À atenção dos eleitores, atuais e futuros


Sabemos que na política a arte da ilusão tem uma aplicação ampla. Neste campo, como em muitos outros, as emoções ultrapassam a racionalidade facilitando a manipulação por um lado, por outro complicando qualquer esclarecimento racional que permita a correção de opiniões.
O apego emocional é mais forte do que qualquer esclarecimento, ainda por mais secundado pelo orgulho que nos impede de aceitar que nos enganámos! Esta dupla barreira cria desafios constantes à democracia, a par com a ignorância de alguns assuntos pela complexidade crescente do desenvolvimento humano.
Face à instabilidade e incerteza humana, é natural que se projete resultados futuros baseado em opiniões, mais ou menos fundamentadas. É também bastante natural que haja preferências em relação ao regime político e estrutura socioeconómica em que se quer viver.
Conheci por terras dos EUA diversos cidadãos, de origem ou radicados lá desde há muitas décadas, perfeitamente integrados na sociedade norte americana. E sempre me surpreendeu o apego à liberdade de ação que alimentavam.
Mesmo aqueles com menos estudos e menos formação, não aspiravam a um estado social que os sustentassem.
Pelo contrário, queriam liberdade para exercerem o que quisessem com o mínimo de regras limitativas, o que sempre achei surpreendente e contrastante com a sociedade portuguesa com o seu impulso constante de se apoiar no coletivo, ainda que tenham de abrir mão de alguma liberdade.
Em paralelo, não admira, portanto, que a ideia de liberdade alimente o espírito quebecois na ânsia de um paraíso perdido francófono perdido. Estão no seu direito legítimo, com todas as vantagens e desvantagens inerentes. Estão no seu direito de convencer eleitores e angariá-los para a sua visão.
Afinal de contas, a vivência humana é feita de escolhas que se excluem mutuamente: o estudante que se aplica em ciências naturais, não terá tempo nem espaço para se aplicar em ciências humanas; o atleta que se aplica no futebol, não poderá desenvolver treino em simultâneo para halterofilismo; o advogado desenvolve a sua atividade em determinada área de especialização de direito. Assim, quando em política propomos um projeto político, temos o dever moral e ético de explicar às pessoas qual o impacto nas suas vidas. Temos o dever de explicar quais as opções que deveremos fazer, quais os desafios e evitar fazer promessas descabidas ou irreais.
Temos também o dever de lealdade para com os nossos adversários, como um boxeur que não agride o seu adversário nas costas quando este se dirige para o seu canto nas pausas regulamentares.
Há assim a política elevada, e a política de nível rasteiro, para as quais os eleitores deveriam estar atentos, independentemente dos seus interesses e ideias.
Dois exemplos simples que deveriam deixar os eleitores de sobreaviso.
Em Portugal, Ferro Rodrigues, personalidade com longo percurso político pelo PS e várias funções inclusive governamentais, aconselhou o atual secretário geral José Luís Carneiro, bem conhecido na diáspora, a não aprovar o próximo orçamento de estado para 2027.
Parece inofensivo, fazendo parte da luta política. Mas encerra algo mais grave.
Como defender uma posição de intransigência logo à partida sem conhecer sequer o proposto?
Percebo que se faça exigências, que se aplique linhas mestras para marcar território político, mas uma desaprovação na completa ignorância do que será proposto e de forma incondicional é mostrar mais interesse pelo próprio partido do que pelo país.
Outro caso grave aqui mesmo no Quebec.
As insinuações do chefe do partido quebecois, Paul S. P. Plamondon, relativamente ao partido liberal são graves pela falta de fundamentação apresentada e pela leviandade com que são feitas. Relacionar o financiamento de um partido, qualquer que ele seja, ao crime organizado é um assunto sério que não deve ser feito levianamente.
É o equivalente a levantarmos rumores sobre um vizinho que chega a casa à uma hora da manhã com malas e caixas!
Compararmos a nossa atividade partidária no campo da transparência com outras forças políticas está ao nosso alcance, sendo até desejável para benefício da democracia.
Fazer suposições ou rumores graves e sem fundamento, é outra coisa.
Todos sabemos que o combate político por vezes é um combate sujo. Mas está nas mãos dos políticos elevar esse combate, mesmo sacrificando no tempo vitórias temporárias que satisfazem as hordas de seguidores mal-avisados, mas que nada trazem à sociedade em geral.
Está também nas mãos dos eleitores terem a coragem de rejeitar a política rasteira, mesmo do seu campo político, mesmo a contragosto. Estarão a contribuir para um progresso saudável e sustentável.