Passam hoje 52 anos sobre a Revolução de 25 de Abril. Em boa verdade, este acontecimento introduziu, como verdadeira novidade, a permissão dos partidos políticos. E criou as condições para que se operasse o abandono, por Portugal, das suas antigas províncias ultramarinas, com a consequente saída de portugueses desses locais. Ou seja, deu-se o que se iniciaria se Salazar tivesse dado ouvidos à velha sugestão de George Ball, antigo Secretário de Estado dos Estados Unidos.
É verdade que se extinguiram a Direção-Geral de Segurança, (DGS), os Tribunais Plenários, a Legião Portuguesa e a Censura, ao mesmo tempo que se criou, com elevada qualidade, a Constituição de 1976. Mas também é verdade que Spínola ainda tentou manter a primeira estrutura nas províncias ultramarinas, supostamente como polícia de informação militar, tendo logo indicado para a liderar o seu antigo colega do Colégio Militar, Rogério Morais Coelho Dias, que era, ao tempo, o inspetor superior para o Ultramar da DGS. A ideia, porém, não passou. Hoje, todavia, mesmo não havendo uma censura oficial, continua a existir censura, dado que os grandes meios de comunicação social são propriedade de grupos de capitais, que nomeiam administrações, que depois procedem à conveniente hierarquização da máquina informativa. É, de facto, um mecanismo mais insidioso, mas que lá vai conseguindo moldar a opinião pública ao sabor dos interesses dos detentores dos diversos meios de comunicação social, invariavelmente ligados aos grandes grupos de interesses. Ao fim de 52 anos, o tão justo e humano Serviço Nacional de Saúde, (SNS), criado, em mui boa hora, por António Arnaut, está aí, bem à vista de todos, em completa destruição, ao mesmo tempo que faltam médicos e enfermeiros, naturalmente trasladados para o setor privado, graças a vencimentos que o SNS nunca poderá pagar. Do mesmo modo, os portugueses veem-se hoje confrontados com uma situação sem saída democrática, como é o caso da habitação. Na velha II República, Salazar resolveu o problema pelo único caminho possível: congelou as rendas de casa, que não ruíram pelos efeitos do grande sismo dos anos 60. Mais de meio século depois de Abril, sabe-se agora que 1 % de portugueses têm tanto como toda a riqueza de um quarto das famílias portuguesas… A imagem da democracia, aos olhos da generalidade dos portugueses, baixou sobremaneira, dada a real falta de resposta aos mais candentes problemas da enorme maioria dos portugueses. Por fim, apesar da grande apregoada liberdade, não falta o medo. Basta olhar para a hipocrisia com que se trata, em Portugal e na União Europeia – exceção para a Espanha de Pedro Sanchez –, o genocídio de Israel sobre os palestinos, bem como o completo arbítrio com que Estados Unidos e Israel desprezam tudo e todos. E de Luís Montenegro, como ontem se viu, a liberdade de Abril só lhe permitiu responder com um no comments… Imagine-se uma tal resposta com Salazar ou Marcelo! Mas a liberdade destes dias veio mostrar muita coisa, como o tático desaparecimento de velhos campeões anti-Estado Novo, que fogem agora a ter de dar uma ínfima opinião sobre Donald Trump. O tempo vai passando, e os tais campeões de outrora estão como desaparecidos em combate. É que o democrata Trump é incomensuravelmente pior que o ditador Salazar. A verdade, porém, é que, para lá de Leão XIV, Sanchez e Meloni, raros o confrontam. Têm a democracia, mas vivem acagaçados perante o grande Satã.
E mesmo por fim: temos a democracia e a sua liberdade, mas eu também já a tinha antes de Abril, tal como os meus amigos, no liceu ou na universidade, e mesmo no velho Café Gigante, ou no Jardim da Parada, ou mesmo na Livraria Escolar Editora, discutindo política abertamente, em geral contra o Governo, sem que alguém se preocupasse com isso.
Alguém escreveu, há já uns anos, que “Abril é já só História”. E é no que acredito. E por isso reitero o que já escrevi há muito, embora sem gosto: quem tiver valor e possa, saia de Portugal, porque o futuro não será nada risonho…
A REVOLUÇÃO DE ABRIL: Depois De 52 Anos, Abril Já Vai Longe
