Na semana passada, passei por uma tempestade terrível: um dos meus familiares jovens foi hospitalizado.
Quero começar com a verdade: a minha crónica e as minhas palavras vão confirmar que eu tenho sempre esperança que a bondade é mais forte do que o mal. Mas o mal e a doença existem e nunca vão deixar de existir. A doença é uma realidade que vivi no Hospital de Montreal para Crianças, onde passei alguns dias…sem querer eu e a minha filha. Mas isto não é uma crónica triste…
Também vi bebês, adolescentes, voluntários e funcionários que fazem parte daquela família unida naquele momento terrível.
Ali, o que manda é a ciência e os resultados, validados pela equipa de enfermagem e profissionais. Mas isso não é uma crónica triste…
Os doutores e profissionais daquele hospital cuidaram da minha filha e de várias crianças doentes que, tristemente, não chegam a voltar para a casa.
Por isso, tenho de escrever sobre esta experiência que mudou a minha perspetiva, de tal maneira que já não posso ver tudo como via anteriormente.
E isso é a beleza da vida.
O poder que todos temos de ser melhores, mas não sozinhos; rodeados pelo que é bom, até mesmo quando nem a esperança parece ajudar. Mais tarde, quando a tempestade felizmente passou, a minha filha, saiu com a energia habitual de uma criança que, verdadeira e felizmente, não percebe a fragilidade daquele momento. E ainda bem! Mas lá fui eu à procura de tudo de bom, que a minha filha saudável pediu, agora que ja não estava internada.
Ela fez uma lista no seu telefone de tudo que ela queria comer e eu, como mãe babada, fui comprar pudim de chocolate, morangos, melancia, leite de chocolate e massa, entre outras coisas que encontrei pelo caminho no meu bairro, Villeray.
Passei pela Padaria Lajeunesse para comprar Sumol para o meu filho e, também, um pão de milho para mim.
A Ashely Machado, da Padaria Lajeunesse, viu-me abatida e perguntou-me imediatamente o porquê. Entre as minhas notícias e as dela, ficámos ali juntas a pôr a conversa em dia. No meu bairro, Villeray – o quartier, como a gente diz aqui em Montreal….
Finalmente o sol brilhava, depois de uma semana fria de chuva e da neve verdadeira do Canadá. Sim, no mês de abril ainda há neve por aqui, infelizmente! Mas eu vi tudo só do 8º andar do hospital, onde não estava muito perto da vida normal.
No caminho das compras, vi um vizinho à porta com o seu bebé de apenas um dia nos braços, cheio de orgulho.
Vi também outro vizinho que ai para a cidade do Quebeque para celebrar o seu aniversário. Vou repetir, isso não é uma crónica triste.
Fui à minha loja preferida, onde dão tulipas de graça -sem razão, mas regularmente – e voltei para casa, com as minhas flores e com a certeza de que a vida continua. O sol volta a nascer e acho isso bom, porque esta não é uma crónica triste… Apresentei-me na Padaria Lajeunesse no dia seguinte, à procura da Ashely Machado, que sempre me levanta o espírito e para dar notícias que hoje já ia melhor! Lá estavam sentadas duas mulheres portuguesas a tomar café juntas, e não aquela linda mulher que eu procurava.
Continuei o meu caminho… mas, pela porta de trás, lá saiu o irmão dela, o Alexander Machado, que me perguntou com um grande sorriso:
-De quem estás à procura?
Eu respondi: -Da tua irmã!
Então, ele chamou-a, e eu disse-lhe a boa notícia de que tudo estava bem agora e que a minha filha tinha voltado saudável.
E ela a falar também sobre o seu irmão que adora e de isto e daquilo…
Tive que tirar uma foto destes dois queridos, que são fundamentais no meu bairro e na minha rotina; eles lembram-nos do que é bom e das pessoas positivas que ajudam simplesmente, com uma bondade fácil.
Mas o negativo, a doença e o mau também existem, mas isso não é uma crónica triste.
Ciao andorinhas livres.
Isto não é uma crónica triste
