Um livro para ler devagar neste verão


Chegou-me às mãos o livro “A Mística do Instante”, do Cardeal José Tolentino Mendonça, uma obra que nos convida a olhar para a vida com mais calma e mais atenção. É de leitura simples, bonita e cheia de ideias que podem fazer diferença no nosso dia a dia. De facto, é uma boa sugestão para este verão.
Vivemos sempre a correr. O relógio manda na nossa vida, o telemóvel não nos dá descanso e, muitas vezes, nem damos conta das coisas boas que acontecem à nossa volta. Estamos tão ocupados com o que vem a seguir que nos esquecemos de viver o momento presente. É precisamente sobre isso que o Cardeal José Tolentino Mendonça aborda neste livro.
O autor, poeta e teólogo, mostra que não é preciso fazer grandes viagens nem viver longe das pessoas para encontrar paz e sentido para a vida. Pelo contrário. A felicidade e a beleza podem estar à nossa volta, nas coisas mais simples, como por exemplo numa conversa, num abraço, no cheiro da terra depois da chuva, no sabor de um café ou no silêncio de um fim de tarde.
Ao longo das páginas, ele fala dos cinco sentidos (a visão, a audição, o tato, o paladar e o olfato) para mostrar que é através deles que descobrimos o mundo e também aquilo que nos toca por dentro. É uma forma muito bonita de dizer que devemos prestar mais atenção ao que vemos, ouvimos e sentimos todos os dias. Fiquei fascinado pela forma poética como ele descreve o papel dos sentidos no nosso dia a dia.
Para mim, uma das maiores qualidades deste livro é que ele não foi escrito apenas para pessoas religiosas. Embora fale da fé e da espiritualidade, qualquer leitor pode rever-se nas suas palavras. O autor evita uma linguagem complicada e escreve de forma clara, próxima e humana. Por isso, tanto quem acredita como quem tem dúvidas ou não tem religião encontrará naquela obra literária motivos para refletir sobre a vida.
Outra mensagem importante que retive ao ler aquele excelente trabalho de reflexão é de que ninguém precisa de ser especial para viver momentos de verdadeira alegria ou de paz. A chamada “mística”, palavra que muitas vezes parece difícil, afinal está ao alcance de todos. Basta saber parar, observar e valorizar os pequenos gestos que tantas vezes passam despercebidos. É preciso valorizar os pequenos detalhes que nos acontecem a cada instante para darmos atenção aos pormenores que têm um significado sobrenatural para cada um dos seres humanos.
Nesta época de férias, em que há mais tempo para descansar e ler, “A Mística do Instante” é, por isso, uma excelente sugestão. Não é um livro para ler à pressa. Vale a pena ir descobrindo cada capítulo com calma, deixando que as palavras façam o seu caminho. Muitas vezes basta uma frase para nos fazer olhar de outra maneira para a nossa própria vida. Ele exige apenas disponibilidade interior. Não se devora; saboreia-se. É daqueles livros que ficam na mesa de cabeceira e aos quais regressamos porque cada releitura oferece uma descoberta diferente. Talvez por isso tenha conquistado tantos leitores desde a sua publicação.
Num tempo em que ouvimos falar tanto de sucesso, dinheiro e velocidade, o Cardeal madeirense José Tolentino Mendonça lembra-nos uma verdade muito simples: a vida é feita de pequenos momentos. E são esses momentos, quando vividos com atenção, entusiasmo e gratidão, que dão verdadeiro sentido aos nossos dias.
Outro dos méritos da obra é a linguagem. Elegante sem ser rebuscada, profunda sem cair na abstração, literária sem perder clareza. Cada página revela a sensibilidade do poeta, mas também a inteligência de quem sabe que as grandes ideias só ganham vida quando conseguem tocar o leitor comum. É um livro que se pode abrir ao acaso e encontrar sempre uma frase capaz de nos acompanhar durante o dia inteiro.
Este verão, entre um mergulho no mar, um passeio ou uma tarde à sombra, vale a pena levar este livro na mochila. É uma leitura acessível, agradável e inspiradora. Daquelas que não acabam quando se fecha a última página, porque continuam a fazer companhia muito tempo depois. E isso é, talvez, o melhor elogio que se pode fazer a um livro.
Boas férias.