A Nossa Sopa de Peixe…


Este fim de semana, somos convidados a ir ao Porto de Pescas de Rabo de Peixe provar um bom caldo de peixe. Mas, confesso que, sempre que ouço falar de caldo de peixe, a memória leva-me inevitavelmente à sopa de peixe do meu pai.
A minha mãe costumava dizer, entre risos, que foi ela quem ensinou o meu pai a fazer o caldo de peixe. Mas, neste caso, acho que o discípulo acabou por ultrapassar o mestre…
A sopa de peixe de meu pai era, sem dúvida, dos pratos mais apreciados lá em casa. Quando os amigos e colegas apareciam para almoçar ou jantar, o meu pai fazia questão de preparar a sopa, muitas vezes com o peixe que ele próprio tinha pescado. Era bonito vê-lo na cozinha, num verdadeiro entusiasmo…
Mas havia um segredo que ele guardava com todo o cuidado. Depois de pronto, o caldo tinha de descansar. Cobria a panela com toalhas e cobertores e tudo o que encontrasse. Dizia que não era apenas para o manter quente. “O caldo precisa de descansar”, afirmava. E, de facto, havia qualquer coisa de mágico naquele tempo de espera. O sabor era muito mais intenso. Recordo também, com enorme saudade, um dos maiores apreciadores daquela sopa, o saudoso Monsenhor Júlio da Rosa. Era uma alegria vê-lo à mesa. Saboreava cada colherada com um entusiasmo contagiante e, quando chegava à cabeça do peixe, segurava-a nas mãos como quem recebe um troféu. Não era apenas uma refeição, era um momento de amizade e de partilha. Hoje, percebo que aquele caldo nunca foi apenas uma receita. Era uma forma de reunir e de acolher. O ingrediente mais importante nunca esteve na panela, mas no coração de quem preparava a sopa de peixe.
Talvez seja essa a grande lição desta memória. A vida, como um bom caldo de peixe, não se faz apenas com o bom tempero, mas com o amor com que acolhemos as pessoas. Porque os melhores sabores não ficam na boca… ficam para sempre na memória e no coração.