Levar Portugal ao Palco com Verdade é imperioso e obrigatório

A responsabilidade de representar o Folclore com autenticidade e respeito pela tradição.
Há momentos que nos tocam de forma especial! A inauguração do Festival Portugal Internacional de Montreal 2026 foi, sem dúvida, um desses momentos. Ver reunidos vários grupos que, com dedicação e amor, representam o folclore português além-fronteiras é algo que merece reconhecimento, respeito e até orgulho coletivo. Foi bonito; foi simbólico e foi, acima de tudo, necessário.


Enquanto espetadora, apreciadora e defensora convicta do Folclore, confesso que senti emoção ao assistir à homenagem prestada. Não apenas pelo gesto em si, mas pelo que ele representa (a continuidade de uma herança cultural que atravessa gerações, oceanos e contextos).
No entanto, essa mesma emoção foi acompanhada por um sentimento de inquietação; uma desilusão silenciosa que foi crescendo à medida que os grupos subiam ao palco.


Não se tratou da entrega, da postura ou da emoção (essas, felizmente, continuam bem vivas no espírito de quem mantém o folclore). Tratou-se, sim, da forma como o traje e outros apontamentos que nos distinguem foram apresentados. E no Folclore, o traje não é um detalhe.


É identidade!
É documento histórico!
É verdade!


Importa dizer, com toda a clareza e respeito, que representar o Folclore não é apenas vestir uma roupa “típica” e subir ao palco. É assumir um compromisso com a autenticidade etnográfica. É respeitar regras que não foram criadas por capricho, mas sim construídas ao longo de décadas de estudo, recolha e preservação cultural.


Há princípios que não podem, nem devem ser ignorados:
O cabelo, por exemplo. Não pode surgir “despido”, especialmente quando curto. Historicamente, as mulheres não cortavam o cabelo com frequência, não por estética, mas por necessidade económica e contexto social. O lenço não é um acessório opcional, é parte integrante do traje, com função prática e simbólica.


O calçado também não é um detalhe decorativo. Socos, socas, chancas ou o simples andar descalço, tudo depende da região representada. O folclore costeiro, por exemplo, especialmente ligado às comunidades piscatórias, exige autenticidade nesse aspeto. Se a tradição dita pés descalços, então é assim que deve ser.


As unhas postiças, pintadas ou trabalhadas, são uma completa descaracterização. Não existiam; não podem existir; não fazem parte. E, por isso, não devem ser integradas. O mesmo se aplica à maquilhagem. O Folclore não é palco de encenação estética moderna, mas sim de recriação fiel de uma realidade passada.


Para os homens, as regras não são menos importantes. A faixa, quando usada, tem posição, função e contexto. Não é um elemento decorativo livre. Usá-la incorretamente é desvirtuar o traje.
Brincos, piercings e tatuagens visíveis também não têm lugar na representação folclórica tradicional. Não por julgamento pessoal, mas por respeito à fidelidade histórica. O Folclore não é sobre o indivíduo moderno… é sobre a comunidade de outrora.


É fundamental compreender que “parecer” não é o mesmo que “ser”. E o Folclore exige verdade. Reconheço e valorizo que as direções dos grupos têm uma missão extremamente difícil. Manter jovens interessados, equilibrar tradição com realidade contemporânea, gerir expectativas e limitações… nada disso é simples. Mas é precisamente por isso que a responsabilidade é ainda maior.
Cabe às direções orientar, corrigir e educar. Cabe-lhes garantir que aquilo que é apresentado não é apenas bonito, mas correto. Porque cada apresentação é, também, um ato pedagógico; uma forma de mostrar ao público o que foi, e não o que nos convém que tenha sido.


Dentro de cada grupo, existe também uma estrutura hierárquica que deve ser respeitada. Não se pode cair na tentação de fazer “à vontade de cada um”. O Folclore não é um espaço de individualismo criativo , é um espaço de disciplina cultural. Seguir orientações não é limitar, é preservar.


Este não é um apelo à rigidez sem alma. É, sim, um apelo à responsabilidade com identidade.
O Folclore português é rico, diverso e profundamente significativo. Reduzi-lo a uma estética adaptada, facilitada ou modernizada sem critério é diminuir aquilo que, na verdade, deve ser elevado.
Preservar não é apenas continuar… é continuar bem.


E quem sobe ao palco com um traje folclórico não leva apenas tecido.


Leva História!
Leva memória!
Leva um povo inteiro consigo!
Que nunca nos esqueçamos disso…

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