A duas portas à esquerda, de dois bairros da minha porta… tem uma senhora que está ao canto, vestida com o seu casaco preto, comprido e gasto, segurando a mala contra ao peito. Ela está à espera de alguém que nunca a vem buscar… Ela está, ano após ano, naquele mesmo canto, sem notícias de ninguém nem um fim mais alegre. … está sempre sozinha à espera. Nenhum familiar aparece, nenhum amigo chega de carro para lhe dar boleia, e não há ninguém que se junte, finalmente, ao seu lado.
Essa mulherzinha de cabelos aos caracóis cinzentos que eu não conheço, faz parte da minha rotina. Quando chega a hora de passear com a minha cadela, depois do trabalho, e dar uma volta por aqui e por ali, vejo sempre essa senhora. Por vezes, há um homem ou uma mulher que atravessa aquela rua, ao lado dessa senhora, perdida com certeza, nos pensamentos do seu passado. E ela dá a mão para, imagino eu, dizer a esses estranhos, ‘Olá! És tu? Já chegaste? Eu estava aqui há vinte minutos à tua espera! Ainda bem que já estás aqui!’ Mas, como ela está tristemente perdida nos seus pensamentos; as pessoas que atravessam aquela rua, como eu, não conhecem essa senhora. Como eu, continuam o seu caminho de volta para as suas vidas sem levantar o olhar. Mas cá estou eu, aqui, a pensar nessa senhora que está sozinha e cansada, num canto de uma rua qualquer, à espera de ninguém, ano após ano. Muitas vezes despedimo-nos de um passado que era, com certeza, algo espetacular ou não. Um momento que existiu e que acabou. Tudo isso passa e, pelo caminho, encontramos memórias que nos empurram para seguir em outras direções ou também ficar à espera… Outras vezes, estamos em cantos de ruas perdidas, sozinhas e tristes ou à procura de alguém que nunca mais volta? O que encontramos nesses lugares imaginários talvez não seja sempre bonito. A verdade é que eu nunca vou conhecer essa senhora, nunca vou saber, nem quero. Mas espero que um dia alguém a venha buscar para a levar aonde ela quiser, a dois bairros de onde vivo à direita ou à esquerda, à procura de aventura.
Neste momento de sensibilização para o autismo, a ocasião é toda indicada para descobrir este artista excepcional que é Nathan Loignon (ele obteve a campainha dourada para Quel Talent!) durante o lançamento do seu primeiro álbum Douce folie saisonnière.
Mais uma Crónica da Nossa Andorinha
