Daqui contemplo o mar. Esse mar imenso que nunca se cansa de beijar a terra, que muda de cor conforme a luz, mas nunca perde a sua alma. Há dias em que é um espelho de serenidade, noutros, veste-se de força e tempestade.
Da minha varanda vejo passar os barcos. Não são apenas embarcações que rasgam as ondas. São histórias vivas de homens e mulheres que desafiam o oceano, levando consigo o pão de cada dia, a coragem de quem parte sem saber como regressará e a esperança de voltar ao abraço da família. Cada barco leva consigo um pouco da identidade do povo desta Vila de Rabo de Peixe que aprendeu a fazer do mar um companheiro de vida.
Ao longe, desenha-se uma ilha no horizonte. E basta esse contorno para que a memória comece a viajar. Ela fala-me de outras ilhas, daquelas que alimentaram o meu imaginário de criança, das viagens sonhadas entre o Pico, o Faial e São Jorge, o eterno Triângulo, onde o mar nunca separa verdadeiramente, mas une corações e histórias. Há distâncias que só existem nos mapas, na alma açoriana, as ilhas vivem umas nas outras.
Da minha varanda vejo também as rochas, onde o mar abraça a terra. Não é um abraço apressado. É paciente, fiel, eterno. Talvez seja por isso que gosto tanto desta varanda. Porque ela não é apenas um lugar da casa. É um lugar da alma. É daqui que aprendo a contemplar, a agradecer e a recordar. É daqui que descubro que Deus também se deixa encontrar no rumor das ondas, no voo das gaivotas, na coragem dos pescadores, no horizonte sem fim e na beleza discreta de cada novo amanhecer. Da minha varanda, não vejo apenas a paisagem. Vejo a vida.
Da Minha Varanda…
