Calema incendiaram Montreal em concerto esgotado no MTELUS


António e Fradique Mendes, os irmãos que dão voz aos Calema, chegaram a Montreal na passada quarta-feira, vindos de Nova Iorque, onde tinham atuado no espetáculo anterior. A dupla viajou acompanhada pela sua equipa habitual, numa operação logística de grande escala que envolveu músicos, manager, técnico de som — conhecido também pelo seu trabalho no programa O Preço Certo — e ainda a esposa de Fradique, que acompanhou o artista nesta digressão. Uma produção robusta, marcada por uma organização minuciosa nos bastidores de cada concerto.


Horas antes do espetáculo, eu assistia ao soundcheck e tive a oportunidade de conversar com a dupla numa entrevista exclusiva, acompanhada de imagens inéditas que registam a passagem dos irmãos por Montreal. Questionados sobre a experiência na cidade, António e Fradique revelaram ter aproveitado para conhecer um pouco da metrópole, descrevendo Montreal como uma cidade grande e desenvolvida e ouvir falar francês fora da Europa foi, para ambos interessante devido ao sotaque.
A herança africana de António e Fradique está profundamente presente na identidade musical dos Calema, mas a ligação a Portugal permanece igualmente viva. Quando questionados sobre o que significa cantar para portugueses fora de Portugal, os artistas, que conhecem de perto a experiência da imigração, não esconderam a emoção. Atuar para a diáspora, dizem, é como oferecer um abraço coletivo. Ouvir a língua portuguesa longe de casa cria de imediato um sentimento de pertença e, durante o tempo que dura o concerto, a saudade parece tornar-se mais leve.
A diferença entre atuar em Portugal e perante comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo é, segundo os irmãos, evidente. Fora do país, a emoção ganha outra intensidade. A música transforma-se numa ponte entre a memória, a língua e a identidade cultural. Para os Calema, manter essa ligação ao universo lusófono é essencial — e cada concerto torna-se também um reencontro afetivo, tanto para quem canta como para quem os escuta.
Os irmãos falaram ainda sobre o lado mais pessoal da vida em digressão. Confessaram que viajar pelo mundo lhes permite abrir novas possibilidades para a família, mas que o regresso a casa continua a ter um significado único. Recordaram os tempos em que viveram em França e partilharam uma memória simples, mas reveladora: “Quando chegávamos a Portugal, a primeira coisa era comer um bitoque.” Já em São Tomé, o ritual era outro: peixe fresco com banana frita — sabores que simbolizam pertença, memória e conforto.
Questionados sobre se, após centenas de concertos e milhares de fãs a gritarem o nome da banda, ainda sentem nervosismo antes de subir ao palco, os irmãos admitiram que depende sempre do contexto. Em Montreal, porém, não era nervosismo — era expectativa. Falaram dos anos em que sonharam atuar na cidade, do desejo antigo de encontrar este público e da satisfação de finalmente concretizar esse momento.
No MTELUS, o concerto esgotado reuniu uma plateia que cantou praticamente todas as músicas de cor, num ambiente de comunhão rara entre palco e público. A energia contagiante de António e Fradique confirmou o estatuto dos Calema como uma das duplas mais relevantes da música lusófona contemporânea.
Com uma sonoridade que cruza raízes africanas e música popular portuguesa, e depois de uma passagem pelos Estados Unidos, onde participaram no espetáculo dos International Portuguese Music Awards, antes de seguirem para Toronto e regressarem a Portugal, os Calema continuam a viver entre países, culturas e afetos — sempre com a música como ponto de encontro.