-se, assim, com uma tempestade simbólica: a do descontentamento, da desconfiança e da divisão. À medida que os serviços são restabelecidos e a vida regressa lentamente à normalidade, permanecem as marcas menos visíveis. O cansaço acumulado, a insegurança perante o próximo inverno ou até mesmo verão, a perceção de que o país continua a viver em estado de reação permanente. A Kristin foi mais um aviso num ciclo que se repete com frequência crescente.
Portugal mostrou, mais uma vez, capacidade de resistência. Mas resistência não é sinónimo de preparação. A solidariedade não substitui o planeamento. E a normalização da calamidade tem custos que se acumulam silenciosamente.
Quando as urnas abrirem a 8 de Fevereiro, muitos eleitores levarão consigo a memória recente da tempestade. A escolha do Presidente da República não resolverá falhas estruturais nem impedirá fenómenos extremos. Mas simboliza prioridades, atenção e visão de país.
Depois da Kristin, a questão que permanece é simples e incómoda:
Quantas tempestades, fogos ou outros fenómenos serão ainda necessários para que a exceção deixe de ser a regra e a prevenção passe a ocupar o centro das decisões públicas?
