Falamos de folclore no seu todo mas depois…
Existem outros que, para além dessa missão, conseguem despertar emoções, criar pontes entre gerações e fazer com que um povo inteiro se reveja na sua própria história.
O grupo açoriano Estrelas do Atlântico insere-se claramente nesta última categoria.
Assistir a uma atuação deste grupo é muito mais do que presenciar um espetáculo de folclore e/ou dança tradicional. É embarcar numa viagem pelos Açores, pelas suas nove ilhas, pelas suas singularidades e pelos elementos culturais que, apesar das diferenças geográficas, constroem uma identidade comum. Há uma intenção evidente de representar esse mosaico cultural que caracteriza o arquipélago, procurando dar voz às várias expressões que nasceram e evoluíram ao longo de séculos de vivência insular.
Para quem conhece os Açores, existe um exercício quase involuntário durante cada atuação: tentar identificar as ilhas, reconhecer melodias (modas), passos (danças), indumentárias (trajes) e modos de estar que remetem para diferentes comunidades. Nem sempre esse exercício é linear, nem poderia ser. A cultura popular é dinâmica, feita de influências, adaptações e interpretações. Ainda assim, o mérito do “Estrelas do Atlântico” reside precisamente na capacidade de reunir, num mesmo palco (eira), referências que despertam memórias e sentimentos profundos junto dos açorianos e dos seus descendentes.
O fenómeno torna-se ainda mais relevante quando observamos a forma como o grupo consegue congregar uma verdadeira legião de admiradores. Em redor das suas atuações encontramos pessoas de diferentes idades, oriundas de várias ilhas e até de diferentes gerações da diáspora. Uns recordam a infância passada nas freguesias açorianas; outros procuram manter viva uma ligação herdada dos pais e dos avós. Todos encontram, de alguma forma, um ponto de encontro no folclore, na interpretação e na autenticidade emocional que o grupo transmite.
É precisamente a emoção que mais impressiona. Há algo de profundamente genuíno na forma como os elementos do “Estrelas do Atlântico” se apresenta em palco (eira). Não se limitam a executar repertórios ou coreografias. Vivem-nos. Sentem-nos. Partilham-nos com quem ali está. E essa entrega é percetível em cada moda, em cada acorde e em cada movimento.
Naturalmente, os estudiosos e defensores mais rigorosos da etnografia e do folclore poderão identificar algumas lacunas ou aspetos passíveis de discussão no plano etno-folclórico. Essa é, aliás, uma realidade transversal a muitos agrupamentos culturais espalhados pelo mundo. Porém, seria injusto permitir que essas observações obscurecessem aquilo que verdadeiramente importa: a capacidade de representar e divulgar a cultura açoriana com dignidade, paixão e um profundo sentido de pertença.
Tive a oportunidade de acompanhar a atuação do grupo durante as Festas do Divino Espírito Santo de Laval. Num contexto onde a tradição continua a desempenhar um papel fundamental na afirmação da identidade açoriana além-mar, o “Estrelas do Atlântico” demonstrou uma vez mais a razão pela qual são tão acarinhados pelas comunidades que os recebem. O público não assistia apenas; participava emocionalmente. Via-se nos rostos a alegria do reencontro com referências culturais familiares e a satisfação de ver essas tradições perpetuadas pelas novas gerações.
Mais tarde, já em Kingston, imagens magistralmente captadas por aquele que considero, sem hesitação, um dos melhores fotógrafos do mundo (Dominique Abreu) vieram reforçar tudo aquilo que havia testemunhado. Cada fotografia parecia conservar algo que normalmente escapa ao olhar: a intensidade dos momentos, a cumplicidade entre os elementos do grupo, o orgulho refletido nos trajes e a emoção estampada nos rostos de quem assistia.
As imagens confirmavam e confirmam aquilo que a atuação já havia revelado: o “Estrelas do Atlântico” não é apenas um grupo folclórico…

É um veículo de memória coletiva!
É um elo entre passado e presente!
É um testemunho vivo da capacidade que a cultura açoriana possui de atravessar oceanos sem perder a sua essência…
Num tempo em que tantas tradições enfrentam o risco do esquecimento, iniciativas como esta assumem um valor incalculável. Mais do que preservar património, ajudam a mantê-lo vivo, relevante e emocionalmente significativo para as comunidades que dele se alimentam culturalmente.
Por isso, qualquer descrição escrita acabará sempre por ser insuficiente. As palavras aproximam-se da realidade, mas não a substituem. Porque há sentimentos que não cabem em frases, tal como há melodias/modas que não podem ser plenamente explicadas.
O “Estrelas do Atlântico” é um desses casos raros. Com as suas virtudes, a sua entrega e a sua capacidade de mobilizar emoções, continuam a honrar os Açores e a projetar a riqueza cultural do arquipélago junto das comunidades espalhadas pelo mundo.
E, no fim, permanece a conclusão mais simples e mais verdadeira: para compreender plenamente o que este grupo representa…
Vejam!
Assistam!
Sintam!
Vale a pena…
Eu sou uma continental que me rendi à prestação deste grupo…

