“Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro…” (Fernando Pessoa)


Na política, como um pouco por todas as atividades coletivas humanas, a liderança transpira de uma forma inconsciente os desígnios que traz mais ou menos ocultos.
Ainda que essa interação inconsciente entre seres humanos seja subtil, ela é bem presente e liga-se eficazmente com as necessidades, os anseios e os objetivos particulares de cada indivíduo e da coletividade em geral. Da mesma forma que em fotografia há filtros específicos consoante as condições de luz e o efeito final pretendido – ou seja, o objetivo – assim funciona a ligação subtil entre seres humanos.
Estendendo-se este efeito às lideranças políticas, explica-se assim porque razão temos verdadeiros fenómenos da política aparecidos do nada que ultrapassam tudo e todos de uma forma quase inexplicável. Mark Carney, que obteve recentemente a maioria para governar depois das parciais em três distritos eleitorais, é um exemplo disso. Cada postura de Carney reflete o seu interior de uma forma genuína que encontra reflexo na maior parte dos cidadãos canadianos. O contrário passa-se com o líder da oposição, Pierre Poilievre.
Os recentes ataques que este fez à capacidade técnica de Carney revelam o desencontro daquele com a realidade, que não encontra reflexo na maioria dos canadianos. Mas Poilievre não consegue mudar a sua natureza, pelo menos tão rapidamente. E assim, entre rumores de liderança difícil e antagónica com os elementos da sua equipa, vai perdendo deputados – alguns conservadores ferrenhos – para o seu oponente, Carney. Poilievre talvez fosse eficaz nos EUA, onde o seguidismo político atingiu o nível de fanatismo religioso de tal forma onde líderes são elevados a figuras religiosas divinas! Mas a sociedade canadiana é diferente, por enquanto.
E por ser diferente permite-se alternativas aos disparates que pululam pelo mundo, ainda que não possamos ser ingénuos face à adversidade causada por uma nova ordem mundial transacional. Não é garantido que se passe incólume, mas augura uma melhor preparação face ao inverno moral e ético que assistimos.
O mesmo gostaria de ver na sociedade portuguesa. Como escreveu Fernando Pessoa: “Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro…”. À esperança dos meus jovens anos, em que assisti ao pós 25 de Abril encaminhar-nos para a então Comunidade Económica Europeia (CEE), hoje Comunidade Europeia (CE), com todos os avanços e modernidades que elevaram o Portugal rural a uma economia mais moderna, verifico agora que foi fogo de artifício. Esperava eu – aliás, na altura tinha a certeza – que o espírito ambicioso aliado à velha capacidade engenhosa portuguesa, construiria um Portugal que sem perder as suas boas características, seria capaz de ombrear com os mais competitivos. Enganei-me. É com bastante tristeza que vejo um panorama político anacrónico. Vejo um país a arrastar os pés, ensimesmado, indolente em geral e apenas dinâmico na manutenção dos seus prazeres imediatos corporativos, sem força de espírito que o leve a largar as amarras que criou para si mesmo. Os exemplos sucedem-se.
A reforma laboral, mais uma oportunidade perdida, encontra-se bloqueada pela falta de arrojo de um governo minoritário que se deixa amarrar por pequenos sindicatos (total de trabalhadores sindicalizados: 7% em 2024, dos quais cerca de 2% na UGT e restantes quase todos na CGTP) coadjuvado por um presidente da república recém eleito que quer provar que afinal, contrariamente ao que lhe rotularam no passado, é bastante socialista. Mas há que manter a tradição, à velha maneira portuguesa e salazarista.
Isto o 25 de Abril não foi capaz de mudar. Onde está a liderança? Ao contrário dos descobridores de outrora, entregámos os destinos, desta vez, aos velhos do restelo. Aos “velhos” dos sindicatos que ainda vivem amarrados aos preconceitos de séculos passados enquanto o mundo laboral se alterou e prepara-se para uma nova alteração com a Inteligência Artificial (IA). Entregámos os destinos a “velhas” lideranças partidárias imóveis, paradas no tempo, incapazes de limpar o seu próprio quintal, preocupadas com a rotatividade da cadeira do poder.
À direita surge um novo “velho” partido: socialista na economia ao bom sabor anacrónico lusitano, temperado com uma rebeldia social apreciado por aqueles que querem uma mudança mas no fundo nada querem mudar. À direita é o desencontro com os seus ideais, com os desafios da época e com os eleitores: satisfaz-se este grupelho, satisfaz-se o outro, na vã ânsia de manter as rédeas do poder.
As novas gerações dividiram-se: os “novos” , cansados face à imobilidade de uma sociedade que alberga grupos confortavelmente instalados, procuraram outras paragens para desenvolveram os seus projetos de vida; os “velhos” da nova geração – sim, porque a nova geração infelizmente alberga uma boa cota parte de “velhos do restelo” – ficam-se na acomodação chorona para manter direitos “adquiridos” e ganhar outros mais que o dinheiro da Europa e a elevada carga fiscal possa fazer chover nos seus quintais. Como diria Pessoa, “falta cumprir-se Portugal”!