Estimados leitores,
Este espaço destaca autores de língua portuguesa, tanto de Portugal como da diáspora. Publicamos notas biográficas e excertos das suas obras, recebidos através da Biblioteca José d’Amansor, em Montréal, ou enviados diretamente pelos autores.
A rubrica Entre Nós é transmitida na Rádio Centre Ville, na emissão Notas de Lá e de Cá, na última quarta feira de cada mês. Para chegar a um público mais amplo, passamos agora a disponibilizar estes conteúdos também num jornal muito acarinhado da nossa comunidade; A Voz de Portugal. Na edição de 24 de junho, a seleção musical incluiu: Marya Santos – Amar; Vários Artistas – O Melhor da Guitarra Portuguesa; Serenata de Coimbra; Dulce Pontes – Canção do Mar; Les plus beaux fados portugais
A autora: Deolinda Xavier Cabo
A Deolinda nasceu no concelho de Palmela. Aos dez anos, a família instalou se em Silves, cidade algarvia de onde os seus pais eram naturais. Foi ali que iniciou o curso comercial, que viria a concluir no Barreiro, na Escola Alfredo da Silva, após a transferência do seu pai para esta então vila muito industrializada, onde funcionavam as grandes oficinas do Caminho de Ferro Nacional.
Trabalhou na área da contabilidade, numa empresa de importação de automóveis de luxo da época — a Mercedes Benz. Casou se e emigrou para o Canadá, fixando se em Montréal. A vida atribulada de uma jovem não lhe permitiu dar a devida atenção à sua veia poética; talvez, embora já existente há muito, ela própria não lhe desse espaço por falta de tempo ou de incentivos.
Uma vez chegada a Montréal, o amor e reconhecimento pela irmã fizeram desabrochar aquilo que sempre existira dentro de si, mas permanecia escondido no coração. Foi aqui, portanto, que Deolinda começou a escrever os seus poemas, que ao longo dos anos se foram acumulando na gaveta das recordações.
Mas como nada acontece por acaso — assim o creio — reencontrou uma amiga de juventude, dos tempos da E.I.C.A.S., que também ela tinha retirado da gaveta das memórias um romance. Deste reencontro renasceu uma amizade antiga, à qual se juntaram outras, e assim a Deolinda viu se quase na obrigação de mostrar ao mundo o que tanto escondia: a beleza dos seus sentimentos, a arte de nos encantar com o ritmo e a sonoridade da sua poesia, e os temas que nela aborda — amor, paixão, ciúme, amizade e saudade. Também a natureza é tratada com respeito, carinho e amor nos seus poemas.
Diz se que os amigos revelam se nas ocasiões certas, e foi exatamente o que aconteceu com a nossa poetisa. Com a insistência da Majao, da Adelaide e do saudoso Manuel Carvalho, Deolinda publicou o seu primeiro livro, “Versejando”, em 2017. Depois disso, tornou se imperativo abrir o cofre dos sentimentos e trazer até nós mais poemas que já não suportavam permanecer fechados. Surgiu então o seu mais recente livro, “Viagem Poética”, do qual tive o grande prazer de vos ler alguns poemas.
Desde já vos convido a percorrer este compêndio de arte poética, enriquecido com fotografias ou reproduções de telas da Majao, criadas em diálogo com os textos.
Hoje, a Deolinda continua a escrever — para aliviar o coração das mágoas que a vida traz, mas também para enaltecer os sentimentos mais sublimes.
Nesta rubrica radiofonica a ela dedicada, lemos os seguintes poemas :
- Uma folha ressequida
- Banco antigo
- Perguntei
- Poeta vagabundo
- Cheiro a Marsia
Embora na rádio tenham sido lidos cinco poemas, o formato do jornal exige síntese. Por isso, escolhi apenas um — aquele que, pela sua força e clareza, melhor representa o universo poético partilhado na emissão.
Perguntei
Um dia ao vento
Onde era a tua morada
O vento
Não respondeu
O vento não disse nada
Perguntei
Á lua nova
O nome da tua rua
Disse
Que é um labirinto
Não sabe onde se situa
Perguntei
Ao sol nascente
O número da tua porta
Também
Nao respondeu
O assunto é « letra morta » !
Neste texto, a poetisa pergunta ao vento, à lua e ao sol por alguém que já não encontra. E recebe apenas silêncio. No fim, percebe que a busca terminou, que “o assunto é letra morta”. É um poema breve, mas cheio de humanidade — uma reflexão sobre a ausência e sobre aquilo que o tempo leva sem devolver. Humanidade é, aliás, o que a poetisa transmite em toda a sua obra.
Convido os, pois, a lerem os poemas da Deolinda, quer os deste novo livro Viagem Poética, quer os do primeiro, lançado em 2017, Versejando.
Que esta leitura constitua, assim, uma oportunidade de reconhecer e valorizar a sensibilidade poética da autora, cuja obra enriquece de forma distinta o nosso património cultural.
Boa leitura
